Blog da Ana Maria Bahiana

Categoria : A Indústria

3001: a saga de 2001 continua, com Ridley Scott no comando
Comentários 4

Ana Maria Bahiana

 

1349282020_2001_7

Seis anos depois de sua morte, a obra do visionário Arthur C. Clarke está presente como se ele nunca tivesse ido embora: o canal SyFy está produzindo, em parceria com a Scott Free de Ridley Scott, uma minissérie baseada em seu livro 3001: A Odisséia Final, último livro da saga Uma Odisséia no Espaço. O primeiro livro da série – 2001, Uma Odisséia no Espaço — foi transformada num filme clássico da ficção científica por Stanley Kubrick. Lançado em 1969, 2001 revolucionou a linguagem cinematográfica da ficção científica, contribuiu para o retorno do gênero ao centro da produção audiovisual e abriu o caminho para Star Wars (cuja equipe contou com vários técnicos que haviam trabalhado em 2001.)

2001 é um dos filmes favoritos de Christopher Nolan e a principal inspiração para seu novo trabalho, Interstellar, que estréia em todo mundo no próximo dia 6. (Clarke faz uma ponta em Interstellar como parte de uma série de entrevistados que, em algumas cenas do filme, narram suas experiências na Terra.)

Com produção de Scott e roteiro de Stuart Beattie (Colateral, 30 Dias de Noite), 3001 encerra a jornada de 2001 Uma Odisséia no Espaço e revela o destino final de seus protagonistas, começando com um dos astronautas, cujo corpo é resgatado , congelado, flutuando no espaço. Além de 2001 e 3001, a saga Odisséia no Espaço inclui os livros 2010 – adaptado para a tela em 1984 -, e 2061, que ainda não foi levado ao cinema ou TV. Uma outra obra importante de Clarke, Rendez-vous com Rama, está há décadas rolando pelo labirinto do desenvolvimento – David Fincher tem grande interesse em dirigir uma adaptação de Rama, que ele considera uma influência fundamental nas séries de filmes Star Trek e Alien.

A exploração espacial está mesmo voltando como tema – além de 3001, Ridley Scott está produzindo e dirigindo uma adaptação do best seller O Marciano, de Andy Weir, desta vez para a tela grande – o elenco é encabeçado por Matt Damon, no papel de um astronauta que é esquecido na superfície de Marte por seus colegas de exploração,

3001 ainda não tem data prevista de estréia, mas vale esperar – e bom saber que o SyFy está mesmo dando um upgrade em sua programação


Guerra nas pipocas: a TV e as mulheres estão ganhando…
Comentários 2

Ana Maria Bahiana

game-of-thrones-season-4-episode-9-the-watchers-on-the-wall-wildlings-hboMinha vontade esta semana era escrever exclusivamente sobre Game of Thrones, sobre como esta quarta temporada está  elevando ainda mais o nível já alto da série . E como Neil Marshall, que já havia botado pra quebrar na batalha do Blackwater, na  segunda temporada, definitivamente colocou a televisão num nível antes povoado apenas por gigantes como David Lean, William Wyler , John Ford. Porque dirigiu Watchers on the Wall como antes se dirigiam os grandes filmes de combate, tendo a petulância de incluir este plano sequência (que já vais er devidamente anexado ao meu curso…) Nessa hora é  bom lembrar  que Neil Marshall assinou alguns dos meus filmes de ação/terror favoritos dos últimos anos: Dog Soldiers, Abismo do Medo, Centurion. Tudo explicado: o bom cinemão está mesmo indo para a TV. Mas existem outros assuntos palpitantes aqui na cidade do outro lado do continente – e da Copa. Por exemplo:  edge-of-tomorrow-trailer-2

 

O que fazer com Tom Cruise? A vida é não é fácil quando um jovem mega-astro  passa dos 50 anos deixando para trás uma carreira muito mais de estrela do que de ator. Cruise é um dos nossos últimos, senão o último, puro “astro de Hollywood”. Sua glória se baseia não em como intrepreta seus papéis mas em como os papéis se transformam nele, Tom Cruise. Seus anos de esplendor estão entre Negócio Arriscado e Guerra dos Mundos, com um apogeu ali entre Top Gun e Magnolia, com um Kubrick ensanduichado no meio. Tempos mudaram, plateias mudaram ainda mais e, agora, No Limite do Amanhã tomou uma surra na bilheteria norte-americana, apesar dos elogios da crítica (merecidos – é um filme muito mais inteligente do que precisa). A bem da verdade a Warner, que é um verdadeiro rolo-compressor no marketing e distribuição, foi, digamos assim, super discreta e contida no lançamento de Limite do Amanhã. O empurrão maior foi reservado para os mercados internacionais, onde o filme foi lançado antes da estréia norte americana (sentiram a pressão aí?) E onde está fazendo uma bela carreira, com mais de 82 milhões de dólares em caixa – indica um caminho possível:  os anos dourados de Cruise estão fora dos Estados Unidos. É um padrão comum a todos os grandes astros de ação dos anos 80 e 90. Será que algum dia Cruise se imaginou na mesma categoria que Schwarzenegger e Stallone? hazel gus on set

 

Quem está dominando as bilheterias? Quem deu surra em No Limite do Amanhã foi A Culpa é Das Estrelas, a própria antítese do filme de ação/sci-fi.  É a segunda vez  em duas semanas desta temporada-pipoca, em geral dominada por adolescentes masculinos e familias, que o público feminino dá as cartas : Malévola passou de longe Um Milhão de Maneiras de Pegar Na Pistola (não briguem comigo – foi esse o título que o filme de Seth MacFarlane ganhou no Brasil) ; e acho que a mesma coisa vai acontecer internacionalmente. O mito de que apenas rapazes entre 14 e 39 anos vão ao cinema em quantidades suficientes para alegrar os grandes estúdios não se sustenta mesmo.  Bastava olhar o último relatório da Motion Picture Association of America para o ano de 2013: 51% dos compradores de ingressos são mulheres; 52% das pessoas que vão ao cinema também são mulheres. Num recente seminário da indústria, aqui em LA, o workshop sobre “como atrair o público feminino” estava superlotado. Eu não fui mas tenho uma sugestão simples: contratem mais mulheres roteiristas, diretoras, produtoras. Opcionem mais obras onde mulheres são protagonistas. O “público feminino” não é um gueto – é metade do mundo. E parece que é a metade que está ganhando. 680x478

 

Por que O Destino de Júpiter foi chutado para 2015? Vamos voltar ao marketing da Warner? Porque a resposta está aí….  Duas palavras: Cloud. Atlas. Que custou 102 milhões de dólares e fez 29 milhões e trocados nos Estados Unidos e Canadá, sendo salvo, assim-assim, pelos mercados internacionais (olha eles aqui de novo…). E mesmo assim… Certo, o motivo oficial pode até ser mesmo a pós produção, os efeitos digitais, etc. Mas suspeito que a razão mais profunda é estratégica: 18 de julho, a data original, é o filé da temporada-pipoca, super competitiva, onde um passo em falso é muito mais fatal do que os tranquilos idos de fevereiro de 2015, época morninha, sem grandes expectativas, sem a necessidade de uma campanha maciça ( e caríssima) de marketing . Coisa semelhante aconteceu com a Sony e Caçadores de Obras Primas – só que da temporada-ouro para o mesmo banho-maria do começo do ano. Em outras palavras: os executivos de distribuição e marketing deram uma boa olhada no filme e tiveram aquele proverbial frio na barriga, Que não era de emoção. E ,pra terminar, um lembrete: Penny Dreadful está chegando ao Brasil em julho, pela HBO (aqui, a série é da arqui rival Showtime). Não perca. Principalmente se você é fã de terror old school, com inclinações góticas. E gosta de coisas muito bem escritas.


Comentários COMENTE

Ana Maria Bahiana

 

 

game-of-thrones-season-4

De volta a Los Angeles em plena modorra pós-prêmios, pré-pipoca, quebrada apenas por dois escândalos de natureza sexual: as alegações de estupro contra o diretor Bryan Singer, bem na hora em que seu novo X Men vai estrear, e aquela cena no último episódio de Game of Thrones.

Estou acompanhando  o primeiro com luvas e máscara cirúrgica , para evitar tanta poeira tóxica. O segundo é uma obra de ficção, claro – e eu já havia alertado aqui que esta temporada continha uma das cenas mais perturbadoras de toda a história da TV.  Não vou ficar falando muito por conta dos famosos SPOILERS. Mas para mim estes são os pontos principais:

–       entendo a reação aqui, nos EUA, por conta de um elemento específico – a TV  (e o cinema) sempre  usaram a violência contra a mulher quase como um cacoete narrativo, um default, e recentemente esta forma particular de violência – o estupro – tem sido usada com ainda mais frequencia.

–       O mundo criado por George R. R. Martin em sua saga é brutal como nós éramos na antiguidade e na idade média (e como, infelizmente, ainda somos, apesar de todo nosso verniz de civilização…). Dentro dos horrores já perpretados pelos personagens de Game of Thrones, a tal cena do episódio passado faz sentido.

–       Sim, a cena está nos livros mas tem uma perspectiva diferente do que aconteceu no episódio. GRRM está meio que saindo de fininho quanto às alterações que os criadores da série se permitiram fazer, mas numa coisa ele tem razão – no seu texto a cena é contada do ponto de vista de Jaime. Na série, texto e direção se colocam de fora, num terceiro ponto de vista. Seria esse ponto de vista o mais exato sobre o que realmente se passou naquele momento? (Tomando “realmente” com certa licença, claro – estamos falando de Westeros…)

De todo modo, esse bate boca me lembrou, mais uma vez, quem realmente está puxando este trem: a TV, ou aquilo que a gente costumava chamar de TV.  Este tipo de discussão, que nasce espontâneamente (e não como marketing viral…)  como resultado do eco de uma representação fictícia que cutuca problemas reais, costumava ser, aqui, algo que o cinema era em geral capaz de fazer.

Ainda hoje duas notícias importantes confirmaram o avanço da TV como quem comanda o mercado. A HBO, sempre tão ciosa com a originalidade e o controle do seu conteúdo, acaba de fechar uma parceria de distribuição exclusiva com a Amazon . Isso é a mesma coisa que, vinte anos atrás , uma produtora independente como a Miramax ou  Working Title fechando com uma Disney ou Paramount. O peso que a notícia está tendo na midia e nas conversas demonstra claramente para onde o business está indo.

E tem mais: suprindo uma lacuna que o cinema sempre tentou mas nunca conseguiu atender direito, a Netflix está anunciando sua primeira produção inteiramente em espanhol, produzida inteiramente no México, com elenco latino americano, e dirigida pelo mexicano Gaz Alazraki, responsável por um dos maiores sucessos de bilheteria en español, a comédia Nosotros Los Nobles. Ainda sem título e com estreia prevista para 2015, a série  de 13 episodios se passa no mundo do futebol profissional. Ou seja: gol de placa.

Mais TV no próximo post, com a minha nova série-obsessão…


Ben Affleck como Batman? Provavelmente não.
Comentários 198

Ana Maria Bahiana

Ben Affleck.jpg

 

Eis o que aprendi hoje de uma fonte muito segura: Ben Affleck  NÃO será o Batman do filme Super-Homem X Batman de Zach Snyder. A Warner apertou todos os botões de pânico com a violenta rejeição dos fãs à escolha do novo homem morcego e está há meses estudando um modo de resolver a batata quente sem perder a pose. Segundo o meu (muito informal) terno Armani. o estúdio sabe perfeitamente para quem está fazendo o filme — para os fãs dos dois super-heróis– e, portanto, sabe exatamemte o risco que corre se não agradar a galera.

A questão é como fazer a troca de tal modo que não pareça que a poderosa Warner está se curvando aos gostos e desgostos dos fãs…

O anúncio da nova data de estreia do projeto – 2016- é parte dessa estratégia, um modo de ganhar tempo para escolher o novo Batman e fazer o movimento anti-Affleck esfriar um pouco. Em alguns meses, me garante o Armani, Snyder e Affleck terão uma “divergência criativa”  e/ou Affleck terá um “conflito de agenda” com o novo cronograma de produção.

E quem assume a máscara? O paladino do Leblon provavelmente não. Nomes que ouvi até agora: Josh Brolin e , de novo, Michael Keaton.

E vocês, o que acham? Quem seria um bom Batman-coroa?


Hollywood sem Paul Walker: chocada, triste
Comentários COMENTE

Ana Maria Bahiana

fast

Tão cedo esta cidade não vai parar de falar sobre a morte estúpida de Paul Walker. Ontem à noite numa pré-pré estreia de O Lobo de Wall Sreet, na Paramount, o assunto não era nem Scorsese nem DiCaprio, apenas Paul Walker, Paul Walker, Paul Walker.

Há muitos motivos para isso: o inesperado da tragédia, ceifando uma vida de 40 anos e cortando uma carreira em ascensão; o cruel paralelo com os filmes que fizeram a fama de Walker, a franquia Velozes e Furiosos; a violência do acidente, acrescentando mais uma camada de lenda e luto a uma linhagem de tragédias sobre rodas que incluem James Dean, Jayne Mansfield e, mais recentemente, Ryan Dunn, da franquia Jackass.

Além de tudo isso, Walker era uma pessoa legitimamente querida no meio (não confundir com pessoas que todo mundo tem obrigação de gostar para manter uma carreira…) Como me lembrou um amigo produtor que trabalhara com ele nos dois primeiros Velozes e Furiosos, Walker era  pontual, super profissional , gentil com todos no set, e sempre disposto a ajudar os colegas. “Além de tudo, era um ser humano legal.”, me disse o produtor. “E um grande pai, o que poucas pessoas sabem.”

Walker tinha uma filha de 15 anos , Meadow Rain, com uma ex-namorada e os dois se viam muito, sempre. Meadow estava, inclusive, no evento beneficente organizado por Walker e seu amigo, sócio e companheiro de infortúnio, Roger Rodas, na oficina de carros ultra potentes Always Evolving.

A Polícia de Valencia, no vale de Santa Clarita, ao norte de Los Angeles, ainda está investigando as causas do acidente – e a identificação  dos corpos de Walker e Rodas, através da arcada dentária. Uma trilha de fluido deixada pelo Porsche Carrera GT 2005 nos meros dois quilômetros rodados da oficina até o local do desastre está levantando suspeitas de falha generalizada dos controles do veículo.

Um informante anônimo teria indicado à policia que Walker e Rodas estavam apostando corrida – um hobby ilegal e comum na região de Valencia, e mais uma nota de coincidência trágica com a carreira do ator. (Esta hipótese está sendo descartada pelos investigadores que agora estão focando na velocidade e nos possíveis problemas estruturais e mecânicos do Porsche).

 

Walker numa cena de Hours.

Walker numa cena de Hours.

Resta saber também o que será da franquia Velozes e Furiosos, uma das propriedades intelectuais mais valiosas da Universal, especialmente pelo enorme apelo que tem nos mercados internacionais. O sétimo filme da série estava sendo rodado quando Walker morreu – as filmagens estavam suspensas para o feriado do Dia de Ação de Graças e seriam retomadas em breve, em locação em Dubai.

Walker deixou dois filmes completos: Hours, sobre Nova Orleãs durante e depois do furacão Katrina, que será lançado aqui nos Estados Unidos, como previsto, semana que vem; e o policial Brick Mansions, produzido por Luc Besson e dirigido pela estreante Camille Delamarre, que tem estreia prevista para novembro de 2014.


Seis ou sete coisas que aprendi semana passada
Comentários 8

Ana Maria Bahiana

scrapbook

Durante 10 dias, terminando neste final de semana, tive o  prazer e o privilégio de guiar um grupo de cerca de 20 produtores, diretores, executivos e autoridades de cinema, TV e publicidade do Brasil por alguns dos lugares onde se forjam e se definem os caminhos da industria do audiovisual, aqui: estúdios, produtoras independentes de todos os tipos, organizações de classe, agências e – cereja no sundae – a Lucasfilm.

Foi uma iniciativa do Sebrae em parceria com a Apro e o Film Brasil, com curadoria minha e produção da Boathouse Row Productions. Muito do que vimos, ouvimos e discutimos infelizmente não pode ser compartilhado – são informações confidenciais que ainda não estão prontas para chegar a público. Só o que vimos na Lucasfilm – o desenvolvimento da tecnologia que vai ser empregada no novo ciclo Star Wars – já dava para deslocar a mandíbula várias vezes. Mas se eu contar acho que vou receber a visita imediata de um batalhão de Storm Troopers…

Parte dos integrantes do Sebrae Media Experience  (e eu) aos pés de Yoda, na Lucasfilm, San Francisco

Parte dos integrantes do Sebrae Media Experience (e eu) aos pés de Yoda, na Lucasfilm, San Francisco

Mas estes foram alguns dos temas recorrentes das visitas:

  1. O modelo do blockbuster não vai durar muito mais. Nem mesmo a força dos mercados internacionais – entre eles o Brasil – é capaz de sustentar, a longo prazo, o esquema de  produzir e lançar apenas um punhado de títulos caríssimos que precisam fazer o PIB de um pequeno país para dar lucro.
  2. O filme de pequeno orçamento está fazendo uma volta triunfal. “O sonho, a meta de todo grande estudio agora é acertar com um título que tenha custado muito pouco mas ache rapidamente sua plateia”, me disse um terno Armani muitissimo bem informado.
  3. O que se chamava “cinema independente” agora se chama “TV”. Os projetos que ficam entre o pequeno orçamento e o blockbuster estão rapidamente se transformando em séries, mini-séries e filmes de TV. A era de ouro da TV norte americana, hoje, é resultado direto do extermínio do filme de médio orçamento e do êxodo de talento – roteiristas, diretores, atrizes, atores – que veio com ele.
  4. O que se chamava “TV” agora se chama… o que você quiser. Netflix. Hulu. Amazon. You Tube. Em muito pouco tempo não serão mais o rabo que abana o cachorro… serão o totó inteiro.
  5. O segredo do sucesso está em quatro palavras. Criatividade. Paixão. Colaboração. Sorte. Perdi a conta de quantas vezes isso foi dito, de diversas maneiras. “Fórmulas e repetições funcionam até certo ponto”, me disse outro terno Armani dos mais poderosos. “Mas no fim das contas as carreiras só se fazem mesmo com convicções e com a capacidade de colaborar.”
  6. A realidade é algo cada vez mais relativo. As empresas de ponta em pesquisa e desenvolvimento – visitamos duas, a House of Moves em Los Angeles e a  Industrial Light and Magic em San Francisco – estão caminhando para um modo de produção que desafia o próprio conceito de realidade como algo separado da percepção.  Apavorante. Lindo.

 

E uma outra conclusão, que  me deixa muito feliz: o Brasil está na mira de todo mundo, aqui. Eu sempre disse que havia um lugar reservado para nós no grande sarau que são as trocas e parcerias do audiovisual internacional. Agora é mais que a hora de sentar-se à mesa.

Cartaz na porta da sala de reuniões da Writers Guild of America.

Cartaz na porta da sala de reuniões da Writers Guild of America.


Minha estreia na TV… dos Estados Unidos
Comentários 3

Ana Maria Bahiana

Aqui vai, como combinado, minha estreia no programa de TV Just Seen It, que vai ao ar semanalmente pelo canal PBS, o equivalente à TV Cultura daqui. Just Seen It é criação do showrunner David Freedman, um admirador do clássico programa de Ebert & Siskel, At the Movies. Ele modernizou a fórmula colocando os resenhistas num ambiente mais informal, aumentando o número para três pessoas e incluindo profissionais de cinema – como minha companheira de comentário, Brenna Smith, atriz.

O papo aqui é sobre Uma Questão de Tempo (About Time), do simpático Richard Curtis, roteirista de, entre muitos outros,  Quatro Casamentos e um Funeral Um Lugar Chamado Notting Hill e diretor de Simplesmente Amor (que eu adoro) e Pirate Radio. Aqui, no entanto….

Uma Questão de Tempo estreia amanhã aqui nos Estados Unidos e dia 6 de dezembro no Brasil.

 


“As pessoas não tem mais que ir ao cinema”, e outros sinais da revolução
Comentários 11

Ana Maria Bahiana

 

netflix

Três ecos do fim de semana ilustram uma industria em absoluta transformação:
_ Falando a profissionais de efeitos especiais no fim de semana, Chris Meledrandi, CEO da Illumination Entertainment, responsável por fazer uma ponte importante entre animadores europeus e o mercado internacional com os dois Meu Malvado Favorito, repetiu exatamente o que Steven Spielberg e George Lucas disseram meses atrás: os estúdios estão canibalizando a si mesmos com a obsessão do mega-mega-blockbuster. “Eles ainda não compreenderam que há uma geração que simplesmente não precisa ir ao cinema.”, ele disse. “Há uma variedade de outras formas de entretenimento audiovisual competindo com o ir ao cinema.”. Meledrandi condenou a “resposta de pânico” dos estúdios a essa realidade criando apenas lançamentos gigantescos que o mercado não tem condição de absorver. “Um super filme evento devora a plateia de outro super evento. E isso acontece com filmes de ação e de animação, do mesmo modo.”

_ Curiosamente, no mesmo evento (mas numa outra palestra), o diretor Henry Selick  (Coraline, O Estranho Mundo de Jack) desceu o pau na franquia Meu Malvado Favorito, colocando os filmes da Illumination num bolo de “desenhos feitos em fórmula, todos parecidos uns com os outros, onde não é possível distinguir o estilo ou a criatividade de quem fez”. A saída? “As outras midias”, Selick disse. “Ponho mais fé na TV por assinatura e em opções como Netflix, Amazon e Google.” Dois dias depois, Selick fechou com a independente FilmNation para dirigir um filme com atores, adaptando o livro infantil A Tale Dark and Grimm.

_ Num outro evento, promovido pela Film Independent, que reúne produtores e diretores independentes,  Ted Sarandos, o presidente de conteúdo da Netflix, resumiu tudo e foi um passo adiante: não são só os grandes estúdios os responsáveis por um apocalipse iminente – os exibidores são até piores.  Novamente, Sarandos lembrou que ir ao cinema é algo cada vez mais remoto para as novas gerações – e para todas as pessoas, de qualquer idade, que moram em locais sem um cinema próximo.  “O cinema não é o único lugar onde se pode ver um filme”, disse Sarandos. ” Os produtores precisam se conscientizar disso, e os distribuidores precisam parar de se deixar intimidar pelos donos de cinemas e lançar os filmes simultaneamente em todas as plataformas- inclusive a Netlflix.”

Isso vai render…


Notícias da não-TV: Netflix, Amazon aumentam poder de fogo
Comentários 3

Ana Maria Bahiana

 

John Goodman e um amigo numa cena da série Alpha House, da Amazon

Enquanto os canais “tradicionais” debatem que séries continuam e quais vão pro além, as notícias quentes da semana vem da outra TV, aquela que baixa em qualquer lugar onde haja uma tela de qualquer tamanho e acesso à internet.

* Em seu relatório anual para os acionistas, a Netflix anunciou que tem mais de 40 milhões de assinantes nos Estados Unidos – ou seja, muito mais que a HBO que, segundo analistas do mercado, tem cerca de 28. 7 milhões de assinantes (o canal não revela oficialmente quantos assinantes tem). É um marco: um serviço de distribuição de conteúdo fora do sistema tradicional (TV aberta/TV paga) com um volume de público maior que seus antepassados.

* Como consequência de sua base de audiência, aliada ao que o relatório chama de  “análise do comportamento de consumo de nossos espectadores”, a Netflix anunciou que vai dobrar  seu investimento em séries originais, aumentado e diversificando a oferta, acrescentando longa-metragens ao mix e alocando orçamentos “modestamente” mais generosos. Este é um ponto de divergência na competição: a HBO gasta 40% de seus recursos em produção original, enquanto a Netflix prevê, para 2014, a reserva de 10% de seus recursos para o mesmo fim. “Ainda temos muito espaço para crescer”, disse o diretor de produção Ted Sarandos.

* Tem espaço e mais competição:  depois de alguns balões de ensaio a Amazon está entrando firme na distribuição de conteúdo próprio. A sátira política Alpha House, estrelada por John Goodman e criada e escrita pelo cartunista Garry Trudeau, a série de comedia Betas, sobre a vida nas start ups do Vale do Silício, e três seriados infantis estreiam em novembro . E  a Amazon já anunciou que a próxima leva trará séries de drama na próxima leva…


A Amazônia vira tendência em Hollywood …mais uma vez
Comentários 1

Ana Maria Bahiana

 

Cena de The Green Inferno, de Eli Roth

Numa semana paradona aqui em LA, espremida entre o feriadão do Dia do Trabalho norte-americano e o Ano Novo judaico e com metade da cidade espalhada pelos festivais de Veneza e Toronto, uma notícia se destacou para mim: depois de muitos anos de idas e vindas, acelerações e desistências, o projeto de The Lost City of Z vai andar.

Brad Pitt, que, em 2008, opcionou junto com a Paramount os direitos do livro de David Grann (que por sua vez expandia sua sensacional matéria de 2005 para a revista New Yorker), será apenas o produtor. Em seu lugar, no papel principal, do explorador inglês Percy Fawcett, entra Benedict Cumberbatch, o ator mais solicitado do momento (só neste fim de ano ele poderá ser visto em O Quinto Poder, 12 Years a Slave e August:Osage County. Sem falar no Star Trek do primeiro semestre e a nova temporada de Sherlock, que vem por aí…). James Gray assume a direção.

Percy Fawcett….

… e Benedict Cumberbatch.

Tenho acompanhado esse projeto por dois motivos.  Um, porque acho a história de Fawcett fascinante :obcecado em descobrir uma cidade perdida na Amazônia, possivelmente o mesmo Eldorado que enlouqueceu tantos outros exploradores, Fawcett desapareceu na Amazônia em 1925, deixando um rastro de mistério e controvérsias que ainda não terminou.

Dois, porque é uma dessas raras histórias  que permite uma real colaboração entre o Brasil e o cinema internacional em bases mutuamente produtivas.

Ainda não se sabe como essa produção vai ser tocada em termos práticos. Com um bom roteiro e as mãos de um diretor sensível como James Gray, pode ser uma grande história sobre o eterno caso de paixão, ilusão e rejeição entre europeus e a força absoluta da Amazônia, que tão raramente é bem capturada pelo cinema, onde as coisas acabam ficando mais para Anaconda do que, digamos, o Aguirre de Werner Herzog.

 

“Canibais” escolhem o lanche, em The Green Inferno

No outro extremo das minhas expecativas está The Green Inferno, de Eli Roth, que está em pré-estréia no festival de Toronto. Roth disse que sua principal inspiração foi o terror-trash/fake reality Holocausto Canibal (Ruggero Deodato, 1980), embora (palavras dele) “com o visual de um filme de Terrence Malick”.

Numa curiosa nota à parte, a produção exibiu Holocausto Canibal para a população do isolado vilarejo na Amazonia peruana que serviu de locação a Inferno. Segundo Roth, o pessoal local achou que era uma comédia divertidíssima.

Sendo Eli Roth, a história dos ativistas ecológicos que se embarafustam pela Amazonia adentro e acabam capturados por uma tribo de canibais já é mais ou menos previsível. O que achei interessante, aqui, foi a colaboração latino-americana em torno do projeto: o roteiro do uruguaio Guillermo Amoedo e do chileno Nicoláz López (responsáveis por Aftershock, que Roth estrelou e produziu) , as locações no Peru e no Chile. Um lugar onde, nas palavras de Roth “está havendo uma nova renascença no cinema, na música… é um dos lugares com mais energia, hoje.”