Blog da Ana Maria Bahiana

Anunciado calendário dos Globos de Ouro 2015
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Ana Maria Bahiana

Golden Globe statues     Foi dada a partida. Anotem aí:

  • 31 de outubro: prazo para submissão de filmes e séries/filmes de TV. Brasil, isso é com você também. Tudo o que é preciso é preencher um formulário e disponibilizar seu filme. Não precisa de indicação oficial nem de exibição comercial nos Estados Unidos. Mas atenção aos prazos! Mais informações aqui.
  • 3 de dezembro: Data final para exibição de filmes concorrendo aos Globos. Brasil, isso é com você também. Basta organizar uma cabine e/ou enviar screeners.
  • 6 de dezembro: Prazo final para atividades promocionais. Brasil, isso é com você também. Se você quiser marcar um bate papo entre diretor e elenco do seu filme e meus colegas da Associação, faça-o até essa data.
  • 11 de dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro 2015.
  • 11 de janeiro de 2015: Festança. Champagne. Momentos inesperados. Micos. Beijos, abraços, vestidos, tapetão, vencedores, lágrimas, discursos. São os Globos 2015 no hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills.

Bom, não digam que não avisei. Pelo que tenho acompanhado (de longe) a safra brasileira está boa, este ano. Vamos nessa?


Guardiões da Galáxia: quando cinema é a melhor diversão
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Ana Maria Bahiana

Guardians abre

Confesso: estava com dois pés atrás com Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, dir. James Gunn, 2014) e admiti isso francamente lá no meu ask.fm. E tinha bons motivos:

  1. Aquele trailer. Imagino, aliás sei, que o marketing da Disney é danado de bom e mirou exato no alvo do público essencial do filme. Que não sou eu. Isso talvez explique porque, depois de ver algumas iterações do trailer, minha vontade de ver Guardiões chegou abaixo de zero.
  2. A overdose de filmes de super-herói. Neste último sábado, numa workshop de marketing e branding, a Marvel foi usada como case de uma grande virada de reposicionamento. E é mesmo – justo quando o consumo de seus quadrinhos estava em estagnação indo para a decadência, ela se reinventou desencarnando conteúdo de plataforma e invadindo cinema, TV e games. Palmas pra ela. Agora, que já esgotou minha paciência, ah isso já.
  3. James Gunn. Me perdoe, Jim, mas conheci você quando você batia panela pela Croisette, em Cannes, atrás do Lloyd Kaufman , parte do comboio da Troma, a produtora divertida e absolutamente classe-Z de gemas como Toxic Avenger, Splatter University e, para citar uma obra sua, Tromeo and Juliet. Isso seria até uma coisa boa – aí está Roger Corman que não deixa niguém mentir – mas você deu sequência à sua carreira com algumas coisas mega fracas para TV, e um filme tão execrado _ Movie 43 _ que merecia uma Framboesa de Ouro especial, cravejada de paetês.

Tendo dito tudo isto, evitei como pude as cabines oficiais e fui ver Guardiões como se deve – num cinemão de bairro lotado, com um balde de pipoca no colo e cercada pelo público-alvo por todos os lados. E adorei.

Alguns colegas apontaram – com razão – que Guardiões é um filme transnarrativa, ou meta-meta (termo que soa absolutamente pornográfico em nosso idioma, mas vá lá…). Ou seja, é um filme que prescinde de história, que se segura num fiapo de trama sem nenhum compromisso com fazer sentido ou apresentar grandes contornos dos personagens e seus dilemas. É um filme sobre uma experiência audio-visual. Quase, desculpem a blasfêmia, um Terrence Malick trincado depois de uma overdose de Red Bull. GUardians 1 Certo, existe um elemento disparador – um globo misterioso perseguido por várias facções interplanetárias, cada qual com sua agenda – mas isso é o de menor importância. Estudiosos e fiéis do cânon Marvel – no qual a saga dos Guardiões é decididamente um evangelho menor- poderão discorrer longamente sobre Kree e Xandar, ou a diferença entre Ronan e Thanos (ou sobre a exatidão da peruca da Glenn Close como Nova Prime).

Para mim, e, pelo jeito, para quase todo mundo na sala de cinema superlotada, não fazia a menor diferença. O prazer do filme era seu ritmo exato, sua medida certa entre aventura e comédia, seu grupo de adoráveis anti-heróis no meio de tudo, a dinâmica de suas sequências de ação, a insistência em não se levar a sério, suas múltiplas referências pop, de Indiana Jones a Kevin Bacon, de Star Wars a O Segredo das Jóias, com pitadas de Flash Gordon, Jornada nas Estrelas e Os Eleitos. Tudo isso ao som da mais inesperada das trilhas – o mix tape de pop e rock dos anos 1970 e 1980 que nosso herói Peter Quill (Chris Pratt, perfeito) ouve insistentemente, referenciando um dos poucos pontos consistentes da história, sua ligação com a mãe, autora das fitas.

Quando, no tempo das canções dessas fitas, George Lucas e Steven Spielberg decidiram abraçar publicamente sua paixão pop, dando uma guinada numa geração criada à sombra da nouvelle vague e do neo-realismo, eles estavam pensando nos seriados de baixo orçamento que formaram o imaginário da geração de seus pais. Guardiões faz muito isso, pegando agora o fio de outras gerações – as criadas com os filmes de Spielberg e Lucas – e dando a ele o tratamento cinco-estrelas que os efeitos de hoje permitem. Guardians Gunn Não é a toa que o cinema estava cheio de famílias completas, mães e pais e avós e avôs levando seus filhos e netos e divertindo-se com eles, possivelmente por motivos diferentes, cada qual criando sua própria história e referências em cima da experiência de ver o filme. Meta-meta. A obra é a história.

Então, Jim, desculpe a desconfiança. Eu devia ter lembrado que você também escreveu o ótimo Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004) e dirigiu o estranho mas super interessante Seres Rastejantes (Slither, 2008). E qualquer filme que começa com “I’m Not In Love” já ganha meu coração logo na largada.


Confissões de um homem muito estranho: uma conversa com Guillermo del Toro
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Ana Maria Bahiana

guillermo-del-toro_Fotor   Alguns dias atrás passei uma tarde excepcional com uma pessoa que admiro muito: Guillermo Del Toro. Desde Cronos, em 1993, Del Toro me impressionou como um olhar e uma voz originais e únicas, ao mesmo tempo extremamente culta e radicalmente pop, com uma pegada visual que estava fazendo falta no gênero fantástico. Tudo o que Del Toro fez depois confirmou minhas suspeitas. Ainda bem. Na véspera da estréia norte-americana de The Strain –a  adaptação épica dos três livros que Del Toro escreveu com Chuck Hogan – Del Toro me deu o prazer de uma longa conversa sobre terror, cinema, sua coleção de memorabilia e as três casas que mantém aqui em Los Angeles para abrigar toda a sua tralha, mais mulher e duas filhas.  (Devo acrescentar que Del Toro está, neste momento,  em adiantada pré-produção de Crimson Peak, thriller de terror  gótico sobre casas mal assombradas estrelado por Jessica Chastain, Charlie Hunman e Tom Hiddleston, e que estreia aqui em outubro de 2015….) Alguns momentos bacanas do papo: Você começou sua carreira  na TV, no México, e agora está aqui na TV dos Estados Unidos – como, aliás, vários de seus colegas diretores. A TV está mesmo passando por uma Era de Ouro? _ Eu acho a TV um dos lugares mais interessantes, criativamente, hoje, para se trabalhar. Uma coisa que amo na TV é a possibilidade de mudar o tom da história de temporada para temporada, de desenvolver profundamente os personagens, de criar e explorar quantos arcos narrativos quisermos. E não estou nem falando de algo experimental _ estou falando de um canal pago ou mesmo aberto. Você não precisa correr para desenvolver seu personagem – você não precisa nem mexer nele nas primeiras quatro horas de uma série! E num filme você tem duas horas para fazer tudo! Para quem escreve, como eu, é uma proposta irresistível – hoje podemos ser muito mais audazes, mais ousados, e ainda sim atingir uma grande plateia. Não me espanta que muitos de meus colegas, diretores como Alfonso Cuaron, David Fincher e Steve Soderbergh estejam trabalhando para TV. É onde as coisas interessantes estão acontecendo. Você se policiou ou se restringiu quando adaptou seus livros para a TV? _Eu não sou muito bom em termos de me policiar ou me restringir… Mas até eu achei que alguns trechos dos livros eram pesados demais para serem mostrados… perturbadores demais. Então deixei de fora. Se algo é extremo demais – mesmo numa série que é cheia de momentos extremos – isso pode interferir com a apreciação de toda a história. Ler é uma coisa, ver é outra. Algo excessivo pode passar a ser repugnante, visualmente. E isso sou eu falando – eu que nunca tive medo de coisas repugnantes!

Del Toro e uma parte muito pequena de seu "terrário".

Del Toro e uma parte muito pequena de seu “terrário''.

Como você se define? _ Sou um cara muito estranho. Eu fui um menino muito estranho, e agora sou um homem muito estranho. Adoro minha coleção de monstros, meus kaiju, meus anime, meus posters. Moro numa casa normal com a minha familia mas trabalho nas minhas duas casas anormais onde tudo isso está reunido. E me sinto feliz como um lagarto num terrário. Eu sempre me achei um lagarto. Se você põe um lagarto num shopping, ele vai ficar apavorado, perdido. Mas num terrário ele está bem feliz e contente. Esse sou eu. Você diz isso porque gosta do terror e do fantástico? _Não… é porque eu sou estranho mesmo, e sei disso. Sou obcecado pelo terror e pelo fantástico desde garoto, mas sempre busquei algo diferente nele. Sempre procurei ler tudo sobre o assunto, ver todos os filmes possíveis. Mas quando eu crio, eu sei que estou pegando uma tangente. Estou indo por um outro caminho. Sou igual a um taco com caviar e um pouco de ketchup e mostarda por cima. Nem todo mundo vai gostar de mim, mas é como eu sou. Qual o diretor de cinema fantástico que você mais admira? _Tem muitos… Terror é uma coisa tão pessoal… é tão pessoal quanto comédia… o que faz uma pessoa rir pode dar nojo em outra pessoa… Terror é assim também.  O que eu acho apavorante e genial e sublime outra pessoa pode achar medíocre, e não se impressionar nem um pouco. Admiro muitíssimo John Carpenter. Acho um diretor ousado e maluco que nunca foi devidamente apreciado. Ele é fantástico, inteiramente avant-garde. O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982) é absolutamente incrível! É fantástico! E no entanto foi massacrado quando estreou… Por isso eu digo que sou estranho mesmo… Se você quiser ler sobre o lado literário da minha conversa com Guillermo del Toro, ela está aqui.


Doze anos de uma história, um momento depois do outro
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Ana Maria Bahiana

boyhood abre 2 Boyhood, Ellar Coltrane Na última cena de Boyhood (Richard Linklater, 2014) , Mason (Ellar Coltrane) e uma amiga contemplam o céu em chamas e o horizonte infinito do majestoso parque Big Bend, no extremo sudoeste do Texas. Os dois estão meio viajandões de cogumelo, ocorrência não incomum quando se tem 18 anos e se está pousado no gume da lâmina entre o não saber bem quem se é e as portas escancaradas do futuro.Em alguns dias Mason e seus amigos de excursão pelo Big Bend começarão suas aulas na universidade. É possível que Mason e sua amiga se tornem um casal. É possível que Mason se forme com louvor em fotografia, sua paixão até o momento, que já lhe rendeu um prêmio no ginásio. É possível que ele troque tudo, que largue tudo, que se case, que  mude de cidade, ou de país… Tudo é possível, e é isso que a imensa paisagem vermelha, que imediatamente remete aos westerns clássicos, imprime em nossas retinas.

Mason e a amiga trocam um breve diálogo, que a princípio parece coisa de doidão. Ela acha que “carpe diem”, aproveite o dia, aproveite o momento, deveria ser ao contrário, que o momento é que nos pega, nos envolve, toma conta de nós. Mason concorda. “O momento é tudo”, ele diz, enquanto a câmera se aproxima lentamente, delicadamente, de seu rosto.

Esta cena, simples e maravilhosa, é o fecho perfeito para um filme enganosamente simples e cem por cento maravilhoso. Durante duas horas e 45 minutos – que passam com a mesma rapidez de um momento fugidio – vimos Mason/Ellar crescer diante de nossos olhos, do moleque de 6 anos que ainda se refugia no colo da mãe (Patricia Arquette) para ouvir histórias ao rapaz de 18 que compreende, afinal, que fantástica, penosa, complicada, única é essa estrada que trilhamos desde nossa primeira inspiração.

A absoluta insanidade de Linklater – filmar uma história ao longo de 12 anos, com os mesmos atores e não-atores – só havia sido tentada, que eu saiba, no território do documentário, com a série Up, de Michael Apted, que seguiu um grupo de crianças desde a escola até a meia idade. Mas a ousadia aqui é outra: o autor não está removido da história, não é o ser onipotente que, de fora, registra as trajetórias de outros. Em Boyhood Linklater está no centro de tudo: na concepção e planejamento do projeto (só a pré-produção levou mais de um ano, e a pós-produção, dois); no roteiro, que sem sombra de dúvida espelha sua própria vida crescendo no oeste do Texas num família instável centrada numa figura materna forte e progressista; e finalmente no olhar calmo, preciso, com que deixa que as duas histórias – a sua e a de Mason/Ellar – se desenrolem ao sabor do tempo.   Boyhood, Ellar Mason., Ethan HwakeCom certeza muita gente vai sair desse filme dizendo “mas é só isso? Isso não é nada demais”. Compreendo _ décadas de fogos de artifício visual de todos os tipos, de efeitos espetaculares a dramas e terrores absurdos, complicadas estruturas narrativas e outros adornos nos deixaram viciados naquilo que é ruidosamente “difícil”. Boyhood não é ruidoso, mas não é fácil – e a simplicidade do olhar de Linklater é o mais complicado de tudo, permitindo que, sobre a sua proposta, a vida e o tempo, em si, construissem um filme. Drama e comédia acontecem, mas Linklater não força a mão em momento algum, não sublinha, não grita – estamos com ele na casa da familia, no banheiro da escola, no assento do carona, na garagem, no almoço de domingo, respirando livremente o momento. Em breve outro momento virá, e outro, e mais outro, o rio do tempo mudando pessoas e paisagens, tecendo uma trama em parte inventada, em parte vivida . Como eu cheguei aqui? , o filme pergunta. Deixando os dias passarem, é a resposta, como na canção dos Talking Heads.

Mas Boyhood não é apenas a vida de um garoto – é a vida de seus pais (Arquette e Ethan Hawke), de sua família, de suas comunidades, de seu estado, de seu país, de todos nós. Somos nós todos atravessando 12 anos, mudando de roupa, de tecnologia, de trilha musical. Somos nós todos crescendo, amadurecendo, envelhecendo – palmas extras para Arquette e Hawke, que chutam o balde do convencional e se permitem envelhecer diante dos nossos olhos – ganhando, perdendo.

Vendo Boyhood eu pensei imediatamente em SlackerDazed and Confused, os filmes de Linklater que, para mim, mais se aproximam em conceito e estética deste. Mas um minuto depois eu vi, escondido em Boyhood, o olhar delicado e generoso de François Truffaut, seu comprometimento inequívoco com a verdade de cada pessoa, seu jeito despojado e poético de enquadrar, escolher, mostrar. Mason poderia ser Antoine Doinel no oeste do Texas, crescendo com os mesmos pequenos-grandes dramas que são os de todos nós e que, às vezes, o olhar do cinema captura tão precisamente.

E, no final, o momento é tudo.

Boyhood está em cartaz nos EUA e estréia no Brasil dia 30 de outubro.

 


Na mão e contramão da história, entre humanos de todos os tipos
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Ana Maria Bahiana

Dawncarao

 

A primeira (descontado o prólogo) e a última imagens de O Planeta dos Macacos- O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, Matt Reeves, 2014) são a mesma: um super close de Caesar, o líder dos símios que, no filme anterior desta iteração da franquia, libertou um bando de seus companheiros de espécie do cativeiro dos humanos.

Abrir um filme assim é uma ousadia tremenda – a imagem nos pede para aceitar um rosto não-humano como nosso igual e, mais que isso, como o protagonista de uma narrativa cinematográfica que, fora da animação, é dominada por nós, homo sapiens.É um risco brutal que nos diz, de cara, que o diretor Matt Reeves está jogando com todas as suas cartas, e veio para nos provocar, nos instigar, nos propor a ver um filme-diversão, um filme fantástico, como algo além de desculpa para duas horas no ar condicionado, comendo pipoca.

Quando vemos Caesar em extremo close-up, no final do filme, não há mais risco – e esse é um dos grandes triunfos de O Confronto. Graças a uma exemplar combinação de arte e tecnologia, do talento imenso de Andy Serkis e da genialidade dos animadores da Weta (e de mais três estúdios auxiliares de VFX), das excelentes escolhas de Reeves e da bela articulação do roteiro, há muito abraçamos Caesar e seus companheiros de tribo como personagens completos e complexos. A possível estranheza de ver um filme protagonizado por não-humanos desde o começo – algo que nem Avatar, que primeiro propôs esse conceito, deve coragem de fazer – desfaz-se com tamanha rapidez que, não demora nada, são os atores humanos que parecem fora do lugar.

O que é exatamente a ideia central de O Confronto. Dez anos depois dos eventos do filme anterior, de 2011 (aconselho ver antes deste) o mesmo vírus que tornou os símios capazes de saltar algumas etapas na escala da evolução dizimou a população humana do planeta. Núcleos de refugiados vivem em condições precárias no que restou das grandes cidades, enquanto nas florestas do norte da Califórnia, Caesar (Serkis) comanda uma vasta população símia capaz de comunicação, artefatos, estratégia, cultura, política e organização social.

Dawn1

As necessidades dos refugiados de San Francisco – comandados por Dreyfus (Gary Oldman, competente como sempre) – colocarão os dois mundos em conflito, acelerando a narrativa que, em última instância, levará ao cenário desenhado no primeiro filme de todos, O Planeta dos Macacos, de 1968 (escrito por Rod “Além da Imaginação” Serling, dirigido por Franklin “Papillon” Schaffner e adaptado de um genial bestseller do mesmo nome, de Pierre Boulie, cujo universo continua alimentando a franquia.)

O Planeta dos Macacos-A Origem já tinha sido um filme da alegre categoria :''filme  muito melhor do que precisava”, graças não apenas aos excelentes VFX mas também ao roteiro de Rick Jaffa e Amanda Silver (os mesmos de O Confronto) e à direção de Rupert Wyatt. Matt Reeves dirigiu um filme que me fez rir à revelia de suas intenções – Cloverfield – mas também assinou dois filmes que me disseram muito: The Pallbearer, de 1996, e Deixe-me Entrar, de 2010. Em todos eles (sim, inclusive Cloverfield) Reeves demonstrou seu talento em enquadrar e movimentar o olhar da câmera para contar muitas histórias ao mesmo tempo, coisa que faz aqui tantas vezes que é difícil até destacar uma – mas recomendo que prestem atenção numa cena de batalha que inclui o ponto de vista de um tanque, e que já seria extraordinária mesmo que todos os seus personagens fossem de carne e osso.

Dawnabre

Parte do que faz O Confronto se destacar nas águas mornas desta temporada pipoca é a sensação extraordinária de estarmos vendo ao mesmo tempo a mão e a contramão da história humana: o nosso retrocesso paralelo à evolução dos novos humanóides que criamos à nossa semelhança, dando a eles um pedaço do que julgávamos, em nossa arrogância, ser nosso dom maior, a inteligência. “Eles não precisam de energia elétrica”, diz um personagem humano. Exatamente. No começo do filme Caesar nos olha na platéia como quem pergunta o que estamos fazendo ali. No final, ele nos olha para ver se ainda temos alguma dúvida.

Se você só tem tempo para ver um filme da temporada pipoca este ano, veja O Planeta dos Macacos- O Confronto.

 E por favor – uma indicação para Andy Serkis, já!

O Planeta dos Macacos- O Confronto estréia aqui nesta sexta dia 11 e no Brasil dia 24 de julho.


No cardápio da TV: monstros, tiranos e rapazes sem camisa
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Ana Maria Bahiana

The Strain Antes de continuar com as novas séries deste segundo semestre,algumas boas notícias sobre futuros projetos:

  • Sherlock vai ter mais uma temporada em 2015-2016! Essa fez minha semana…
  • A quarta temporada de The Killing – a série que ninguém consegue matar – estará disponível na Netflix dia 1 de agosto.
  • Fãs de American Gods, como eu, ainda não se desesperem de todo. Embora a HBO tenha desistido depois de três tentativas de adaptar o livro de Neil Gaiman ( dá para imginar por que…) a Fremantle Media, que detem os direitos, está convencida de que é capaz de tirar uma série dali. A busca por um showrunner do primeiro time está avançada.
  • Fãs de Jonathan Strange e Mr. Norrell, também não percam as esperanças. O filme não saiu, mas vem aí uma série de sete episódios da BBC America, estrelada por Eddie Marsan (o “Terry” de Ray Donovan, e o “Inspetor Lestrade'' de Sherlock) e Bertie Carvel ( o “Barnatabois” do filme Les Miserables).

E agora…. strain The Strain (FX, estréia nos EUA dia 13 de julho). Você sabe que Guillermo del Toro conseguiu te enrolar direitinho quando você termina de ver o primeiro episódio/piloto de The Strain completamente apavorada e hipnotizada. E só muito tempo depois você pára e percebe que este é o tipo de…eu ia dizer filme, o que ele de fato é… em que personagens entram em lugares enquanto outros gritam :”Não! Não! Não entre aí”; onde uma caixa gigantesca aparece numa área suspeita controlada pelo Centro de Controle de Epidemias e ninguém põe nem ao menos um vigiazinha para tomar conta da dita cuja; e que quando um personagem diz “nenhum veículo deixa esta área sem minha permissão” você sabe que na cena seguinte uma van enorme vai fazer exatamente isso. Tudo perdoado, Guillermo. Quem leu os quadrinhos criados por Del Toro e Chuck Hogan sabe do que se trata (a série é fiel à hq). Quem não sabe pode apertar os cintos para uma jornada daquele tipo de horror à moda Del Toro (que produz a série e dirigiu e escreveu o piloto): orgânico e metafísico, onde a própria carne humana é a fonte dos principais terrores, e onde nenhuma metáfora capaz de ser levada ao pé da letra é deixada de lado. Garanto: nunca mais você vai ouvir “Sweet Caroline”, do Neil Diamond, do mesmo modo. outlander Outlander (Starz, estréia nos EUA dia 9 de agosto). Sim, esta é o tipo de série em que rapazes fortes e bem apessoados – de kilt, ainda por cima! – tiram a camisa por qualquer coisa, mesmo no clima super ameno das montanhas da Escócia. É, também, o tipo de série em que uma moça tem que escolher entre dois bonitões igualmente (em tese) irresistíveis (o rebelde escocês Sam Heughan e o marido inglês Tobias Menzies) Tendo dito isso, acrescento – não é Crepúsculo. O diferencial é a obra de Diana Gabaldon, que oferece uma heroína substancial e complexa, a enfermeira Claire Randall, (Caltriona Balfe), escolada nos ambulatórios da Segunda Guerra Mundial, e um bom pano de fundo com os intermináveis conflitos entre ingleses e escoceses no século 18. As paisagens da Escócia (cujo bureau de cinema apoiou  e co-produz o projeto) são um ótimo bônus. tyrant Tyrant (FX, estréia nos EUA dia 24 de junho). Quem será que achou que isso daria uma boa série? Temos aqui o israelense Gideon Raff, um dos criadores de Homeland, juntando-se aos americanos Howard Gordon ( de 24 Horas) e Craig Wright (Lost, Brothers and Sisters, Six Feet Under, United States of Tara) para criar uma série sobre a luta pelo poder num país (árabe, muçulmano) fictício do Oriente Médio. E sabem o que é pior? O que mais incomoda não é nem o festival de clichês que referencia em parte o Iraque de Saddam Hussein, em parte o Egito da Primavera Árabe e da praça Tahir, e que coloca um irmão “mau “, o mais moreno, mais árabe ( o palestino Ashraf Barhom) contra um irmão “bom”, o mais clarinho, mais ocidental (o inglês Adam Rayner). É a multidão de personagens superficiais, começando pelos dois irmãos (Barhom parece que está sempre latindo; Raymer, que está sempre com dor de cabeça) e culminando numa familia que parece um replay das piores coisas de Homeland: a dona de casa devotada que não tem mais o que fazer além de se preocupar com o marido (Jennifer Finnigan, sempre com os olhos arregalados), os dois filhinhos insuportáveis. Eu já vi quatro episódios e digo: não melhora. Muito pelo contrário. knick2 The Knick (Cinemax, estréia nos EUA dia 8 de agosto) Sempre teve curiosidade para saber como se consertavam fraturas e se faziam cesáreas uns 100 anos atrás? Como eram tratadas, digamos, meningite e sífilis? Sempre quis saber como foram criados os instrumentos cirúrgicos, como se desenvolveram as técnicas e tratamentos da medicina moderna? Então esta série é para você! Mas mesmo que você não tenha nenhum desses interesses, esta é uma série que recomendo a qualquer pessoa que goste de bom cinema. Porque é cinema: Steve Soderbergh, produtor e criador, dirige e opera a câmera nos 10 episódios, garantindo unidade estética e clareza de visão na história de um hospital na Nova York do começo do século 20 – Knickerboker, o Knick do título – e seu time de médicos, tão fascinantes e complicados quanto os dos melhores momentos de, digamos, ER. Clive Owen como o cirurgião-chefe Dr. John Thackery, vaidoso, arrogante, viciado em drogas, é o Sol em torno do qual se desenrola a trama de vida e morte,. Um filmaço, em 10 episódios.


É a Copa das séries: qual será o próximo grande sucesso?
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Ana Maria Bahiana

 

leftovers
Enquanto a Copa arrebata corações por aí, aqui as apostas são em torno das novas séries _ o verão norte-americano é um excelente campo de provas para as séries estreantes dos canais pagos, um setor mais que aquecido.

Aqui vão algumas prévias para vocês:

The Leftovers (foto) HBO, estréia 29 de Junho. Carro chefe da HBO na ausência do mega-hit Game of Thrones (cuja quinta temporada está neste momento em filmagem),. Leftovers é uma adaptação do livro Os Deixados Para Trás, de Tom Perrotta (que a Intrínseca lançou no Brasil em 2012 ) com supervisão de Damon “Lost” Lindelof. Como toda a obra de Perrotta – que já vimos no cinema em Eleição, de Alexander Payne, e Pecados Íntimos, de Todd Field – Leftovers, o livro, tem um tom entre o drama e a sátira, com situações banais levadas até extremos que revelam o absurdo da “vida normal”. Aqui, no caso, o súbito e inexplicado desaparecimento de milhões de pessoas pelo mundo afora e o impacto do sumiço nas vidas dos que ficaram.

Depois de ver os quatro primeiros episódios da série, ainda estou esperando a sátira. Acho que, assim como os arrebatados, ela não vai aparecer tão cedo, provavelmente nunca. Tudo é muito sério na fictícia cidadezinha de Mapleton, o clima de tragédia pesando no ar, referenciando, o tempo todo, os atentados do 11 de setembro de 2001. Numa mudança importante do material original, o protagonista não é mais um poderoso homem de negócios, mas o chefe de polícia da cidade (Justin Theroux), às voltas com dramas coletivos e pessoais (a mulher que largou a família para juntar-se a uma das bizarras seitas que se multiplicam depois dos desaparecimentos, a filha que vive em estado de apatia crônica).

Talvez a série floresça na continuidade – há alguns momentos geniais, com um surrealismo perverso que flerta com possibilidades saborosas no futuro ( um deles envolve cachorros e uma corça, e mais não direi…)

 

halt_and_catch_fire_ 

Halt and Catch Fire (AMC, estréia dia 1 de junho). Devemos nos preocupar com a AMC? O canal que durante alguns anos gloriosos teve no ar Breaking Bad e Mad Men agora tem TURN (que é muito bem acabada mas não consegue me pegar de jeito nenhum) e esta novidade criada por uma dupla experiente na TV – Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers – que, tenho quase certeza, pitcheou a série como “Mad Men nos anos 80! No mundo da informática!”

Senão vejamos: temos um executivo jovem, ambicioso, brilhante e arrogante (Lee Pace, que é o “Elfo Malvado” da trilogia Hobbit); uma ainda mais jovem profissional de informática, também brilhante mas socialmente canhestra (a canadense Mackenzie Davis), ao léu num universo dominado por homens; e um engenheiro inseguro, que se sente dominado pelos colegas e pela mulher (Scoot McNairy, um dos diplomatas sitiados de Argo).

Parece familiar?

Troque a publicidade pela industria da informática engalfinhando-se para produzir a próxima grande novidade nos anos 1980 como o mundo-em-transe das aventuras desses três personagem e temos Halt and Catch Fire.

Os dois primeiros episódios não conseguiram me dizer absolutamente nada além da excelente trilha musical – sintetizadores! New wave! Pós punk! – e das impressionantes sobrancelhas de Lee Pace. Já o terceiro, que foi ao ar domingo passado, apontou para uma boa evolução possível – em grande parte porque subverteu um pouco a rigidez dos personagens, tornando o Joe de Lee Pace mais vulnerável e imprevisível, e o Gordon de Scoot McNairy um pouco mais complicado e manipulador. Como quase toda série, Halt ainda não consegue dar às personagens femininas a complexidade que merecem, e isso é um dos seus grandes problemas.

Os diretores são do primeiro time – Juan José Campanella, Jon Amiel e Karyn Kusama, entre outros – e a a narrativa visual mostra com precisão tanto talento. E a trilha continua excepcional.

No próximo post: Outlander e The Knick.


Guerra nas pipocas: a TV e as mulheres estão ganhando…
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Ana Maria Bahiana

game-of-thrones-season-4-episode-9-the-watchers-on-the-wall-wildlings-hboMinha vontade esta semana era escrever exclusivamente sobre Game of Thrones, sobre como esta quarta temporada está  elevando ainda mais o nível já alto da série . E como Neil Marshall, que já havia botado pra quebrar na batalha do Blackwater, na  segunda temporada, definitivamente colocou a televisão num nível antes povoado apenas por gigantes como David Lean, William Wyler , John Ford. Porque dirigiu Watchers on the Wall como antes se dirigiam os grandes filmes de combate, tendo a petulância de incluir este plano sequência (que já vais er devidamente anexado ao meu curso…) Nessa hora é  bom lembrar  que Neil Marshall assinou alguns dos meus filmes de ação/terror favoritos dos últimos anos: Dog Soldiers, Abismo do Medo, Centurion. Tudo explicado: o bom cinemão está mesmo indo para a TV. Mas existem outros assuntos palpitantes aqui na cidade do outro lado do continente – e da Copa. Por exemplo:  edge-of-tomorrow-trailer-2

 

O que fazer com Tom Cruise? A vida é não é fácil quando um jovem mega-astro  passa dos 50 anos deixando para trás uma carreira muito mais de estrela do que de ator. Cruise é um dos nossos últimos, senão o último, puro “astro de Hollywood”. Sua glória se baseia não em como intrepreta seus papéis mas em como os papéis se transformam nele, Tom Cruise. Seus anos de esplendor estão entre Negócio Arriscado e Guerra dos Mundos, com um apogeu ali entre Top Gun e Magnolia, com um Kubrick ensanduichado no meio. Tempos mudaram, plateias mudaram ainda mais e, agora, No Limite do Amanhã tomou uma surra na bilheteria norte-americana, apesar dos elogios da crítica (merecidos – é um filme muito mais inteligente do que precisa). A bem da verdade a Warner, que é um verdadeiro rolo-compressor no marketing e distribuição, foi, digamos assim, super discreta e contida no lançamento de Limite do Amanhã. O empurrão maior foi reservado para os mercados internacionais, onde o filme foi lançado antes da estréia norte americana (sentiram a pressão aí?) E onde está fazendo uma bela carreira, com mais de 82 milhões de dólares em caixa – indica um caminho possível:  os anos dourados de Cruise estão fora dos Estados Unidos. É um padrão comum a todos os grandes astros de ação dos anos 80 e 90. Será que algum dia Cruise se imaginou na mesma categoria que Schwarzenegger e Stallone? hazel gus on set

 

Quem está dominando as bilheterias? Quem deu surra em No Limite do Amanhã foi A Culpa é Das Estrelas, a própria antítese do filme de ação/sci-fi.  É a segunda vez  em duas semanas desta temporada-pipoca, em geral dominada por adolescentes masculinos e familias, que o público feminino dá as cartas : Malévola passou de longe Um Milhão de Maneiras de Pegar Na Pistola (não briguem comigo – foi esse o título que o filme de Seth MacFarlane ganhou no Brasil) ; e acho que a mesma coisa vai acontecer internacionalmente. O mito de que apenas rapazes entre 14 e 39 anos vão ao cinema em quantidades suficientes para alegrar os grandes estúdios não se sustenta mesmo.  Bastava olhar o último relatório da Motion Picture Association of America para o ano de 2013: 51% dos compradores de ingressos são mulheres; 52% das pessoas que vão ao cinema também são mulheres. Num recente seminário da indústria, aqui em LA, o workshop sobre “como atrair o público feminino” estava superlotado. Eu não fui mas tenho uma sugestão simples: contratem mais mulheres roteiristas, diretoras, produtoras. Opcionem mais obras onde mulheres são protagonistas. O “público feminino” não é um gueto – é metade do mundo. E parece que é a metade que está ganhando. 680x478

 

Por que O Destino de Júpiter foi chutado para 2015? Vamos voltar ao marketing da Warner? Porque a resposta está aí….  Duas palavras: Cloud. Atlas. Que custou 102 milhões de dólares e fez 29 milhões e trocados nos Estados Unidos e Canadá, sendo salvo, assim-assim, pelos mercados internacionais (olha eles aqui de novo…). E mesmo assim… Certo, o motivo oficial pode até ser mesmo a pós produção, os efeitos digitais, etc. Mas suspeito que a razão mais profunda é estratégica: 18 de julho, a data original, é o filé da temporada-pipoca, super competitiva, onde um passo em falso é muito mais fatal do que os tranquilos idos de fevereiro de 2015, época morninha, sem grandes expectativas, sem a necessidade de uma campanha maciça ( e caríssima) de marketing . Coisa semelhante aconteceu com a Sony e Caçadores de Obras Primas – só que da temporada-ouro para o mesmo banho-maria do começo do ano. Em outras palavras: os executivos de distribuição e marketing deram uma boa olhada no filme e tiveram aquele proverbial frio na barriga, Que não era de emoção. E ,pra terminar, um lembrete: Penny Dreadful está chegando ao Brasil em julho, pela HBO (aqui, a série é da arqui rival Showtime). Não perca. Principalmente se você é fã de terror old school, com inclinações góticas. E gosta de coisas muito bem escritas.