Blog da Ana Maria Bahiana

Categoria : A Indústria

Woody Allen: voando para o Rio?
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Ana Maria Bahiana

Estava eu bem feliz acabando minha resenha de Bling Ring quando esta momentosa notícia atravessou minha tela: Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, teria oferecido “100% de financiamento” para que Woody Allen vá fazer um filme no Rio de Janeiro.

Existem alguns aspectos curiosos nessa notícia. A primeira é o modo como a oferta teria sido feita – de acordo com a matéria, os recados de Paes teriam sido enviados ao diretor através da irmã e do vizinho dele, o arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Não exatamente o modo como essas coisas são  acertadas, em geral.

Em segundo lugar, não sei bem como uma cidade pode financiar 100% de um filme. Allen contou com grande apoio, serviços e descontos fiscais em Barcelona, Roma, Paris, Londres e, agora, San Francisco, mas isso cobre apenas parte do custo de produção. Até porque dinheiro público, nesses lugares, é dinheiro público e não algo que possa ser desembolsado livremente segundo os caprichos do poder executivo.

Nota importante: embora os filmes de Allen custem pouco para os padrões daqui,eles ainda saem a um custo entre 15 e 25 milhões de dólares….

Há pelo menos cinco anos o Rio tenta atrair Woody Allen. Já houve uma negociação ao vivo, no Rio, entre a RioFilme e representantes do diretor. Ano passado perguntei a Allen como ele via essa possibilidade. Ele respondeu: “É claro que gosto muito da ideia. Sempre tive vontade de filmar na América do Sul, que é uma presença importante na minha formação como fã de cinema. Mas preciso achar a história certa. Uma história que tenha a cara do Rio.”

Perguntei o que, para ele, era “a cara do Rio” . Resposta: “Algo sensual, passional,exótico. Infelizmente não tenho nada assim na minha gaveta.”

 

Tags : Woody Allen


D23 Expo: o futuro da Disney é previsível, lucrativo e às vezes poético
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Ana Maria Bahiana

Passei  três dias intensos no coração do mundo Disney e vivi para contar a história para vocês. Mais sorte que a do meu computador, que faleceu em algum ponto entre Buzz Lightyear e Maleficent e ainda não ressuscitou (o que explica em grande parte o meu sumiço daqui).

No passado, a Disney fazia encontros modestos com a midia, uma vez por ano, para mostrar seus novos projetos. Lembro com carinho de um em particular, numa sala alugada em West Hollywood, onde Jeffrey Katzenberg anunciou A Bela e a Fera, mostrando croquis da animação e um trecho ainda em lápis de “Be Our Guest” com acompanhamento ao vivo de Alan Menken ao piano. Meninas e meninos, eu vi.

Há quatro anos, contudo, a Disney resolveu transformar o anúncio em um grande evento: a D23 Expo, espécie de versão exclusiva da Comic Con. Criada em 2009, o D23 (D de Disney, 23 de 1923, ano da fundação do império) é o fã clube oficial de todas coisas Disney, inventado e implementado pelo chefão Bob Iger. A Expo, no hiper mega gigantesco Centro de Convenções de Anaheim, o subúrbio de Los Angeles que também abriga a Disneylândia,  tem tudo o que a Comic Con tem – cosplay, shows, exibições,  dezenas de stands com produtos e serviços – só que com um único tema: Disney.

O ponto alto desta festança vagamente assustadora são as duas apresentações de futuros projetos, uma dedicada à animação, a outra aos filmes. A plateia – 99% fãs enlouquecidos – adora tudo. Eu, que pertenço ao 1% de observadores razoavelmente isentos, me senti engolida por um tsunami de informação, nem toda muito útil ou sequer divertida.

Duas coisas que muita gente – eu, inclusive – queria saber foram abordadas de razante: o sétimo episódio de Star Wars (o primeiro da era Disney) e Tomorrowland, a nova incursão na seara atração-de-parque-que- se transforma em filme. A expressão usada por Bob Iger para descrever os dois foi “estamos muito empolgados (excited)”, mas isso quer dizer muito pouca coisa – ele usou exatamente os mesmos termos para descrever todos os outros projetos do estúdio.


O que me empolga  (ou tranquiliza) um pouco mais com Tomorrowland é a presença de Brad Bird como diretor, desenvolvendo o roteiro com Damon Lindelof (ter George Clooney e Hugh Laurie no elenco também ajuda…). Bird tem, além de uma fina sensibilidade ,uma visão muito interessante das ideias e estética de meados do século passado, de onde nasceu a  Tomorrowland, a Terra do Futuro dos parques da Disney (confiram The Iron Giant e Os Incríveis e vocês vão ver).

Aperitivo: a app que explora as referências visuais e conceitos de “futuro” como era visto em 1952…

E acho que, no departamento filmes, essas ausências me animaram mais que as presenças. Angelina Jolie foi aclamada quando apareceu para plugar Maleficent – o visual é bacana, os chifrinhos foram a marca registrada entre os fãs. Mas, como Saving Mr. Banks, temo que seja mais do mesmo, a milionésima iteração da mesma história, sem a menor possibilidade de um olhar novo ou sequer irônico.

O que me leva à animação, que foi apresentada por um empolgado John Lasseter, mudando de camisa a cada novo título. Embora todas as histórias sejam, de fato, a mesma história – protagonista descobre algo novo sobre si mesmo/a, encontra um coadjuvante fofinho que, depois de algum conflito, se torna seu/sua melhor amigo/a e os dois partem numa fantástica aventura – quatro me chamaram a atenção, de cara:

Zootopia (previsão: 2016) , o projeto ultra-secreto que a Disney Animation verm desenvolvendo há dois anos (“vamos ter que matar todos vocês depois desta apresentação”, disse o diretor Byron Howard), tem grandes achados conceituais e visuais: um mundo desprovido de seres humanos, povoado apenas por animais que desenvolveram todas as nossas características, manias e necessidades. “Nós sempre quisemos fazer um filme de animais humanizados, continuando uma tendencia tradicional da Disney”, disse Lasseter, anunciando o projeto. Vi ecos de Madagascar e, no protagonista, muita coisa de O Fantástico Sr. Raposo (menos a ironia…) mas… o projeto é para 2016, ainda tem muito chão…

Inside Out (previsão: 2015) , outro projeto ultra secreto, dessa vez da Pixar (tão secreto que não tinham nem título até ser batizado pelo departamento de marketing nas vésperas da D23 Expo) traz a assinatura de Peter Docter (Toy Story, Wall-E, Up), o que para mim já é uma tranquilidade. Mas foi seu tema que me intrigou: o filme todo se passa no mundo interior de uma familia que se muda de uma cidadezinha do meio oeste norte-americano para a metrópole de San Francisco. Seus protagonistas não são a mãe,o pai e a filha adolescente, mas suas principais emoções: Raiva, Tristeza, Alegria, Nojo e Medo. É uma espécie de Bergman à moda da Pixar e a sequencia  que foi exibida, em rascunho, com os conflitos interiores da família em torno da mesa de jantar, foi pura perfeição. É claro que em algum momento alguém se junta com alguém e parte em uma aventura mas….

Big Hero 6 (dezembro de 2014). Don Hall, que dirigiu o lindo Winnie The Pooh de 2011, inspirou-se numa série HQ da Marvel, cult ao ponto de ser obscura, para criar o fabuloso mundo de Sanfranstokyo, a grande metrópole pan-pacífica de algum universo paralelo. Gostei da história, que mostra adolescentes inteligentes, articulados,, plausíveis — inclusive o herói, um gênio precoce da robótica – que se transformam numa espécie muito especial, talvez hesitante, de super-herói. Mas foi o visual que me encantou _ paixão pura, pura imaginação.

Get a Horse! (novembro 2013). Guardei o melhor para o final. Produto da divisão “pobre” da Disney, a Disney Toons, dedicada ao trabalho sem glória de criar curtas e médias metragens para o mercado de TV e home entertainment, este curta pode ser a grande gema da Disney desta temporada. E quanto menos eu falar sobre ele, melhor. A inspiração veio de um par de croquis  de Mickey e Minnie encontrados nos arquivos da Disney, datados de 1928. Mais não digo. Nele está o coração daquilo que, hoje, é uma commodity enlatada – a magia Disney. É em parte imaginação, em parte molecagem, em parte inocência, e , completamente, a pura alegria, a embriaguez de criar, de contar uma história com o desenho em movimento. Get a Horse! Vai ser exibido antes de A Rainha da Neve, a super-previsível aventura-com-princesas deste ano. Considerem ir ao cinema, ver o curta e ir embora. Depois que ele estrear eu conto o resto da história…

 


Nova presidente da Academia cria departamento para diretores de elenco
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Ana Maria Bahiana

Cheryl Boone Isaacs, nova presidente da Academia.

Essa eu gostei – a primeira iniciativa da recém-eleita presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, foi criar um departamento que há muito tempo fazia falta – o de diretores de elenco.

Isaacs, executiva de marketing com longa carreira principalmente na Paramount, foi eleita por esmagadora maioria. Ela é a primeira mulher desde 1983 e a primeira afro-descendente a ocupar o posto. Sua campanha foi toda focada na ideia de diversidade, internacionalização e modernização. E logo de cara ela está pondo em prática um projeto que circula há décadas pela Academia, sem sucesso – o devido respeito aos diretores de elenco.

Marion Dougherty, possivelmente a maior diretora de elenco que já existiu, nos anos 1960 com seu arquivo de imagens.

Recomendo, urgente,  o documentário Casting By, da HBO, para que se compreenda a importância do papel desse profissional, e como sua intuição, gosto e  rede de contatos foram responsáveis, entre outras coisas, pelo fenômeno James Dean, pela descoberta de Clint Eastwood e pelos novos rostos femininos e masculinos que deram a forma final à virada do cinema norte-americano nos anos 1970.

Embora todas as decisões finais sejam do diretor – e em muitos casos projetos já são desenvolvidos com determinados astros e estrelas acoplados – o diretor de elenco é quem faz a planta baixa da arquitetura humana de um filme e série de TV, sugerindo nomes e com isso, muitas vezes, alterando completamente o rumo de uma obra. Para citar dois exemplos: o modo como Dustin Hoffman tomou o lugar que tinha sido imaginado para Robert Redford em A Primeira Noite de Um Homem, ou como Sigourney Weaver, e não um ator, tornou-se Ripley em Alien: O Oitavo Passageiro.

Vocês imaginam outras pessoas nesses papéis, hoje? Então: esse é o talento de um bom diretor de elenco.

Embora os profissionais tenham sido aceitos, ao longo dos anos, pela Academia, eles ficavam como membros gerais, sem um departamento específico e sem representação na diretoria. Agora, os diretores  de elenco tem as duas coisas. E, na progressão natural dos fatos, é bem possível que, em breve, tenhamos um Oscar de escolha de elenco, como o Emmy já possui.

Confesso também que estou rindo à toa com um detalhe. No documentário o diretor Taylor Hackford deita falação sobre como “nunca” a  Academia vai reconhecer o trabalho de seleção de elenco como departamento, principalmente com o título de “diretores de elenco”. Hackford, que admite ser contra até o termo “diretor de fotografia”, é enfático: só o diretor dirige alguma coisa, ninguém mais pode ter esse título!

Ora pois…


Go Brazil: Spike Lee e Imagine preparam filmes sobre o Brasil
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Ana Maria Bahiana

Spike Lee está desenvolvendo um documentário sobre a ascensão do Brasil no cenário mundial. O projeto tem o título Go, Brazil, Go! (espero que não traduzam como Pra Frente, Brasil no Brasil) e está no começo da pré-produção. Lee tem uma longa ligação com o Brasil, começando por sua primeira visita ao Festival do Rio em 1986 com seu primeiro longa, She’s Gotta Have It.

A versão norte-americana de Oldboy, dirigida por Lee, estreia dia 25 de outubro aqui nos EUA. Depois dele, e paralelamente a Go, Brazil, Lee realiza, para a HBO, um documentário do espetáculo de Mike Tyson que ele já havia dirigido na Broadway, The Undisputed Truth. Entre uma coisa e outra, junta-se a Zach Braff e os realizadores de Veronica Mars colocando um projeto, ainda sem título, no Kickstarter na esperança de levantar 1.2 milhões de dólares do público para sua realização.

Go, Brazil, Go! não é o único longa com um olhar de fora sobre o Brasil: os irmãos Jim e Michael Zimbalist, diretores do (excelente) documentário The Two Escobars, sobre o chefão da droga Pablo Escobar e o jogador de futebol Andres Escobar , estão em pré-produção em uma cinebio de Pelé. Jim e Michael são roteiristas, diretores e co-produtores (com a Imagine de Ron Howard e Brian Grazer) no que será seu primeiro longa não-documental. O projeto, ainda sem título, vai se ocupar especificamente da transformação do garoto Edson Arantes do Nascimento no craque Pelé, e será falado majoritariamente em inglês.  As filmagens estão previstas para o final deste ano, com lançamento em 2014.


Quando Batman encontrou Super-Homem: o que está por trás do anúncio mais explosivo da Comic-Con 2013
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Ana Maria Bahiana

Logo do projeto Batman/Super-Homem, anunciado hoje na Comic-Con

Então: o Batman estava lá em Gotham City, no seu bat-barzinho, sossegado no seu canto com seu drinque quando… ei, quem é esse cara de azul piscando pra mim?

Era o Super-Homem. E aí…

Bom, vamos encurtar a história: a Warner anunciou agora à tarde, no famoso Hall H da Comic Con que o próximo filme do Super-Homem será o próximo filme do Batman. E vice versa. Em resumo – a temporada norte-americana verá o primeiro filme dos dois super-heróis mais populares do mundo, juntos. “Vocês tem que concordar, isso é pra lá de mitológico”, disse Zack Snyder, falando para um Hall H lotado e mudo, em choque. “Ter o Super-Homem e nosso novo Batman cara a cara vai ser incrível, eles são os maiores super-heróis do mundo!”

O anúncio – feito por Syder e Diane Nelson, presidente da DC Entertainment, o braço de produção audiovisual da DC Comics – pegou todo mundo de supresa. Oficialmente, o evento da Warner na Comic-Con era para promover Gravity, Godzilla, o novo 300 e outros filmes do estúdio.

O que já estou chamando de “sanduíche de super-herói” está sendo escrito neste momento (pelo mesmo David Goyer de Homem de Aço, mais Snyder). Snyder será o diretor, e Christopher Nolan o produtor executivo ( o que significa, na estrutura daqui, que ele estará mais distante da produção do que esteve em Homem de Aço. Charles Roven e Deborah Snyder, que pegaram o pesado tanto de Homem de Aço quanto da trilogia Batman de Nolan, serão os produtores.

A produção começa ano que vem, com o lançamento previsto para meados de 2015, bem a tempo de fazer frente ao segundo Vingadores, e abrindo o calendário de novas parcerias Warner/DC: The Flash em 2016 e Liga da Justiça em 2017.

Henry Cavill retornará como Clark Kent/Super-Homem, mas ainda não se sabe quem será Batman. Christian Bale disse para quem quisesse ouvir que este seria sua derradeira morcegada mas…. Quem sabe, uma boa negociação pode mudar sua ideia. A referência de Snyder a “nosso novo Batman”, contudo, indica que vamos ver mesmo um novo morcegão.

Por que a Warner optou por não colocar nas telas um segundo Homem de Aço, pura e simplesmente, e resolveu colocar o Batman na jogada ? Lembram quando eu dizia e repetia, lá no twitter, que eu só ouvia infos de que uma sequel não estava decidida de jeito nenhum?

Eu gostaria muito de dizer que é porque a bat-trilogia Nolan é infinitamente superior ao Homem de Aço, mas, como sempre, são os  números que valem. Homem de Aço custou 225 milhões de dólares e, até agora, rendeu 621.8 milhões de dólares em todo o mundo. O Cavaleiro das Trevas Ressurge custou 250 milhões mas rendeu mais de um bilhão de dólares na bilheteria mundial.

Embora a Warner, como era de se esperar, tenha dito que o filme de Snyder “desempenhou como esperávamos”, a verdade é que ele teria que ter rendido mais de 675 milhões para dar lucro – e, se eu me lembro bem, a cantoria eufórica aqui, lá para os lados de Burbank era “vamos passar de um bilhão, fácil!!”.

Desde que a Disney emplacou 1 bilhão e 500 milhões de dólares em bilheteria mundial com Vingadores, este se tornou o número mágico que todo estúdio almeja atingir para se considerar parte do jogo do arrasa-quarteirão.

Em bom português: Batman tem que dar uma força ao colega de azul. Uma tremenda bat-força, aliás. Conseguirá, Robin?

 

 


A plateia no poder: o que querem dizer as vitórias da Netflix nos Emmys
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Ana Maria Bahiana

Sobre os Emmys: em primeiro lugar, calma. Respirem fundo. As nove indicações para House of Cards, e a solitária (injustamente) indicação para Jason Bateman por Arrested Development são, de fato um marco. Mas não exatamente o marco que tenho lido/ouvido por aí.

Repitam comigo: Netflix não é “a internet”. Netlflix é um sistema de distribuição de conteúdo audiovisual que apenas recentemente começou a usar prioritariamente a internet ou melhor, os meios digitais de transmissão, para que  esse conteúdo chegasse a seus assinantes.

Entre 1997, quando a Netflix foi fundada num subúrbio de Santa Cruz, California,  e  julho de 2011, quando separou as assinaturas entre “apenas online” (mais barata) e “apenas DVD”, a Netflix competia em primeiro lugar com locadoras como a Blockbuster, que distribuiam conteúdo através de mídias físicas. O sistema on demand ou instant watch – visão instantânea- não funcionava muito bem nem quando se navegava numa rede de alta velocidade, como DSL ou cabo.

A partir de 2008, quando a Netflix fechou seu primeiro contrato de exclusividade – com o Starz, um canal “tradicional” de TV por assinatura – para distribuição de conteúdo, a empresa acelerou sua decolagem na rampa online. O acordo era, na verdade, uma parceria entre duas empresas que estavam pensando além dos canais disponíveis até então. Starz e Netlflix eram, até então, versões só um pouco mais modernas da locadora de bairro: ambas  distribuíam conteúdo produzido por terceiros, ou através de DVDs, ou de um pacote de TV por assinatura.

As mudanças começaram aí. Em 2010, quando a Starz começa a lançar seu balão de ensaio em conteúdo próprio, a Netflix muda completamente sua infra-estrutura digital. Um ano depois, com seu sistema on demand funcionando plenamente, a Netlflix não muito sutilmente começa a instigar seus assinantes a optarem por receber conteúdo exclusivamente por streaming, seja ele em sua TV, computador, tablet ou smatphone.

O lógico passo seguinte – que a Starz, aliás, também dá nessa época – é investir com tudo em conteúdo próprio.

Aqui é preciso fazer dois esclarecimentos importantes:

  1. A “TV” como ela é usada no Brasil é uma criatura em vias de extinção nos Estados Unidos, esperando apenas o impacto de um meteoro cultural /tecnológico para ir fazer companhia aos dinossauros.  O segmento de público que “assiste TV”, ou seja, liga seu aparelho em determinados horários, para ver programas, notícias ou filmes segundo a grade de programação, está diminuindo a passos largos. Uma estimativa (que eu acho conservadora) diz que em 2020 77% do público de conteúdo audiovisual doméstico não “verá TV” nesse sentido. Em 2012, cinco milhões de lares nos Estados Unidos não tinham nenhum tipo de transmissão “normal” de TV, embora tivessem telas de TV _ estão recebendo conteúdo audiovisual através de streaming em aparelhos como BluRay players, computadores, tablets, consoles de games ou AppleTV.  E mesmo os que tem TV por assinatura não seguem mais a grade – programam seus aparelhos (que podem ser Blu Ray players, consoles, computadores ou hardware específico, como o TiVo) para gravar o que querem, e vêem quando querem.  Uma das grandes sacadas da Netflix foi perceber de imediato o potencial dessa mudança do mercado e começar a oferecer variedade de conteúdo para uma platéia que não tinha mais paciência para deixar que programadores lhe dissessem o que assistir, e quando.
  2. O modo como esse conteúdo é distribuído não altera sua forma ou  estética , a não ser em dois pontos: maior liberdade para exibir cenas realistas de sexo, conflito e violência, e a possibilidade do público controlar o modo como vê, segundo seus horários e disponibilidades. Fora isso, a oferta segue os formatos estabelecidos na TV tradicional: seriados dramáticos com 13 episodios de 50 minutos cada, seriados de comédia de 13 episódios de 22 minutos cada.

A Netflix não produz conteúdo, apenas licencia e distribui on demand. Seu fundador e CEO, Reed Hastings, sempre viu a empresa como uma “programadora, uma distribuidora de licenciamentos”.  A Netflix não é dona do conteúdo que disponibiliza – ela compra uma licença para distribui-lo em seu sistema durante um período X. A premiada House of Cards foi produzida inteiramente pela produtora Media Rights Group. Seu licenciamento foi um leilão, uma verdadeira guerra entre HBO e Netflix pela compra dos direitos (valor final, pago pela Netflix: 100 milhões de dólares por 26 episódios em duas temporadas).

Essa é uma diferença fundamental entre ela e o modelo HBO, com quem a Netflix gosta muito de ser comparada. A HBO é uma produtora, e é dona da imensa maioria do conteúdo original que exibe porque produz, investe nele desde o começo, em muitos casos ainda na fase de desenvolvimento. É mais parecida com um estúdio, envolvendo-se, arriscando-se e bancando projetos.

A Netflix é uma compradora astuta: House of Cards, Arrested Development, Hemlock Grove, Orange is the New Black. Mas ainda está na dependência do que o mercado pode oferecer, já pronto – e é claro que, agora, o mercado está se atropelando mais que os zumbis de Guerra Mundial Z para oferecer conteúdo. E compreendeu até onde vai o desejo de controle por parte da plateia, oferecendo as temporadas de cada um de seus títulos em pacotes com todos os 13 episódios, um procedimento impensável, até hoje, no que estamos chamando de “TV convencional”. A “TV convencional” vende tempo – o tempo que  o anunciante tem para passar a mensagem dele para os olhos, espera-se, cativos dos espectadores. A Netflix não precisa de anunciantes porque tem assinantes e compradores diretos- ela vende, estritamente, o acesso ao conteúdo.

As vitórias  da Netflix nos Emmys não querem dizer que uma nova estética foi subitamente endossada pelo establishment da TV (é isso que todo prêmio é, certo?). Quer dizer que o establishment da TV sabe muito bem que os sistemas de produção, programação e distribuição que foram inventados no século passado estão acabando de vez.


Academia escolhe seus novos diretores
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Ana Maria Bahiana

 

Você sempre quis saber quem manda na Academia? Para o periodo 2013-2014, anote estes nomes: Tom Hanks, Kathryn Bigelow, Robin Swicord, Lisa Cholodenko, Michael Apted, Dante Spinotti, Annette Bening, Gale Ann Hurd, Kathleen Kennedy, Bill Condon, John Lasseter, Richard Edlund, Rick Carter, Ed Begley Jr.

Eles estão entre os 48 profissionais e integrantes da Academia escolhidos pelo voto direto de seus colegas para dirigir os 16 departamentos ou “branches” da entidade. _ cada departamento tem três diretores. Não pensem, contudo, que esse pessoal tem poder de decisão direto sobre os Oscars : a função desses 48 profissionais é administrar o que o ex-presidente Robert Wise definiu para mim como “a grande visão” da Academia, sua função na indústria, na sociedade e na história do cinema.

Indiretamente, contudo,  sua posição é de peso _ cabe aos 48 “governors” (daí o Governors Ball que celebra indicados e vencedores depois da entrega do Oscar…) implementar e alterar as regras de escolha do prêmio, além de escolher o CEO e o COO que administram a Academia no dia a dia.

O que gostei do Governors’ Board deste ano: tem mais mulheres…


Porque o acordo Universal/Legendary faz sentido. E é um negócio da China.
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Ana Maria Bahiana

Thomas Tull (esquerda) e Guillermo del Toro ontem no teatro Dolby. Sim, isso é um sorriso.

Thomas Tull, o CEO da Legendary, era todo sorrisos ontem na estreia de Pacific Rim no teatro Dolby, em Hollywood. Como empresa responsável, a Legendary está promovendo todos os projetos já realizados com sua futura ex-parceira, a Warner, até o fim do acordo entre os dois, em dezembro. Isso inclui especialmente o filme de Guillermo del Toro, cujas perspectivas não são muito boas, e também o reboot de Godzilla e a sequel de 300, que a Legendary estará promovendo na Comic Con, dentro de duas semanas.

De janeiro em diante, nova parceria, novos projetos . O acordo com a Universal – Legendary adquire propriedades, desenvolve e traz a maior parte do orçamento, Universal distribui mundialmente – é de cinco anos (dois a menos que seu arranjo anterior com a Warner) e faz sentido  por todos os ângulos. Vamos a eles:

–       A Universal não tem em sua carteira os filmes que são a especialidade da Legendary: propriedades intelectuais baseadas em jogos e hq, do tipo que rende franquia, viaja bem pelo mundo afora e gera uma infinidade de subprodutos. A Universal já está chamando esta nova linha de projetos “os filmes Legendary”, e eles incluem títulos baseados nos games World of Warcraft e Mass Effect, na hq Gravel e nos brinquedos Hot Wheels (alô Transformers!).

–       Múltiplas plataformas é coisa que a Universal pode oferecer, de sobra: parques temáticos,  forte distribuição internacional, uma cadeia de TV aberta (NBC) e canais por assinatura (USA, Bravo), e uma nave-mãe, a Comcast, líder na infra-estrutura digital.

–       A TV é claramente um atrativo importante para a Legendary – em maio o ex chefão de TV da Warner, Bruce Ronsemblum, se mudou de armas e bagagens para a Legendary, com o mandato de criar um departamento de projetos na mesma linha dos filmes, mas com aquilo que a TV traz de melhor – a garantia de acesso a uma plateia internacional, de forma rápida e econômica.

–       Além disso, a Universal tem uma administração estável e um acervo de outras propriedades intelectuais que podem interessar à Legendary – de clássicos de terror a Tubarão a ET.

–       O fato de Legendary e Universal serem complementares garante à empresa de Thomas Tull o que ela sempre quiz no seu tempo com a Warner: liberdade para escolher e desenvolver seus projetos. Em seu papel de distribuidor, a Universal dará palpites na hora da aprovação final, mas a Legendary tem uma capacidade muito maior de pensar e realizar seus projetos sem interferência de alguém como, por exemplo, Jeff Robinov, cujos choques constantes com Tull estão entre os motivos de sua saída do estúdio, em junho.

–       É um negócio da China, literalmente. A Legendary já tem um dos bens mais cobiçados da indústria: um acordo com o China Film Group, a produtora estatal da China, o mercado mais atraente para todos os grandes, médios e pequenos produtores.

Não chorem pela Warner, contudo. A administração Kevin Tsujihara está claramente pensando num tipo de abordagem onde cinema e TV estão mais próximos (ele vem de home entertainment). E além do acordo possível com a Dune/Bank of America (e Brett Ratner e seus amigos bilionários) a Warner sempre contará com os cofres genorosos e os ainda mais amplos recursos de produção da australiana Village Roadshow.


Legendary fecha com a Universal
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Ana Maria Bahiana

Retiro o que disse no último item das minhas especulações do post anterior: a Legendary acaba de fechar com a Universal. É uma opcão que parece inusitada se comparada com as ambições globais dos outros candidatos à mão desta tão cobiçada princesa financeira: a Fox (que estava na pole), a Sony e até a independente de luxo Lionsgate, que entrou na dança na última hora.

Pelo que compreendi desta decisão, a Universal ofereceu à Legendary uma gama maior de oportunidades para desenvolver propriedades intelectuais além dos cinemas: TV, parques, plataformas móveis. Também agradou à Legendary a liberdade de escolher e dar partida em projetos que a Universal propôs,  a presença de um time estável na liderança executiva e, curiosamente numa era de mega-orçamentos, sua carteira de projetos de orçamento médio altamente rentáveis, como a (interminável) franquia Velozes e Furiosos.

Os próximos capítulos deste verão surpreendentemente animado podem ser muito interessantes…

 

 


O que quer dizer o novo acordo financeiro da Warner
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Ana Maria Bahiana

A primeira coisa que me chamou a atenção sobre o anúncio do novo acordo financeiro da Warner foi que os dois trades rivais, Variety e Hollywood Reporter, colocaram a palavra exclusivo em suas manchetes. O pau deve ter comido solto, porque pouco tempo depois a Variety tirou o “exclusivo” deles.

É um detalhe pequeno, mas que me diz o seguinte: a Warner está preocupada em mandar com urgência, para seus acionistas e para a indústria em geral , o recado de que está tudo bem, que a saída da Legendary até que não é tão terrível assim, e mesmo que Pacific Rim seja a meia bomba na bilheteria que as projeções anunciam, tudo vai ter um final feliz.

Ei, até o possível buraco nos cofres que o Homem de Aço é capaz de deixar está resolvido! (Leiam com calma o último parágrafo da matéria do Hollywood Reporter…)! E, de todo modo, nunca estivemos em crise! (Leiam a primeira frase do penúltimo parágrafo da matéria da Variety, que fala nos “bolsos profundos” da matriz corporativa da Warner, a Time Warner…. Que se baseia em hã… livros, discos, revistas e TV a cabo… que estão..hã-hã… morrendo?)

Falo como quem trabalhou muitos anos em trade – esse é o principal papel desses veículos business to business, num business tão louco, arriscado e cheio de egos como este: mandar recados para lá e para cá. Lendo as matérias com esses olhos, eis minha teoria: o acordo ainda está longe de ser fechado, mas a Legendary já caiu fora; vamos falar “extra-oficialmente”, prometendo exclusividade a ambos, com os dois principais trades norte americanos, para passar o recado de que não há crise, está tudo bem…

Acho até que sei quem falou com quem mas não vou arriscar meu pescoço.

Os pontos mais interessantes do novo acordo financeiro:

_ Três empresas subsituiriam o atual arranjo com a Legendary: o conglomerado financeiro Bank of America/Merryl Lynch entraria com um financiamento de 400 milhões de dólares; a empresa de investimento privado Dune Capital colocaria cerca de 150 milhões de dólares de aporte direto, em troca de uma parte de todos os direitos de cada projeto; a produtora Rat Pac, do diretor Brett Ratner em parceria com o multimilionário australiano James Packer (dono do maior iate ao largo da Croisette, em todo Cannes) entrariam com um valor ainda não especificado, também em troca de participação equity nos filmes da Warner.

-Pausa : você confiaria num estúdio que tem Brett Ratner como um de seus parceiros, provavelmente com poder de decisão?

_ Pausa 2: Ratner não é mencionado na matéria da Variety. Aí está uma pista interessante.

_ Continuando: ao contrário da Legendary, que escolhia os projetos nos quais parceirava com a Warner, o novo acordo cobriria todas as produções do estúdio. Como o acordo oficialmente ainda não foi concluído, não se sabe quais as contrapartidas, ou como ficará o poder de dar a luz verde e a forma final dos projetos.

_ Há uma possível dança das cadeiras no ar. O Bank of America teve durante anos um acordo semelhante com a Fox que garantiu, entre outros, Avatar. A Fox é o estúdio mais interessado em parceirar com a Legendary – até porque já deu partida em mais uma tentativa de franquia com o reboot de A Liga Extraordinária,agora como série de TV.  A série hq de Alan Moore e Kevin O’Neill já virou filme em 2003 mas não foi muito longe. Quem sabe agora…..