Blog da Ana Maria Bahiana

3001: a saga de 2001 continua, com Ridley Scott no comando
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Ana Maria Bahiana

 

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Seis anos depois de sua morte, a obra do visionário Arthur C. Clarke está presente como se ele nunca tivesse ido embora: o canal SyFy está produzindo, em parceria com a Scott Free de Ridley Scott, uma minissérie baseada em seu livro 3001: A Odisséia Final, último livro da saga Uma Odisséia no Espaço. O primeiro livro da série – 2001, Uma Odisséia no Espaço – foi transformada num filme clássico da ficção científica por Stanley Kubrick. Lançado em 1969, 2001 revolucionou a linguagem cinematográfica da ficção científica, contribuiu para o retorno do gênero ao centro da produção audiovisual e abriu o caminho para Star Wars (cuja equipe contou com vários técnicos que haviam trabalhado em 2001.)

2001 é um dos filmes favoritos de Christopher Nolan e a principal inspiração para seu novo trabalho, Interstellar, que estréia em todo mundo no próximo dia 6. (Clarke faz uma ponta em Interstellar como parte de uma série de entrevistados que, em algumas cenas do filme, narram suas experiências na Terra.)

Com produção de Scott e roteiro de Stuart Beattie (Colateral, 30 Dias de Noite), 3001 encerra a jornada de 2001 Uma Odisséia no Espaço e revela o destino final de seus protagonistas, começando com um dos astronautas, cujo corpo é resgatado , congelado, flutuando no espaço. Além de 2001 e 3001, a saga Odisséia no Espaço inclui os livros 2010 – adaptado para a tela em 1984 -, e 2061, que ainda não foi levado ao cinema ou TV. Uma outra obra importante de Clarke, Rendez-vous com Rama, está há décadas rolando pelo labirinto do desenvolvimento – David Fincher tem grande interesse em dirigir uma adaptação de Rama, que ele considera uma influência fundamental nas séries de filmes Star Trek e Alien.

A exploração espacial está mesmo voltando como tema – além de 3001, Ridley Scott está produzindo e dirigindo uma adaptação do best seller O Marciano, de Andy Weir, desta vez para a tela grande – o elenco é encabeçado por Matt Damon, no papel de um astronauta que é esquecido na superfície de Marte por seus colegas de exploração,

3001 ainda não tem data prevista de estréia, mas vale esperar – e bom saber que o SyFy está mesmo dando um upgrade em sua programação


2014, uma nova odisséia no espaço
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Ana Maria Bahiana

Interstellar abre

 

Christopher Nolan sempre disse que seu filme favorito de todos os tempos é 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick – que reinventou a ficção científica nos idos de 1969, inspirou Guerra nas Estrelas e, este ano, está sendo relançado para comemorar seus 45 anos de pioneirismo.

Tempo, tecnologia e prestígio deram a Nolan , finalmente, a oportunidade de criar sua resposta à obra do mestre _ e o resultado é ao mesmo tempo espetacular e frustrante.

Trabalhando mais uma vez com um roteiro a quatro mãos com seu irmão Jonathan, Nolan fez de Insterstellar a sua odisséia no espaço, sua declaração de amor à ciência e, em última análise, ao espírito humano, capaz tanto de mesquinhez quanto de grandeza. O grande triunfo de Interstellar é o modo como Nolan usa o filme – no caso, película mesmo, 35 mm e 70mm – para abordar os conceitos mais avançados da física, levando adiante a visão de Kubrick e de Arthur C. Clarke (que aliás aparece numa ponta muito inteligente do filme) para um momento da história em que a mesquinhez da humanidade esgotou completamente o planeta Terra, deixando como únicas opções a extinção ou a exploração espacial.

O que em 2001 era pura curiosidade científica é, em Interstellar, o desespero que leva à coragem absoluta. Num planeta exaurido, um núcleo de cientistas remanescentes do que restou da NASA planeja uma saída de emergência: uma missão (talvez suicida) para explorar um buraco negro além do qual podem existir mundos viáveis para a sobrevivência da humanidade. Cooper (Matthew McConaughey), um ex-astronauta transformado em fazendeiro depois de um acidente quase fatal, é o escolhido para a mais arriscada das tarefas – ir verificar as descobertas feitas pelas missões anteriores.

Paro aqui para não tirar o prazer de acompanhar essa jornada que – mais uma vez ecoando 2001 – envolve os conceitos de portal, tempo e espaço, e o profundo impacto emocional, existencial e ético que isso implica.

Inters elenco

E é aí que Interstellar se torna ao mesmo tempo embriagador e frustrante. 2001 era assumidamente uma exploração intelectual, quase espiritual. Nolan é um realizador cerebral, que sempre está mais à vontade usando seus personagens e situações como peças que,  num tabuleiro, se movem exclusivamente para impulsionar a trama, propondo e resolvendo enigmas. Interstellar, contudo, se propõe a ser algo muito mais emocional, no qual as relações de família, de amor e de amizade são essenciais para a própria essência da trama.

E não sei se ele consegue. O longo primeiro ato, no qual os irmãos Nolan precisam estabelecer as relações humanas que devem colorir todo o resto, acaba se tornando quase uma hora de exposição pura e simples (algo que também acontece em Inception, mas que a gente acompanha pelo próprio desafio da trama).

Uma vez no espaço, Interstellar flerta algumas vezes com o imenso potencial apresentado pelos desafios do multiverso e do multitempo. Há momentos de grande força, como quando Cooper encara pela primeira vez, na prática, o que representa ter passado pelo buraco negro enquanto sua família continua no tempo terrestre. Nolan faz aqui uma de suas escolhas mais brilhantes, fechando a câmera em McConaughey e não no que ele está vendo – e nos colocando imediatamente no coração da humanidade do personagem e de nós mesmos, na plateia.

Mas são momentos raros, e Interstellar perde com isso.

Inter terra

O que vale: a sensacional combinação de fotografia e efeitos, gerando (pelo menos para mim) a primeira recriação plausível e envolvente do que significaria uma viagem intergalática; a direção de arte, tão minuciosa e inteligente quanto a de Kubrick, nos dando, entre outras coisas, uma versão inesperada de uma inteligência artificial; e o som, que, como Gravidade, explora bem o silêncio absoluto do espaço (já a trilha de Hans Zimmer me deixou em dúvida com seu órgão e seus riffs constantes em cima de “Assim Falou Zaratustra” e “Danúbio Azul”…)

O elenco faz o possível e o impossível para dar emoção às longas exposições do roteiro. Gostei principalmente das interações entre McConaughey e a jovem atriz Mackenzie Foy, que interpreta sua filha na juventude (Jessica Chastain, sempre ótima, é a versão adulta da mesma personagem).

Minhas dicas; saibam que o filme tem quase três horas de duração (nada de refri gigante….) ; escolham a sala com a melhor tela (IMAX se possível) e o melhor som; e não custa nada dar uma atualizada nos conhecimentos básicos de física antes de ir pro cinema…

Interstellar estreia mundialmente dia 6 de novembro.

 

 


É um pássaro? Um avião? Muito melhor: é Birdman!
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Ana Maria Bahiana

Michael Keaton em Birdman Melhor dizer logo: Birdman (dir.Alejandro Gonzalez Iñarritu, 2014) é espetacular. Mais que isso: é o tipo de filme que leva os cinéfilos à loucura _ e este é, eu diria, seu único problema. A toda hora o filme parece estar piscando o olho para a plateia, como quem diz: Não sou o máximo? Isto aqui não é super cool? Entendeu a ousadia do que está acontecendo?

Se você é capaz de esquecer a auto-satisfação que percorre Birdman de ponta a ponta, este é um filmão. E, sinceramente, resistir é inútil. Da primeira à última tomada –ambas espetaculares, e sobre as quais direi nada, para não estragar a alegria de ninguém – Birdman pede que cada um de nós se engaje  numa jornada de muitos níveis, todos absolutamente fascinantes.

A começar pela forma: Birdman dá a perfeita ilusão de que é composto de um único plano sequência. Não é: trata-se de uma espetacularmente bem urdida costura de tomadas rigorosamente planejadas e uso preciso da montagem digital, onde ponto tem nó mas é invisível. Há uma alegria especial em ver um filme assim: a história é impulsionada para frente desde o primeiro momento, sem parar, como se tudo fosse um contínuo inspirar e expirar, como se estivéssemos ali mesmo com os personagens, próximos, confidentes, íntimos, vendo o mundo –exterior e interior- como eles o vêem.

Anotem por favor: indicações para a fotografia do sempre ousado Emmanuel Lubezki (Gravidade, Filhos da Esperança, Sleepy Hollow) e para a montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione (Traffic, 21 Gramas, a franquia Onze/Doze/Treze Homens ) .

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Além de seu virtuosismo, precisão e beleza, a estética de Birdman é o veículo mais que perfeito para sua história: o punhado de dias durante os quais um ator ex-superstar (Michael Keaton) faz os ensaios finais e estreia sua primeira peça na Broadway, uma adaptação, feita por ele mesmo, de uma obra do escritor Raymond Carver. Aqui os cinéfilos podem começar a salivar profusamente: tudo é meta nessa trama, a começar pela escolha de Keaton como o ator em questão. Como seu personagem, Riggan, Keaton já foi um superastro da tela graças a um super-herói híbrido de gente e bicho: Batman para Keaton, Birdman para Riggan.

Ao contrário de Riggan, Keaton manteve o núcleo essencial de sua dignidade depois de abandonar a capa e a máscara. Mas como a peça de seu personagem, este filme pode ser o momento em que sua carreira dá uma nova guinada rumo ao alto.

Depois vem tudo o mais: o modo como Iñarritu enquadra Keaton e todo o elenco, traduzindo visualmente como eles se sentem; os grandes discursos que subitamente todos os personagens fazem justamente quando estão falando sobre a futilidade dos grandes discursos: as explosões de algo que pode ser alucinação ou não em momentos em que o mundo interior de Riggan/Keaton, pressionado pelas forças opostas da fama e da vida, vai desmoronando diante de nossos olhos. Muita gente tem reagido quase orgasmicamente a uma sensacional sequência que explica exatamente o que é a estética dominante de Hollywood, hoje. É fantástica, mas eu pessoalmente prefiro a longa corrida de Riggan pela rua, em plena Broadway, trajando apenas uma cueca. Tudo o que pode haver de simbólico e envolvente no cinema está ali.

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E não é apenas Keaton que responde à altura ao desafio da narrativa. Todo o elenco é uniformemente excelente: Naomi Watts como a estrela da peça da Broadway; Edward Norton como o substituto de última hora, um ator temperamental fanático pelo Método de Strasberg; Emma Stone como a filha de Keaton, transformada, a contragosto, em assistente; Zach Galifianakis como o estóico advogado/produtor da peça.

Anotem, por favor: indicação de melhor ator para Keaton, conjunto de elenco para todo mundo, melhor roteiro para Iñarritu e seus comparsas Nicolás Giacobonne e Armando Bo (Biutiful) e Alexander Dinelaris.

E não posso deixar de falar da trilha, produzida por Gustavo Santaolala, e composta e executada por Antonio Sanchez – uma série de solos de bateria, que muitas vezes se manifestam visualmente na tela. Anotem esse também.

Num momento em que a grande produção usa exatamente estes recursos tecnológicos e humanos para vomitar uma sucessão interminável de nulidades, um filme como este lembra para que existe cinema.

Para mim, juntamente com Boyhood, de Richard Linklater, é, até agora, o filme do ano. Exatamente por esse motivo.  

Birdman estreou neste fim de semana nos Estados Unidos, com arrecadação recorde em circuito limitado. A estréia no Brasil é dia 22 de janeiro. Não percam.


Prepare a agenda: aqui estão as datas-chave da temporada ouro
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Ana Maria Bahiana

 

86th Academy Awards, ArrivalsNuma terra que tem 292 dias de sol por ano, em média, apenas duas coisas anunciam de fato a chegada do outono: os ventos de Santa Ana, que sopram, super secos, do deserto, e os preparativos para a temporada de prêmios.

Antes que você consiga dizer “quero agradecer meu agente”, tapetes vermelhos serão desenrolados e vocie estará brigando com seus amigos sobre quem tem mais chance.

Este ano a temporada emocional de prêmios está demorando a deslanchar. Ainda não apareceu aquele grupo forte de líderes que mobilizam paixões e campanhas épicas. A grande discussão neste momento é se Inherent Vice deve ser tratado como comédia ( o consenso está dizendo “sim”, o que aumenta suas chances de Globo e diminui as de Oscar) e se alguém ainda vai se lembrar de Boyhood em dezembro.

Para que ninguém se perca no redemoinho que vem por aí, aqui vai o internacionalmente famoso calendário de Prêmios que Querem Dizer Alguma Coisa. Marquem suas agendas!

 

  • 31 de Outubro: Prazo final para submissão de títulos e nomes para as categorias de televisão e cinema dos Globos de Ouro.
  • 8 de Novembro: Os prêmios da diretoria da Academia são entregues: conjunto de obra, trabalho humanitário.
  • 19 de Novembro: Envio das cédulas para indicações aos prêmios da Screen Actors Guild, entidade de classe dos Atores. O prêmio é um termômetro sério dos Oscars nessa categoria.
  • 26 de novembro:  Envio das cédulas para indicação aos Globos de Ouro.
  • 3 de Dezembro: Prazo final para envio de fichas de inscrição para o Oscar.
  • 8 de Dezembro: Prazo final para entrega dos votos dos indicados ao Globo de Ouro.
  • 10 de Dezembro: Anúncio das indicados aos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 11 de Dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro.
  • 16 de Dezembro: Envio das cédulas para os prêmios finais da Screen Actors Guild.
  • 22 de Dezembro: Envio das cédulas para a escolha dos vencedores do Globo de Ouro.
  • 29 de Dezembro: Começa a votação dos indicados ao Oscar 2015. Nesta etapa, apenas Melhor Filme recebe indicações de todos os votantes. As demais categorias são escolhidas pelos departamentos da Academia ou comitês especialmente designados.
  • 5 de Janeiro: Anúncio dos indicados aos prêmios da Producers Guild – um termômetro certeiro para medir quem realmente está no páreo para melhor filme.
  • 7 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos para os vencedores do Globo de Ouro.
  • 8 de Janeiro: Termina o prazo para envio dos votos de indicados ao Oscar.
  • 11 de Janeiro: Entrega dos Globos de Ouro
  • 13 de Janeiro: Anúncio das indicações aos prêmios da Directors Guild, entidade de classe dos diretores. Olho vivo – mostram com clareza quem pode disputar tanto o Oscar de melhor diretor quanto o de melhor filme.
  • 15 de Janeiro: Anúncio dos indicados ao Oscar 2015.
  • 23 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos da Screen Actors Guild.
  • 24 de janeiro: Entrega dos prêmios da Producers Guild.
  • 25 de Janeiro: Entrega dos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 6 de Fevereiro: Começa a votação para os Oscars. Nesta etapa, todos os 6 mil acadêmicos votam em todas as categorias.
  • 7 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Directors Guild.
  • 8 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Academia Britânica de Cinema e Televisão. Não tem um peso grande no corpo votante dos Oscars – poucos integrantes também são acadêmicos – mas carimbam filmes e atores com um selinho de prestígio.
  • 17 de Fevereiro: Prazo final para entrega dos votos do Oscar.
  • 22 de Fevereiro: Entrega dos Oscars,

Respirem fundo. amigas e amigos. Começou.

 


Minha séries favoritas da nova temporada (nem todas estão na “TV)
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Ana Maria Bahiana

Nesta época do ano sou o alvo de duas avalanches. A primeira traz os dvds da quantidade cada vez maior de novas séries disputando espaço no início oficial do ciclo, o outono no hemisfério norte. A segunda vem mais tarde, em geral depois do dia de ação de graças (final de novembro): todos os filmes esperançosos por uma indicação ao Globo de Ouro.

A avalanche de TV, este ano, foi triste. Nem vou entrar em detalhes, a não ser para dizer que Gotham poderia tern sido tão divertida se tivessem contratado roteiristas que sabem escrever…

Mas vamos focar no positivo: do balaio 2014 estas são as minhas séries favoritas.

Transparent

Transparent (Amazon; todos os episódios disponíveis) já está sendo chamada de “a melhor nova série do ano”, o que é um pouco demais pra burro num ano que teve True Detective e Fargo. Mas não deixa de estar, com certeza, entre as melhores coisas desta safra. Crédito à criadora e showrunner Jill Soloway, que vem de duas boas escolas – o cinema independente (recomendo oseu Afternoon Delight que, apesar de instável – cheio de altos e baixos – revela seu talento para compreender e compor personagens) e a TV de primeiro escalão (Six Feet Under, United States of Tara). E crédito a Jeffrey Tambor, protagonista e principal força de impulso da série, no papel de um professor universitário, pai de três filhos, que decide, do alto de seus 70, mudar de sexo. O assunto não é original – o ótimo Transamerica, de 2005, e o telefilme Normal, de 2003, exploraram a questão com inteligencia, sensibilidade e grandes desempenhos de Felicity Huffman e Tom Wilkinson, respectivamente. Transparent alinha-se com esses bons títulos acrescentando uma paisagem humana e social precisa – a alta classe média de Los Angeles- e explorando o impacto das escolhas do pai sobre a vida dos filhos adultos, mas não necessariamente maduros. Um prazer, repleto de humanidade e humor.

Olive

Olive Kitteridge (HBO; estreia nos EUA 2 de novembro) Mildred Pierce, três anos atrás, abriu um nicho super interessante na programação da HBO: a minissérie sobre e para mulheres. É uma recuperação genial do “filme de mulheres” dos anos 1930 e 40, agora com a liberdade de ir mais fundo, de não fugir de temas espinhosos, controversos. Baseada no livro homônimo de Elizabeth Stro ut– na verdade uma coleção de contos sobre as vidas de vários habitantes numa cidadezinho do Maine – Olive Kitteridge foi adaptada com total precisão pela roteirista Jane Anderson e a diretora Lisa Cholodenko. A pragmática, contida, burtalmente honesta Olive (Frances McDormand, espetacular) é agora o centro de tudo. A cidade muda, pulsa e se transforma ao longo de 25 anos na vida dessa mulher, cuja fachada de força impenetrável oculta um mundo de dor e paixão. Só acompanhar o desempenho de McDormand já vale – mas ainda tem Richard Jenkins e, numa ponta essencial, Bill Murray (mais um sensacional elenco de apoio).

Bojack

BoJack Horseman (Netflix; todos os episódios disponíveis). Quando recebi os DVDs minha primeira reação foi: Ai! Quem precisa de mais uma animação tosco-irônica?! Confesso que o que despertou minha curiosidade foi a participação de Aaron Paul como a voz do principal coadjuvante, num elenco que já tinha Will Arnett, Amy Sedaris, Stanley Tucci, Patton Oswalt, J, K. Simmons , Anjelica Huston , Melissa Leo, e, como elas mesmas, Naomi Watts e Margot Martindale. Ainda bem. Imaginem os Simpsons na Hollywood de um universo paralelo onde os humanos convivem com híbridos entre gente e bicho, gerando seres como um diretor chamado Quentin Tarantulino (uma tarantula) , o nosso herói equino que foi famoso na TV dos anos 1990, e uma editora chamada Penguin onde só trabalham… pinguins. E isso é só o começo: a fina faca do comentário sobre as idiotices de nossa descerebrada cultura da celebridade corta de verdade, com o melhor gume possível – o riso.

 

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Menções honrosas vão para duas co-produções britânicas: Happy Valley (Netflix, todos os capítulos disponíveis) e The Missing (Starz, estréia nos EUA 15 de novembro). Em ambas, um desempenho espetacular ancora tudo e faz a gente esquecer as (pequenas ) falhas de cada um. Em Happy Valley Sarah Lancashire é uma sargento da polícia de uma pequena cidade do norte da Inglaterra, escondendo sob sua fachada estóica um mundo interior fracionado e muito próximo da violência que ela policia. Em The Missing Tony Hughes é um pai absolutamente possuído pela obsessão de encontrar seu filho, desaparecido há mais de oito anos. Os ritmos das duas séries são às vezes oscilantes, mas o poder de seus personagens nos mantém ligados na tela sem cessar, Cuidado com as maratoas – vão roubar horas preciosas de sono…


O que tem nessa cabeça? “Garota Exemplar” e o poder da história
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Ana Maria Bahiana

gone 1 Garota Exemplar (Gone Girl, dir. David Fincher, 2014) começa com o close da cabeça da personagem Amy Elliott Dunne, a “garota exemplar” do título brasileiro, a “garota desaparecida” do título original. O livro de Gillian Flynn – que adaptou sua própria obra para a tela – também começa assim, estabelecendo uma das muitas qualidades da personagem – a fineza de seus traços, que incluem “o que os vitorianos chamavam de uma cabeça bem desenhada”. É também o modo como autora e diretor nos dizem que tudo o que vamos acompanhar daqui para a frente se passa, acima de tudo, na cabeça , ou a partir da cabeça, dos personagens. Não apenas Amy, a que desaparece, e Nick, o marido que se vê acusado de seu desaparecimento, mas os vizinhos, os policiais, os familiares, os habitantes da pequena cidade do Missouri com a história se passa, os espectadores dos programas de debates da TV dedicados a casos escandalosos que fazem a cobertura do desaparecimento. E, obviamente, todos nós, na platéia do cinema. Um dos primeiros grandes sucessos de Garota Modelo é ter colocado a gestão de sua versão visual nas mãos de quem concebeu o projeto original. Porque o projeto original era inteiramente sobre conceitos, sobre imagens, sobre as narrativas fictícias que nós fazemos em nossas cabeças o tempo todo e que, se deixadas à solta, crescem como ervas daninhas e se transformam em “fatos”. Quem leu o livro sabe do que estou falando . Para quem não leu, tentarei dizer o mínmo possível além de: vejam esse filme, vejam correndo. Sim, apesar do Ben Affleck. Mais sobre isso em breve. A premissa é essa que alinhavei aí em cima: numa pequena cidade do interior uma moça – bonita, carismática, filha de pais famosos e ricos – desaparece súbita e misteriosamente. O marido, filho da terra que voltou para a cidadezinha movido a crises pessoais e financeiras, se vê pouco a pouco transformado em principal suspeito. Mas o que realmente está acontecendo? Há ecos imediatos de casos como os de Scott Peterson, que chocou a Califórnia e todo o país em 2004 – e que Ben Affleck entrevistou como parte de sua pesquisa para o papel de Nick Dunne. Mas na verdade a teia de crime e castigo é apenas a fachada : Garota Exemplar é sobre as histórias que inventamos, as histórias que contamos a nós mesmos, os personagens que inventamos, os personagens que vivemos. gone 2 Amy, escritora bissexta, é filha de aclamados autores de livros infantis que a transformaram na personagem de uma série de best sellers. Nick é um jornalista reinventando-se na cidade grande – Nova York – e depois convencendo-se ser um outro personagem, o acadêmico e escritor recluso no campo. São histórias dentro de histórias, máscaras sobre máscaras empilhando-se e se re-arranjando ao sabor de um roteiro exato e da diabólica precisão de David Fincher, sua câmera sempre pousada onde mais oculta fingindo estar mostrando. É um filme longo – duas horas e 25 minutos – que passa quase como um transe, graças à maestria de Fincher e o apoio respeitável da trilha de Trent Reznor. Eu teria preferido que outro ator estivesse no papel de Nick. Mais que isso, o tempo todo eu imaginava outros atores, mais dinâmicos, mais plásticos, compartihando conosco os turbilhões internos do personagem. Pensei que talvez Fincher tivesse sido atraído exatamente pela impassibiidade de Affleck , expressando sempre uma máscara, nunca uma pessoa. Mesmo assim… Principalmente porque Rosamund Pike, no papel de Amy, lida com as mesmas questões de modo absolutamente espetacular. O filme é dela, do começo ao fim, e sem ela não seria o espetáculo que é. Espero que seja lembrada em todos os prêmios.  Garota Exemplar estréia aqui dia 26 de setembro, no festival de Nova York, e em circuito comercial dia 3 de outubro; no Brasil, sua estréia é no Festival do Rio, dia 2 de outubro.


Temporada-ouro: onde estão as mulheres?
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Ana Maria Bahiana

Julianne Moore em Mapas Para As Estrelas...

Julianne Moore em Mapas Para As Estrelas…

... e em Still Alice. Um dos duelos de um ano complicado para as atrizes.

… e em Still Alice. Um dos duelos de um ano complicado para as atrizes.

A esta altura, ano passado, já tínhamos visto, todo mundo já estava certo de que Cate Blanchett seria se não a vencedora de todos os prêmios, pelo menos a favorita, aquela que as demais tinham que ultrapassar. 2013 foi um ano bom para atrizes, assim como 2012 e 2011, repleto de papéis fortes, tanto para protagonistas quanto para coadjuvantes. O difícil era escolher: Jacki Weaver ou Hallee Steinfeld? Viola Davis ou Rooney Mara? Jessica Chastain ou Emmanuelle Riva? Sandra Bullock ou Judi Dench? Isso sem nem falar nas que ganharam. Este ano, até agora, o zum zum é dominado pelos atores, desde Sundance, passando por Cannes , Telluride e Toronto. Toronto, aliás, não tem mais a força de antes – novidades poucas, e um trio de pesos-pesados – Interstellar, Garota Exemplar (Gone Girl) e Inherent Vice – decidiram esperar para entrar na disputa no Festival de Nova York, que começa neste final de semana. Mesmo com esse desconto, os principais desempenhos que emergiram de Toronto foram os masculinos: além do duelo Benedict Cumberbatch X Eddie Redmayne em cinebios de grandes cientistas britânicos, Alan Turing (The Imitation Game) e Stephen Hawking (The Theory of Everything), Paul Dano como Brian Wilson em metade de Love & Mercy, Chris Rock em Top Five, Jake Gyllenhaal em Nightcrawler (o fato d le ter perdido uns vinte quilos para fazer o papel sempre ajuda…) e Adam Driver em Hungry Hearts (premiado em Veneza). Sou completamente contra especular sem ter visto, mas a seca é tamanha que comecei a fazer um inventário de papéis com força suficiente para disparar indicações. Eu não teria o menor problema em indicar algumas boas performamces que vi no primeiro semestre: Patricia Arquette em Boyhood, Marion Cotillard em A Imigrante, Agata Trzebuchoska em Ida, Scarlett Johansson em Sob a Pele. Mas sei muito bem que não esses filmes não tem o jeitão que agrada meus colegas votantes – algo mais acessível, um tanto mais abertamente trágico, de preferência com ecos históricos, temas “de época”. Por isso não descartaria Shailene Woodley em A Culpa É Das Estrelas. Em um ano mais disputado, essa opção poderia desaparecer no turbilhão da temporada-ouro. Mas este ano…

Reese Whiterspoon em Wild...

Reese Whiterspoon em Wild…

... e Mia Wasikovska em TRacks : duas atrizes, dois filmes, basicamente a mesma história.

… e Mia Wasikowska em Tracks : duas atrizes, dois filmes, basicamente a mesma história.

Duelos previsíveis, parte 1: Reese Whisterpoon e Mia Wasikowska pelo que , sinceramente, é o mesmo papel em dois filmes diferentes – Wild e Tracks. Os dois são sobre mulheres que entram em crise e decidem fazer uma longa jornada a pé, uma espécie de peregrinação para reencontrar o sentido da vida. A Cheryl de Reese em Wild é simpática e abordável. A Lily de Mia em Tracks é arredia e antissocial. Acho que já sei quem vai ganhar essa disputa… Parte 2: Julianne Moore contra si mesma em dois papéis completamente diferentes, a atriz ambiciosa e conflituada de Mapas Para as Estrelas e a acadêmica brilhante diagnosticada com uma moléstia grave e incurável em Still Alice. Eu disse “moléstia incurável”? Então já sei qual Julianne ganha essa disputa… Outras possibilidades : Juliette Binoche e Kristen Stewart (quem diria…) em Clouds of Sils Maria; Rosamund Pike em Garota Exemplar, Alba Rorschwacher em Hungry Hearts (premiada em Veneza); Hilary Swank em The Homesman e, quem sabe, Amy Adams em Big Eyes (ainda temos fé em Tim Burton?). Mas 2014, para as atrizes, ainda é uma incógnita.


Os primeiros candidatos da Corrida do Ouro 2014-2015
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Ana Maria Bahiana

É aquela época do ano: acabou a pipocada, as crianças voltaram à escola e todo mundo acha que sabe quem vai ganhar o Oscar (e outros prêmios).

A verdade, amigas e amigos,  é que, como já dizia o mestre roteirista William Goldman, neste ofício de doidos ninguém sabe nada. E a segunda e terceira partes desta verdade é que 1. A maioria dos filmes nas listas pipocando por aí ainda não estrearam/ foram exibidos para votantes 2. A imensa maioria de quem faz essas listas não vota para os prêmios sobre os quais escreve.

Então vamos com calma.

Aqui vai uma avaliação mais breve e possivelmente mais sensata incluindo filmes que já estrearam e/ou foram exibidos para votantes e – mais importante – já passaram por algum dos festivais que alavancam carreiras-ouro: Sundance, Cannes, Veneza,Telluride (em ordem cronológica).

 

BoyhoodBoyhood

O que é: 12 anos na vida de um menino, da infância até entrar para a faculdade.

Currículo: Sucesso em Sundance, Urso de Prata de melhor diretor em Berlim, seguido por circuito comercial no primeiro semestre e aclamação unânime da crítica.

Chances: Muitas: melhor filme, diretor e roteiro (Richard Linkater), atores (Patricia Arquette, Ethan Hawke e até o estreante Ellar Coltrane), melhor montagem.

O que pode atrapalhar: Sua delicadeza, seu orçamento de marketing modesto e o fato de ter estreado no primeiro semestre. Vai ser preciso uma campanha corpo a corpo para manter aceso o interesse em meio a filmes mais badalados.

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Grande Hotel Budapest

O que é: Tributo ao universo do autor Stefan Zweig pela visão de Wes Anderson – as memórias (verdadeiras ou não) de um famoso escritor recontam a vida num hotel de luxo do leste europeu, entre as guerras mundiais do século 20.

Currículo: Prêmio do Júri em Berlim,  circuito comercial no primeiro semestre, boas críticas.

Chances: Foi o primeiro grande destaque do ano no circuito comercial, o primeiro filme a despertar algum zum-zum. Fortes chances para Ralph Fiennes (num papel completamente diferente do seu habitual), roteiro, direção (Wes Anderson), direção de arte e figurinos.

O que pode atrapalhar: Wes Anderson. Nem todo mundo leva sua estética a sério.

Mr. Turner

Mr. Turner

O que é: A vida e a visão do pintor J.M.W Turner, um dos grandes das artes visuais britânicas.

Currículo: Melhor ator em Cannes para Timothy Spall, uma quase-palma para o diretor e roteirista Mike Leigh.

Chances: Timothy Spall, com, certeza. Mike Leigh também tem boas chances, assim como o filme.

O que pode atrapalhar: Lindo mas severo, Mr.Turner não joga para a arquibancada meeesmo…

foxcatcher

Foxcatcher

O que é: A complicada relação do excêntrico trilionário John Du Pont com os atletas do time de luta romana que ele patrocina.

Currículo: Melhor diretor em Cannes para Bennett Miller (Moneyball), passagem aclamada por Telluride, esta semana em Toronto. Estréia comercial nos EUA dia 14 de novembro.

Chances: Nicole Kidman sabe muito bem o que um nariz pode fazer na briga por uma estatueta (Oscar de melhor atriz por As Horas, 2002). Steve Carell (como Du Pont, irreconhecível) conseguirá o mesmo? Filme, diretor e roteiro também estão no páreo.

O que pode atrapalhar: Somente a competição.

Birdman

Birdman

O que é: Ator que teve dias de glória no papel de um super-herói tenta dar um reboot em sua carreira com uma peça na Broadway.

Currículo: Aclamação total em Veneza e Telluride. A palavra “obra prima” não era tão usada desde Boyhood alguns meses atrás. Estréia comecial nos EUA dia 17 de outubro.

Chances: Alejandro González Iñarritu na direção, Michael Keaton no papel principal (como os votantes amam uma volta por cima, ainda mais com elementos meta…!), Edward Norton e Emma Stone como coadjuvantes, fotografia, montagem, melhor filme.

O que pode atrapalhar: É preciso segurar o entusiasmo de agora até a virada do ano…

wild

Wild

O que é: Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas) adapta o best seller de Cheryl Strayed sobre uma longa caminhada solitária como forma de reencontrar o sentido da vida.

Currículo : Estréia bem recebida em Telluride. Entra em circuito comercial, nos EUA, dia 5 de dezembro.

Chances: É meio Comer, Rezar, Amar com mochila, o que sempre cai no gosto de muitos votantes. A reação de Telluride foi mais positiva quanto à estrela Reese Whiterspoon do que quanto ao filme de modo geral – ela é a grande chance do filme.

O que pode atrapalhar: A competição. Mas Reese está saindo com vantagem.

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The Imitation Game

O que é: Como o matemático inglês Alan Turing decifrou o “código impossível” dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Currículo : Estréia bem recebida em Telluride, vai para Toronto. Entra em circuito comercial, nos EUA, dia 21 de novembro..

Chances: Benedict Cumberbatch como Turing tem sido a unanimidade até agora. As chances são muito boas.

O que pode atrapalhar: O filme em si, que não é tudo o que poderia ser.

 

rosewater

Rosewater

O que é: A história (verdadeira) do jornalista iraniano Maziar Bahari, preso e torturado por cobrir manifestações em Teerã em 2009.

Currículo : Estréia bem recebida em Telluride; esta semana em Toronto. Entra em circuito comercial, nos EUA, dia 7 de novembro.

Chances: Votantes adoram celebridades que dirigem – e Jon Stewart está estreando atrás das câmeras com este filme (alô, Argo! ). A reação do seleto público em Telluride foi entusiasmada, embora as resenhas tenham sido assim-assim. O destaque mais provável é para Gael Garcia Bernal como Maziar. Olho nele.

O que pode atrapalhar: Os altos e baixos do próprio filme, a resistência ao tema.

 

É claro que teremos mais competidores nesta gincana– muita coisa ainda vai pipocar por aí. Mas estes são os que tem tração agora, na largada…. Olho vivo, pessoal… Vou mantendo vocês atualizados…


Anunciado calendário dos Globos de Ouro 2015
Comentários 2

Ana Maria Bahiana

Golden Globe statues     Foi dada a partida. Anotem aí:

  • 31 de outubro: prazo para submissão de filmes e séries/filmes de TV. Brasil, isso é com você também. Tudo o que é preciso é preencher um formulário e disponibilizar seu filme. Não precisa de indicação oficial nem de exibição comercial nos Estados Unidos. Mas atenção aos prazos! Mais informações aqui.
  • 3 de dezembro: Data final para exibição de filmes concorrendo aos Globos. Brasil, isso é com você também. Basta organizar uma cabine e/ou enviar screeners.
  • 6 de dezembro: Prazo final para atividades promocionais. Brasil, isso é com você também. Se você quiser marcar um bate papo entre diretor e elenco do seu filme e meus colegas da Associação, faça-o até essa data.
  • 11 de dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro 2015.
  • 11 de janeiro de 2015: Festança. Champagne. Momentos inesperados. Micos. Beijos, abraços, vestidos, tapetão, vencedores, lágrimas, discursos. São os Globos 2015 no hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills.

Bom, não digam que não avisei. Pelo que tenho acompanhado (de longe) a safra brasileira está boa, este ano. Vamos nessa?