Blog da Ana Maria Bahiana

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Palpitando o Oscar 2015: Boyhood X Birdman… e muito mais
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Ana Maria Bahiana

 

87th Oscars®, Thursday Set Ups

Enquanto escrevo isto aqui o trânsito já está fechado num vasto trecho do Hollywood Boulevard, os ensaios entraram pelo segundo dia e a polícia detonou um “veículo suspeito” que poderia ou não estar carregado com explosivos (não estava).

A votação se encerrou terça feira, e os contadores da Price Waterhouse são os únicos que sabem o que realmente vai acontecer domingo. Então… está valendo tudo agora, certo? Vamos lá.

  •  Ainda acredito que Birdman vai levar melhor filme, levando em conta o estado de espírito dos acadêmicos. Há uma teoria interessante de que, graças à polarização entre Birdman e Boyhood, dois azarões , Grande Hotel Budapeste e Whiplash tem chances, matematicamente, de levar o prêmio dos prêmios. Seria um susto e tanto, e uma emoção a mais numa festa que arrisca ser bem previsível. Os quatro são excelentes filmes e qualquer um deles me faria feliz. (Sabe o que me faz feliz, de todo modo? Ter cantado essa pedra do ano dominado por “B” lá bem, bem atrás…)
  •  Quem é certo: Patricia Arquette e J.K. Simmons como coadjuvantes, Julianne Moore para melhor atriz. Ainda acho que Eddie Redmayne leva melhor ator, mas não descarto de todo Michael Keaton, ainda mais ouvindo, cada vez mais, o quanto este ano os queridos votantes querem “compensar omissões do passado” e “reconhecer carreiras” (palavras de dois acadêmicos…). Há quem jure que Bradley Cooper leva. Eu espero que não seja verdade.
  •  Melhor diretor está tão polarizado quanto melhor filme. 50-50 entre Alejandro Iñarritu e Richard Linklater.
  •  Roteiro original vai para Grande Hotel Budapeste. Roteiro adaptado, para O Jogo da Imitação, o que é uma ironia e tanto, considerando que Graham Moore passou anos ouvindo “nãos” porque seu projeto era “comercialmente inviável”.
  •  Animação é uma briga entre Disney e Dreamworks: Big Hero 6 e Como Treinar Seu Dragão 2.
  •  Filme estrangeiro é praticamente uma disputa geopolítica no Leste Europeu: Ida x Leviathan. Pessoalmente, acho que Ida leva.
  •  Música? Aposto na trilha de A Teoria de Tudo, e na canção de Selma, “Glory”, seguida muito de perto por “I’m Not Gonna Miss You”, do documentário Glen Campbell: I’ll Be Me. Ambas, por razões emocionais, principalmente.
  •  Agora vem os técnicos, aqueles que, por admissão de muitos e muitos votantes, a maioria dos acadêmicos deixa em branco porque não tem noção em quem vai votar. Simples, então: quem venceu nos prêmios de seus sindicatos, leva. Boyhood e Grande Hotel Budapeste venceram no sindicato dos montadores (sou mais Boyhood, aqui). Birdman (Emmanuel Lubezki) venceu no sindicato dos diretores de fotografia. Caminhos da Floresta, Birdman e Grande Hotel Budapeste ganharam os prêmios dos figurinistas (sou mais Budapeste, aqui, assim como no prêmio para Direção de Arte). No som, Birdman compete com American Sniper. Efeitos especiais, são a grande chande de Interestelar  não sair do Dolby de mãos abanando– afinal a  Academia adora lembrar que tem “Ciências” no nome. Seu principal oponente? Planeta dos Macacos: O Confronto.
  •  No documentário longa há uma briga boa entre Citizen Four, o favorito – um relato dia a dia da odisseia de Edward Snowden, cheio de personagens brasileiros – e Virunga, sobre o parque do mesmo nome, na África Central, onde vivem os últimos gorilas. Virunga fez uma tremenda campanha nas últimas semanas, deflagrada sobretudo pelo nome de Leonardo DiCaprio, um de seus produtores.
  •  Nos curtas, os favoritos são: em animação o delicioso Feast, da Pixar (seguido de perto por The Dam Keeper); em documentário, Crisis Hotline:Veterans Press 1 (que pode capitalizar as simpatias de quem amou American Sniper); em ficção, Parvaneh (sobre uma refugiada afegã lidando com a burocracia suíça) e Boogaloo and Graham (sobre uma família na Irlanda do Norte, em plena era da crise civil) estão disputando meio a meio.

E o que mais? Divirtam-se! Sigam-me no Twitter! Bom domingo do Oscar para todos nós!


Porque Birdman é o favorito do Oscar 2015
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Ana Maria Bahiana

79th Academy Awards Rehearsals Fri

Sim, eu sei. A temporada de prêmios 2015 começou e eu sumi. Desculpem, foi mal. Muita coisa ao mesmo tempo, o que, é claro, me adoeceu brabo.

Então vamos tentar recuperar o tempo perdido.

Neste momento o que eu havia pressentido lá atrás, em setembro-outubro, está se confirmando. Como em quase todos os anos, a corrida tem dois líderes, com um correndo por fora e outros disputando categorias específicas. Este ano, os dois líderes tem um nome só, começam pela letra B e são independentes, de baixo orçamento, intensamente autorais e completamente pelo avesso do que a indústria (que é quem escolhe esta etapa final da premiação) vem praticando nos últimos dez anos: Boyhood, de Richard Linklater, e Birdman, de Alejandro Iñarritu. Correndo por fora vem o charmoso Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, que também tem B no nome (os cabalistas devem estar se divertindo) e também é autoral, pessoal, de baixo orçamento e na contramão da indústria em tudo – inclusive no fato de ter sido rodado em película, o único assim na categoria “melhor fotografia”.

Depois da dupla vitória neste fim de semana, nos prêmios da Producers Guild e da Screen Actors Guild, acredito que a sorte está lançada para Birdman. Existe o fator matemático: praticamente todos os membros da PGA e da SAG são membros do corpo votante da Academia, os atores são o departamento mais numeroso entre os acadêmicos, e não vejo porque mudariam suas escolhas no Oscar (lembrando: na fase de indicação, são os departamentos e comissões que votam, com exceção de “melhor filme”, que todo mundo escolhe; na fase final, de premiação, todos os acadêmicos votam em todas as categorias.)

Mas existe também o fator psicológico. Esse é mais difícil de quantificar, mas é capaz de alterar ou confirmar o que a matemática aponta. E não adianta olhar para o passado e tentar fazer cálculos estatísticos : não foi indicado a isso, a estatística diz que não vai ganhar aquilo; x filmes desse tipo ganharam o Oscar, portanto o filme xx vai ganhar. Como não canso de dizer: um prêmio, qualquer prêmio, inclusive e principalmente o Oscar, é apenas a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. Sofre as influências do tempo, do momento, das crises, problemas, celebrações, preocupações que essas pessoas estejam enfrentando, individualmente e como uma comunidade.

Um elemento importante na hora de tentar pensar quem é a pedra da vez é um pêndulo que tem marcado as escolhas da Academia nos últimos 40 anos: a autocrítica de um lado e a autocelebração do outro.

Quando a Academia está feliz consigo mesma, e seus integrantes tem orgulho do que fizeram dentro da estrutura e dos recursos dos grandes estúdios, um filme “grande”, de orçamento vasto e muitas vezes pontilhado de estrelas, tem mais chances de ser o escolhido. Foi assim em 1979 com Kramer vs.Kramer, em 1982 com Gandhi, em 1989 com Conduzindo Miss Daisy, em 1993 com A Lista de Schindler, em 1994 com Forrest Gump, em 1997 com Titanic_ só para dar alguns exemplos.

Quando o pessoal está de farol baixo, trabalhando mas sem muito brio, jogando para cumprir o contrato mas secretamente invejando o povo que arrisca tudo para executar obras pessoais, autorais, com pontos de vista fortes, quem tem mais chances é o filme menor, financiado independentemente. Foi assim entre 1975 e 1978, quando a independente United Artists e, em 1978, a EMI Films, de breve vida, emplacaram vitórias seguidas, de Um Estranho no Ninho a O Franco Atirador. Foi assim em 1981 com Carruagens de Fogo (que nem americano era), em 1994 com Amadeus, em 1991 com O Silêncio dos Inocentes, em 1996 com O Paciente Inglês, e, a partir de 1998, quase todos, numa dança das cadeiras entre Miramax, DreamWorks, Fox Searchlight, Summit, Lionsgate, Weinstein Co e companhia.

Este ano, os dois principais competidores ( e até o terceiro correndo-por-fora) tem exatamente essas características: são obras impossíveis de serem dissociadas de seus criadores, realizadas com paixão e um ponto de vista claro, voltadas exclusivamente para a expressão de uma ideia, e não de merchandising, continuações, produtos ancilares, etc. São, em essência, o oposto de tudo o que está acontecendo na indústria, agora.

A infinita delicadeza e elegância de Boyhood, o modo como lembra aos colegas suas raízes num cinema mais humano, as paixões que eles talvez tiveram quando eram estudantes da arte, a ousadia em usar plenamente o tempo como um elemento narrativo são os trunfos que levaram o minúsculo filme de Linklater até agora. Mas quando, outro dia, eu ouvi um acadêmico dizendo que “não entendia como” o filme tinha sido indicado para melhor roteiro, e outro afirmando que era “um absurdo” que ele estivesse entre os nominados para melhor montagem eu comecei a desconfiar que apenas suas qualidades sutis não fossem o bastante para levá-lo até a reta final.

Birdman, por outro lado, tem o tipo de bravura fulgurante que enche os olhos até de quem é capaz de dizer as asneiras acima. O plano sequência fake! As meta referências! A trilha em solos de bateria! E ainda por cima é violentamente, passionalmente, ácidamente crítico do estado de coisas na indústria. Como resistir, num momento de depressão como este?

Neste momento, ponho minhas apostas em Birdman para levar o Oscar de melhor filme, e talvez mais alguns outros (fotografia? Roteiro original?). Talvez resolvam adotar a solução salomônica (herdada dos festivais, que usam o “prêmio do júri” para o mesmo fim) de presentear Linklater com melhor diretor, como consolação. Mas não consigo tirar da cabeça que Birdman é, agora, o filme que mais expressa o momento que esse povo todo tá vivendo. Pulando de prédios (com asas?) em um, dois…


Prepare a agenda: aqui estão as datas-chave da temporada ouro
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Ana Maria Bahiana

 

86th Academy Awards, ArrivalsNuma terra que tem 292 dias de sol por ano, em média, apenas duas coisas anunciam de fato a chegada do outono: os ventos de Santa Ana, que sopram, super secos, do deserto, e os preparativos para a temporada de prêmios.

Antes que você consiga dizer “quero agradecer meu agente”, tapetes vermelhos serão desenrolados e vocie estará brigando com seus amigos sobre quem tem mais chance.

Este ano a temporada emocional de prêmios está demorando a deslanchar. Ainda não apareceu aquele grupo forte de líderes que mobilizam paixões e campanhas épicas. A grande discussão neste momento é se Inherent Vice deve ser tratado como comédia ( o consenso está dizendo “sim”, o que aumenta suas chances de Globo e diminui as de Oscar) e se alguém ainda vai se lembrar de Boyhood em dezembro.

Para que ninguém se perca no redemoinho que vem por aí, aqui vai o internacionalmente famoso calendário de Prêmios que Querem Dizer Alguma Coisa. Marquem suas agendas!

 

  • 31 de Outubro: Prazo final para submissão de títulos e nomes para as categorias de televisão e cinema dos Globos de Ouro.
  • 8 de Novembro: Os prêmios da diretoria da Academia são entregues: conjunto de obra, trabalho humanitário.
  • 19 de Novembro: Envio das cédulas para indicações aos prêmios da Screen Actors Guild, entidade de classe dos Atores. O prêmio é um termômetro sério dos Oscars nessa categoria.
  • 26 de novembro:  Envio das cédulas para indicação aos Globos de Ouro.
  • 3 de Dezembro: Prazo final para envio de fichas de inscrição para o Oscar.
  • 8 de Dezembro: Prazo final para entrega dos votos dos indicados ao Globo de Ouro.
  • 10 de Dezembro: Anúncio das indicados aos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 11 de Dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro.
  • 16 de Dezembro: Envio das cédulas para os prêmios finais da Screen Actors Guild.
  • 22 de Dezembro: Envio das cédulas para a escolha dos vencedores do Globo de Ouro.
  • 29 de Dezembro: Começa a votação dos indicados ao Oscar 2015. Nesta etapa, apenas Melhor Filme recebe indicações de todos os votantes. As demais categorias são escolhidas pelos departamentos da Academia ou comitês especialmente designados.
  • 5 de Janeiro: Anúncio dos indicados aos prêmios da Producers Guild – um termômetro certeiro para medir quem realmente está no páreo para melhor filme.
  • 7 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos para os vencedores do Globo de Ouro.
  • 8 de Janeiro: Termina o prazo para envio dos votos de indicados ao Oscar.
  • 11 de Janeiro: Entrega dos Globos de Ouro
  • 13 de Janeiro: Anúncio das indicações aos prêmios da Directors Guild, entidade de classe dos diretores. Olho vivo – mostram com clareza quem pode disputar tanto o Oscar de melhor diretor quanto o de melhor filme.
  • 15 de Janeiro: Anúncio dos indicados ao Oscar 2015.
  • 23 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos da Screen Actors Guild.
  • 24 de janeiro: Entrega dos prêmios da Producers Guild.
  • 25 de Janeiro: Entrega dos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 6 de Fevereiro: Começa a votação para os Oscars. Nesta etapa, todos os 6 mil acadêmicos votam em todas as categorias.
  • 7 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Directors Guild.
  • 8 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Academia Britânica de Cinema e Televisão. Não tem um peso grande no corpo votante dos Oscars – poucos integrantes também são acadêmicos – mas carimbam filmes e atores com um selinho de prestígio.
  • 17 de Fevereiro: Prazo final para entrega dos votos do Oscar.
  • 22 de Fevereiro: Entrega dos Oscars,

Respirem fundo. amigas e amigos. Começou.

 


Analisando os Globos de Ouro 2014: quem realmente ganhou no domingo
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Ana Maria Bahiana

Todo mundo (ou quase) sabe que torci feito uma louca (e votei em ) 12 Anos de Escravidão, O Lobo de Wall Street,  Ela, Top of the Lake e Breaking Bad. E que não me conformo de jeito nenhum com a vitória daquele série boboca do Andy Samberg. Fora isso…. uma pequena análise da estratégia dos prêmios daqui para a frente.

 

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Se é verdade que os Globos de Ouro antecipam outros prêmios – principalmente os Oscars – então Trapaça, 12 Anos de Escravidão e Cate Blanchett já largaram na frente.  Mas, no fim das contas, essas sempre foram certezas nesta temporada-ouro.

Eu, pessoalmente, não tenho tanta certeza por um grande motivo: porque o corpo votante dos Globes é completamente diferente dos acadêmicos que escolhem o Oscar – ou os prêmios das Guildas, que tem a mesma composição demográfica. Mas esperem ver estes nomes, com certeza, entre os indicados a tudo, daqui para a frente. Esse, eu acredito, é o fator de peso dos Globos – definir o campo de disputa a cada ano, a cada nova safra.

Por essa lógica mesmo Gravidade, que despontou rapidamente como um favorito mas encolheu nas premiações dos Globos, reduzido a uma estatueta de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón, ainda está absolutamente na disputa, assim como  12 Anos de Escravidão, que também é um pole do ano mas saiu da noite dos Globos com um único prêmio – se bem que o maior de todos, melhor filme/ drama.

Premiados de outras categorias, como Frozen (Globo de Ouro de melhor longa de animação) e A Grande Beleza (Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro) também acabam de se tornar certezas absolutas entre futuras indicações.

É mais interesssante notar os filmes cujas órbitas estavam mais distantes do Sol dos prêmios, e que, agora, viram suas carreiras aquecidas graças aos Globos de Ouro.

A delicada, feliz e inusitada combinação de ficção científica e comédia romântica de Ela, que valeu a Spike Jonze o Globo de Ouro de melhor roteiro está, com certeza, mais visível agora, capaz até de superar dois obstáculos – a relutäncia em premiar os dois gêneros que compõem sua mistura, e o fato do desempenho vocal de Scarlett Johansson (excepcional) não ser elegível. (Nota importante: o primeiro elemento, a automática má-vontade com ficção científica dos outros prêmios, ainda pode pesar para Gravidade. Mas veremos…)

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Mas quem realmente disparou depois dos Globos de Ouro foi Clube de Compras Dallas, que saiu da noite com seus dois atores reconhecidos – Jared Leto como melhor ator coadjuvante e Matthew McConaughey como melhor ator/drama. Filme independente com uma longa e complicada trajetória de recusas e falsos começos, Clube de Compras Dallas ganhou, agora, a tração que precisa para ser incluído entre indicados.

A vitória de Leonardo DiCaprio por O Lobo de Wall Street, mais do que justa – especialmente depois de muitas outras grandes performances nos últimos 20 anos – pode ter menos peso na continuidade da temporada de prêmios.  O Oscar, por exemplo, ao contrário dos Globos de Ouro, tem apenas cinco vagas para atores e atrizes, e tende a priorizar os dramas. Poderá a vitória nos Globos de Ouro vencer a resistência dos votantes da indústria a uma farsa da dimensão de O Lobo de Wall Street, com todos os seus palavrões, drogas e excessos de todo tipo? Aí está uma trajetória interessante de acompanhar e que pode dizer muito a respeito de onde estão as cabeças de quem escolhe os outros prêmios da temporada.

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Entre os Globos de Ouro de televisão, a vitória inconteste de Breaking Bad – melhor série/drama, melhor ator/série/drama para Bryan Cranston– serviu de fecho de ouro à trajetória de um dos trabalhos mais importantes da tv contemporânea.

Mantendo seu tom de apoiar novidades, os Globos de Ouro distinguiram quatro estreantes que ainda não tiveram tração em outros prêmios: as minisséries Top of The Lake (melhor atriz/minissérie ou telefilme para Elisabeth Moss) e Dancing on the Edge (melhor atriz coadjuvante/ série, minissérie ou telefilme para Jacqueline Bisset, certamente o não-discurso de agradecimento mais eletrizante da noite…), e as séries Ray Donovan  (melhor ator coadjuvante/ série, minissérie ou telefilme para Jon Voight) e Brooklyn Nine-Nine (melhor série/comédia).

Vai ser interessante também ver o quanto estas escolhas irão ou não pesar nas futuras trajetórias dessas séries…


Adeus, Emmys – agora, a correria dos outros prêmios
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Ana Maria Bahiana

E aí, gostaram dos Emmys? Da minha parte, resumidamente:

  • A abertura foi xoxa, comparada com anos anteriores (lembram do “Born to Run” de Jimmy Fallon e companhia em 2010?)
  •  Não aguento mais Modern Family, me pareceu um voto preguiçoso, especialmente considerando que este ano, além da eternamente injustiçada Big Bang Theory (será que só vão premiar quando ela definitivamente não for mais o que era? Prêmio faz muito disso…), tínhamos as excelentes estreantes Veep e Girls.
  • Homeland é uma bela série, mas o nível da dramaturgia e direção de Mad Men e Breaking Bad é muito superior – são duas séries que já fazem parte da história da TV contemporânea, e que se provaram ao longo do tempo, desenvolvendo magnificamente seus personagens e tramas.
  • Perder na “minha” categoria – categoria especial – para os Tonys foi um prazer. Explico o “minha”: fui, como consultora de roteiro, parte da equipe do show de entrega dos Globos de Ouro 2012, indicado na “categoria especial” dos Emmys, este ano, primeira indicação que o evento recebe. Eu me senti super lisonjeada, mesmo com meu papel minúsculo na empreitada. E não me importei nem um pouco em perder para os Tonys.

Mas o assunto da cidade, agora, não é mais Emmy, mas a momentosa temporada dos prêmios de cinema, que se aproxima com a mesma velocidade fulminante do temperamental outono angeleno (um dia, calor escaldante; dia seguinte, chuva, 17 graus e folhas pelo chão).

O amador, bizarro e propositalmente incendiário filmeco feito por um egípcio num subúrbio ao sul de Los Angeles acabou de custar alto para o cinema iraniano : em represália ao tal Innocence of Muslims, o Irã decidiu boicotar os Oscars e não submeter nenhum título este ano.

A história desse filmeco é um interessantíssimo tema para uma discussão sobre liberdade de expressão, responsabilidade e intolerância, mas neste momento o que mais lamento é a ausência do cinema iraniano numa das maiores janelas de exposição do mundo – e um ano depois  da vitória do sensacional A Separação.

A mudança das datas é uma história mais complexa_ e vamos esclarecer, o anúncio das indicações aos Globos de Ouro, dia 13 de dezembro, continua sendo antes do anúncio das indicações ao Oscar, dia 10 de janeiro. Para começar, não creio que isso altere em nada o efeito-balaio que os Globos de Ouro tem sobre os demais prêmios. Sempre disse que os Globos criam uma pré-seleção com suas indicações, não com seus vencedores – a composição, temperamento e ponto de vista dos votantes é completamente distinta. Uma olhada nas listas de indicados, ano a ano, comprova esse fator – e as diferenças entre os vencedores mostra como clareza os diferentes critérios de escolha de Academia, Guildas e correspondentes estrangeiros.

E aqui está o x da questão, que ainda não vi comentada com a importância que merece, a não ser num artigo da Variety: ao mudar a data de entrega das indicações para dia 3 de janeiro a Academia encurtou em cruciais 10 dias o tempo de reflexão e, em tese, de acesso aos filmes concorrentes.

Bato nessa tecla porque ela explica muito sobre a personalidade e a natureza das premiações. Os Oscars são escolhidos por pessoas que fazem cinema e, em sua maioria, não tem tempo, paciência ou inclinação para  ver todos os filmes qualificados. Os Globos são escolhidos por pessoas que, por oficio, precisam ver a maioria dos filmes exibidos ao longo do ano e que, portanto, estão qualificados.

Ao roubar 10 preciosos dias do tempo que os acadêmicos teriam para , em tese, ver os filmes do ano, deu ainda maior importância para a pré-seleção que os Globos já terão feito e anunciado dia 13 de dezembro.

Na verdade, o único impacto importante da antecipação foi sobre os estrategistas, que agora tem que correr com a bola durante novembro e dezembro, sem parar, pulando por cima de festas e férias.

E – outra coisa que lamento muito – essa pressa toda pode tornar a competição especialmente injusta para filmes menores, independentes, sem condições de fazer barulho.

Vamos ver o que acontece…


A batalha pelas estatuetas de metal, parte I: presidentes, ayatolás e terroristas
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Ana Maria Bahiana

 

Vocês estão ouvindo esse silêncio? É o mes de agosto. Férias aí, férias aqui. Os estúdios descarregam seus abacaxis, e até os independentes dão um tempo. A Paramount está num descanso tão grande que deu férias coletivas a vários departamentos e há três meses não lança um filme.

De certa forma é a calmaria antes da tempestade. Assim que as temperaturas baixarem (o que aqui na California demora um pouco) e as crianças voltarem às aulas vai começar uma batalha pior que a disputa pelo Trono de Ferro _ a briga pelas Estatuetas de Metal.

Até agora o ano nos deu três filmes com grande potencial para chegarem até a batalha final: os independentes Moonrise Kingdom e Beasts of the Southern Wild e, é claro, O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Falo deles num próximo post. Vamos dar uma olhada primeiro no que nos aguarda nos próximos meses.

Posso falar primeiro do que NÃO nos aguarda? A Warner decidiu relocar O Grande Gatsby para meados do ano que vem. Há quem diga que isto faz parte de uma estratégia maior para não dividir as atenções e recursos do estúdio em sua quixotesca missão de emplacar O Cavaleiro das Trevas ressurge pelo menos entre os indicados – e além das categorias técnicas, onde o filme de Christopher Nolan já é o favorito. Mas também pode ser porque Baz Luhrmann é famoso por se atrasar em pós-produção… A Fox até agora não esqueceu dos custos e demoras de Australia, que estourou todos os prazos e obrigou o estúdio a contratar um pequeno exército de montadores para que o filme conseguisse chegar às telas.

Descontado Gatsby—que tem pelo menos pedigree para entrar nas listas de candidatos a candidatos de 2013—o que temos?

Para começar, dois presidentes norte-americanos: o Lincoln de Steven Spielberg e o Roosevelt de Hyde Park on Hudson, de Roger Michell. Ambos  tem todo o pedigree de “isca de prêmio”. Daniel Day Lewis em mais uma transmutação paranormal para encarnar um dos presidentes mais adorados e carismáticos dos Estados Unidos, com Spielberg na direção. (Eco do passado: Amistad.) Bill Murray arriscando-se em mais uma nova direção, interpretando  Franklin Roosevelt, outro presidente querido, carismático e – votantes adoram isso!—deficiente físico, dirigido por Roger “Um Lugar Chamado Notting Hill” Michell. (Eco do passado: O Discurso do Rei.) O que esperar: indicações a melhor ator para os dois, no mínimo.

Continuando no tema azul-vermelho-e-branco, temos duas incursões pelas intervenções no Oriente Médio, ambas baseadas em casos reais: Argo, de Ben Affleck e Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow.

Argo, de Ben Affleck

Affleck, vocês se lembram, teve aquela estreia bombástica com Gênio Indomável em 1997, emplacando supreendentes prêmios pelo roteiro. Ele vem se revelando um diretor seguro, que compreende o trabalho dos atores e tem uma visão propria. Argo tem produção de outro que votantes de prêmios amam, George Clooney, e se baseia numa dessas histórias tão incriveis que só podem ser verdadeiras – o plano mirabolante inventado por um agente da CIA (o próprio Affleck) para resgatar seis americanos refugiados na residencia do embaixador canadense, em plena revolução islâmica no Irã, em 1979. Bryan Cranston também está no elenco. Repetição do melhor coadjuvante Jeremy Renner de Atração Perigosa?

Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow

Atravessando território muito parecido Bigelow tirou os Oscars de debaixo do nariz de James Cameron, três anos atrás. Zero Dark Thirty é, de muitos modos, Guerra ao Terror 2.0: a narrativa de como a tropa de elite Navy Seal Team 6 localizou e assassinou Osama Bin Laden em maio de 2011. É o tipo de filme arrancado das manchetes de jornais que se encontra mais facilmente nas TVs do que nos cinemas, e isso pode funcionar contra e a favor de Zero Dark Thirty, que por enquanto ninguém viu mas que já está criando zum zum.

Existe uma outra questão, também: filmes com essa temática não vão muito adiante no interesse das plateias – nem mesmo o ótimo Zona Verde, nem mesmo o premiado Guerra ao Terror quebraram essa barreira. Estou muito curiosa para saber o que vai acontecer com esses dois, tanto entre as elites que premiam quanto entre as massas que compram ingresso.

E isto é apenas o começo. Na segunda parte de nossa trilogia (é a moda, não é?), cantorias, fantasia e um mestre. Fiquem ligadas e ligados.

 


Semana do Oscar: como funciona a cabeça dos votantes?
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Ana Maria Bahiana

Mr.Oscar chega ao Hollywood/Highland. Foto de Richard Harbaugh/AMPAS

Os Oscars foram criados para “destacar e honrar qualidade e excelência na arte cinematográfica”. Junte três pessoas e peça que cada uma defina “qualidade e excelência”. Agora junte 6 mil.

Pois é.

Não é possível fazer um estudo estatístico preciso sobre o que os votantes do Oscar –em sua maioria homens brancos com mais de 50 anos, semi-aposentados, como se viu ontem – pensam quando escolhem os vitoriosos, mas alguns traços aparecem com clareza durante os mais de 80 anos do prêmio:

1. Complexo de inferioridade. Há anos digo isso e fiquei feliz ao ver o Los Angeles Times concordar comigo _ a Academia prefere sempre o que menos se parece com aquele filmão feito em massa, especificamente para atender o mercado. É um estranho processo de baixa auto-estima que funciona mais ou menos assim: adoramos ganhar tubos de dinheiro com um monte de filmes mais ou menos, mas sabemos que a maioria deles não presta mesmo; portanto, qualquer coisa que não seja este modelo tem que ser premiado.

Ou seja: tem filme “pra ganhar dinheiro” e filme “pra ganhar prêmio”. As duas coisas ao mesmo tempo… aí complica.

Isso explica a  aversão a comédia, ficção científica e fantasia e a cisma com diretores que trafegam com grande facilidade entre o comercial e o artístico, como Steven Spielberg e Christopher Nolan: seu trabalho bate de frente com a percepção de que há algo profunda e essencialmente errado em fazer um filme sobre, digamos, um extra terrestre perdido na Terra ou um milionário que se torna super herói, e querer que ele seja reconhecido como algo mais além de uma fonte de  dinheiro. Spielberg só conseguiu vencer esse preconceito com A Lista de Schindler (leia o item 3). Nolan…. Acho que vai ter que esperar mais um pouco.

 2. Anglofilia. Um desdobramento comum do complexo de inferioridade é achar que, em princípio, qualquer coisa feita na Grã Bretanha é melhor do que qualquer coisa feita em qualquer outro lugar do mundo, especialmente nos Estados Unidos. Isso explica porque Carruagens de Fogo bateu Indiana Jones (um filme pipoca! E de Spielberg!) em 1981, O Paciente Inglês derrotou Fargo em 1996, a vitória de Shakespeare Apaixonado em 1998 (e Judi Dench levando um Oscar por cinco minutos de tela) etc etc etc. Este ano Sete Dias com Marilyn , se produzido nos EUA, seria talvez um bom filme de TV sem maiores ambições. Mas é britânico! Com Kenneth Branagh! E Judi Dench! Como vamos ignorá-lo?!

3.Fixação com o Holocausto. Aqui o sempre agudo J. Hoberman apresenta uma estatística impressionante nos Los Angeles Times: nos 83 anos do Oscar 20 filmes indicados tinham o Holocausto como tema e pano de fundo; apenas dois não converteram em estatueta a indicação. Este ano, preparem-se : A Separação é o filme a ser batido na categoria filme estrangeiro. Mas abram o olho para In Darkness, de Agniezska Holland, sobre judeus poloneses refugiados nos esgotos da cidade de Lvov. Até porque, no passado, Holland dirigiu um dos dois filmes sobre o Holocausto que foi indicado mas não levou _ Colheita Amarga, de 1985.

4. Saudosismo. É curioso como um prêmio que nasceu destacando o ousado – Asas, um filme adiante de seu tempo em muitos níveis – rapidamente começou a ter saudade de tudo. Culpe-se a chacoalhada dos anos 1970 e da geração sexo drogas e rock n roll? A engorda do blockbuster nos anos 1980-90? O fato é que, desde Titanic, tudo o que lembra “os  bons tempos” àqueles senhores brancos de meia idade cai no paladar. A ideia de que “os filmes eram melhores naquela época” é uma fantasia que põe os votantes num estado de transe…. E este ano vai premiar, pela primeira vez na história, uma produção da França… onde o cinema começou. Salut, Lumiére!


Semana do Oscar: quem é o votante do prêmio mais cobiçado do cinema?
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Ana Maria Bahiana

Tom Sherak, presidente da Academia, recepciona os Oscars, recém chegados em Los Angeles, direto da fundição em Chicago

 

Ele é homem, branco, com aproximadamente 62 anos. Jamais foi indicado para um Oscar e há dois anos não produz/dirige/supervisiona/divulga/trabalha/atua em um filme. Mora muito bem, em alguns dos bairros mais caros e luxuosos de Los Angeles, e há uma grande chance de estar aposentado.

Estes, caras e caros, é o eleitor-padrão do Oscar, segundo uma fascinante pesquisa do Los Angeles Times . Em outras palavras, olhe para a foto – Tom Sherak, presidente atual da Academia, é literalmente a cara do corpo votante dos Oscars.

A  detalhada pesquisa do LA Times põe um rosto num perfil que, até agora, só podia ser desenhado pelas escolhas que faz e pela quase paranormal atividade de adivinhar seus gostos ouvindo o zum zum de suas conversas nos meses entre o Dia de Ação de Graças ( última quinta feira de novembro) e a data de entrega dos votos finais (cinco dias antes da festa).

Os números são fascinantes e um pouco assustadores: 77% dos 6 mil votantes são homens; 94% são brancos; 64% jamais foram indicados para o prêmio que escolhem; 42% fizeram seu projeto mais recente em 2010; 79% tem mais de 50 anos.

E o mais interessante é que nada disso se deve ao fato da Academia ser, conscientemente, discriminadora _ esse é o perfil da indústria que a Academia representa. Um milhão de questionamentos nascem desta constatação. E igual número de constatações suportam esses questionamentos : em 83 anos de Oscar, apenas 4% dos prêmios de atores/atrizes foram para não-brancos; Kathryn Bigelow é única mulher a receber um Oscar por direção; os 43 membros da diretoria da Academia incluem apenas seis mulheres e uma pessoa negra; há departamentos – principalmente direção de fotografia e roteiristas – com um contingente 90% masculino.

“Não vejo por que devemos representar todas as facetas da população”, o roteirista (oscarizado por Um Dia de Cão) Frank Pierson disse ao Times. “Para isso existem os prêmios People’s Choice.”

As regras de acesso à Academia não mudaram em seus mais de 80 anos de existência: é preciso ser profissional da indústria há pelo menos 5 anos, ter endosso de pelo menos dois membros ou ter sido indicado ao Oscar. Mas nos anos 1990 a Academia fez um esforço concentrado de recrutamento para aumentar números e qualificações de seus integrantes. E de fato mais profissionais jovens, mais mulheres e mais pessoas de outros grupos étnicos e culturais  tornaram-se votantes. Mas nem assim o perfil mudou  substancialmente _ a idade média baixou de 64 para 62 anos (onde está agora), e em vez de 96% brancos, seus integrantes tornaram-se “apenas” 94% brancos.

Para mim  prêmios são apenas decisões tomadas por um grupo de pessoas num determinado período de tempo sob determinadas condições.  Os Oscars ganham uma dimensão mítica porque tem uma longa história e envolvem, dos dois lados da equação, nomes com dimensões universais.

Entender quem é o grupo que decide para quem vão as estatuetas mais cobiçadas do cinema pode ajudar a antecipar seus votos _e ,muito mais importante, colocá-los em sua devida perspectiva.


Indicações ao Oscar, 2012: as gratas e ingratas surpresas
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Ana Maria Bahiana

E as indicações ao Oscar 2012, hein?

Antes de comentá-las é bom refrescar a memória explicando como elas são escolhidas.

Na etapa de indicações, apenas a categoria “melhor filme” é votada por todos os 6 mil acadêmicos. Todas as demais são escolhidas  ou pelos respectivos departamentos ou “branches” da Academia ou, no caso de  filmes estrangeiros, por um comitê de voluntários.

Portanto, se é verdade que o Oscar toma o pulso de Hollywood a cada ano (e eu estou entre os que acham que sim), os “melhores filmes” são os que mais claramente indicam isso. Os demais revelam o que atores, diretores, roteiristas, etc pensam de seus colegas.

É importante saber outra coisa sobre esses votantes: todos fazem ou fizeram cinema em suas vidas. Todos já trabalharam, trabalham ou querem trabalhar com quem está concorrendo. Muitos tem filmes concorrendo – e não apenas votam neles, mas por eles fazem campanha. Muitos tem admiração, inveja, amizade, rancor por quem está concorrendo. Todos trazem imensa bagagem pessoal e profissional para cada escolha.

E embora a Academia reúna grandes realizadores, atores, técnicos e executivos, a maior parte de seu corpo votante é de profissionais que ou nunca tiveram ou já passaram por sua fase áurea. Como exemplo eu lembro sempre de uma pitoresca festa de fim de ano, aqui em Los Angeles, onde absolutamente todos os convivas votavam em algum prêmio, e quase todos no Oscar. E onde ouvi de pessoas que não dirigiam ou produziam um filme há mais de 10 anos que Steven Spielberg e Martin Scorsese não sabiam contar bem uma história em imagens…

Enfim, somos todos humanos. Os deuses do cinema estão naqueles pulsos de luz que hipnotizam nossas retinas na sala escura, não entre os que preenchem cédulas de votos para prêmios…

Tendo dito tudo isso, acho que, este ano, alguns comitês e departamentos fizeram um trabalho muito melhor que outros. E muitos fizeram escolhas ótimas e terríveis ao mesmo tempo.

Não vou nem falar de filmes como meu querido Drive ou o igualmente sensacional Precisamos Falar Sobre Kevin, cujas chances de serem compreendidos pelo establishment hollywoodiano eram mínimas (pelo menos os técnicos de som se lembraram do quanto o filme de Nicholas Winding Refn sabe usar a trilha…). Mas falo, sim, de algo medíocre e forçado como Tão Forte e Tão Perto que conseguiu emplacar duas indicações, inclusive, justamente, melhor filme. Amo Max Von Sydow e acho que ele faz o que pode com um personagem artificial (como todos os outros do filme de Stephen Daldry) mas teria sido tão mais bacana e coerente ver Albert Brooks indicado ali para melhor coadjuvante por Drive…

Entre outras ausências notáveis (Tilda Swinton! Ryan Gosling! Michael Fassbender! Shailene Woodley! Projeto Nim!), fiquei chocada com a de Tintim e o Segredo do Licorne entre os filmes de animação (onde tinha até o fraco, fraco Gato de Botas). A animação de Steven Spielberg/Peter Jackson venceu o prêmio da Producers Guild mas não conseguiu empolgar os 343 votantes do departamento de curtas e animação da Academia (sim, eu também acho estranho que curtas e animação estejam juntos no mesmo departamento, mas enfim…) Meu palpite, parte 1: captura de desempenho realmente não passa pela garganta da Academia e 2. Spielberg não tem muitos fãs entre os animadores (o que não deixa de ser tristemente irônico, já que Spielberg é fã e incentivador de animação…)

Prefiro lembrar as gratas surpresas: Árvore da Vida com três indicações, inclusive melhor filme (o mesmo número de indicações, devo lembrar, de Harry Potter e as Reliquias da Morte parte II, embora as deste último sejam todas técnicas); Demián Bichir lembrado por seu ótimo trabalho no pequeno mas sincero A Better Life (crédito à influência das indicações da Screen Actors Guild); a presença de Nick Nolte e sua comovente composição do pai/treinador aos pedaços de Warrior; Pina, de Wim Wenders, lembrado pelo menos na esquisitíssima lista de documentários; A Separação entre os melhores roteiros originais (nos últimos dias da votação havia uma campanha cerrada para emplacar uma indicação tanto para roteiro quanto para diretor, além de filme estrangeiro. Estou feliz que uma delas deu certo…); e pelo menos um cheiro de Brasil com a canção de Rio (senti a falta dele entre as animações…)

Amanhã, um pouco mais sobre o que os Oscars e o que as indicações revelam do estado de coisas da industria, hoje.


O que esperar dos Globos de Ouro? Possivelmente, o inesperado
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Ana Maria Bahiana

Escrevo este post no International Ballroom do Beverly Hilton, enquanto Helen Mirren e Sidney Poitier ensaiam a entrega do troféu Cecil B. De Mille a Morgan Freeman. Um jovem extra faz o papel de Freeman para que a produção marque câmeras, luz e timing. Mirren, sem maquiagem, numa saia estampada, camisa branca e casaco de tricô bege, tem ideias divergentes do diretor, e pede uma modificação no ritmo e espaçamento de duas frases _ e ela está  certa, como sempre. Com as mudanças, o texto ficou mais engraçado e a entrada de Freeman, mais interessante.

Chiquérrima num tailleur preto , a caminho do chá da BAFTA, agora à tarde, Angelina Jolie entra no palco depois, ensaiando a entrega do Globo de melhor diretor. Abre o envelope de mentirinha e exclama: “Michel Hazanavicius e Martin Scorsese! É empate!” , e desata a rir. Quando passa  o texto de novo, ela “dá” o prêmio para o diretor de O Artista. “Quero treinar o nome mais difícil primeiro”, ela explica. “Se ele ganhar mesmo, não quero gaguejar!”.

Numa calça jeans justíssima e top de malha aberta, Mila Kunis é a próxima a ensaiar, passando “melhor ator coadjuvante” ao lado de um Gerad Butler cabeludo, de jaqueta de couro. Não precisam repetir _ tudo certo de primeira.

O salão este ano está em tons de azul, que as luzes tranformam em ouro e prata, oscilando entre vários tons e intensidades enquanto escrevo, o que torna a tarefa substancialmente mais difícil. Pelas paredes do Ballroom alguém teve a brilhante ideia de colocar reproduções do troféu em branco _ num primeiro olhar achei que eram enormes bolas de sorvete de baunilha… Mas enfim…

Estou sentada na mesa 14 onde, tradicionalmente, altos executivos se aboletam com suas champagnes e águas minerais. “Jeffrey Katzenberg” está ao lado. “Colin Firth” e “Judd Apatow” estão na mesa vizinha. É divertido e um pouco assustador. Prêmio-fantasma.

Perambulando silenciosamente pelas mesas cobertas de cartazes com os nomes dos convidados, Ricky Gervais , de jeans e camiseta preta, presta atenção a cada nome. Ao me ver labutando na mesa 14, sorri e pisca o olho: “Estou procurando minhas vítimas.”

Gervais é ao mesmo tempo um bônus e um problema para os Globos. Suas tiradas ano passado enfureceram muita gente, mas colocaram o evento no topo da audiência. A preocupação, este ano, é que ele não perca seu gume cortante mas também não ofenda ninguém de modo irreparável.

Quando Gervais finalmente sobe ao palco do International Ballroom para passar seus textos, respiro aliviada.Meu papel na produção, este ano, é, entre outras coisas, garantir que ele faça exatamente isso, que seja o Gervais engraçado e provocador que amamos, mas que não arrume briga com ninguém. Os textos que ele ensaia são exatamente isso _ fãs não ficarão decepcionados e se os distintos convidados ainda tiverem uma gota de bom humor em suas veias, vão rir muito.

E quem vai ganhar? Quisera eu poder dizer… Com minha querida Associação, é super difícil saber. Cada cabeça uma sentença, um país, uma cultura, um gosto. Não há o consenso de classe das Guildas e a mente coletiva da indústria representada na Academia.

O que posso adiantar: George Clooney e Viola Davis estão na pole entre os atores/drama; O Artista e Os Descendentes são os líderes em melhor filme comédia/musical e drama, respectivamente; o filme estrangeiro favorito é A Separação. Na TV, a coisa se complica. Só posso dizer que é difícil Jessica Lange  sair de mãos abanando do Beverly Hilton…

Até amanhã, quando estarei nas entranhas do Beverly Hilton ….