Blog da Ana Maria Bahiana

Porque Birdman é o favorito do Oscar 2015
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Ana Maria Bahiana

79th Academy Awards Rehearsals Fri

Sim, eu sei. A temporada de prêmios 2015 começou e eu sumi. Desculpem, foi mal. Muita coisa ao mesmo tempo, o que, é claro, me adoeceu brabo.

Então vamos tentar recuperar o tempo perdido.

Neste momento o que eu havia pressentido lá atrás, em setembro-outubro, está se confirmando. Como em quase todos os anos, a corrida tem dois líderes, com um correndo por fora e outros disputando categorias específicas. Este ano, os dois líderes tem um nome só, começam pela letra B e são independentes, de baixo orçamento, intensamente autorais e completamente pelo avesso do que a indústria (que é quem escolhe esta etapa final da premiação) vem praticando nos últimos dez anos: Boyhood, de Richard Linklater, e Birdman, de Alejandro Iñarritu. Correndo por fora vem o charmoso Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, que também tem B no nome (os cabalistas devem estar se divertindo) e também é autoral, pessoal, de baixo orçamento e na contramão da indústria em tudo – inclusive no fato de ter sido rodado em película, o único assim na categoria “melhor fotografia”.

Depois da dupla vitória neste fim de semana, nos prêmios da Producers Guild e da Screen Actors Guild, acredito que a sorte está lançada para Birdman. Existe o fator matemático: praticamente todos os membros da PGA e da SAG são membros do corpo votante da Academia, os atores são o departamento mais numeroso entre os acadêmicos, e não vejo porque mudariam suas escolhas no Oscar (lembrando: na fase de indicação, são os departamentos e comissões que votam, com exceção de “melhor filme”, que todo mundo escolhe; na fase final, de premiação, todos os acadêmicos votam em todas as categorias.)

Mas existe também o fator psicológico. Esse é mais difícil de quantificar, mas é capaz de alterar ou confirmar o que a matemática aponta. E não adianta olhar para o passado e tentar fazer cálculos estatísticos : não foi indicado a isso, a estatística diz que não vai ganhar aquilo; x filmes desse tipo ganharam o Oscar, portanto o filme xx vai ganhar. Como não canso de dizer: um prêmio, qualquer prêmio, inclusive e principalmente o Oscar, é apenas a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. Sofre as influências do tempo, do momento, das crises, problemas, celebrações, preocupações que essas pessoas estejam enfrentando, individualmente e como uma comunidade.

Um elemento importante na hora de tentar pensar quem é a pedra da vez é um pêndulo que tem marcado as escolhas da Academia nos últimos 40 anos: a autocrítica de um lado e a autocelebração do outro.

Quando a Academia está feliz consigo mesma, e seus integrantes tem orgulho do que fizeram dentro da estrutura e dos recursos dos grandes estúdios, um filme “grande”, de orçamento vasto e muitas vezes pontilhado de estrelas, tem mais chances de ser o escolhido. Foi assim em 1979 com Kramer vs.Kramer, em 1982 com Gandhi, em 1989 com Conduzindo Miss Daisy, em 1993 com A Lista de Schindler, em 1994 com Forrest Gump, em 1997 com Titanic_ só para dar alguns exemplos.

Quando o pessoal está de farol baixo, trabalhando mas sem muito brio, jogando para cumprir o contrato mas secretamente invejando o povo que arrisca tudo para executar obras pessoais, autorais, com pontos de vista fortes, quem tem mais chances é o filme menor, financiado independentemente. Foi assim entre 1975 e 1978, quando a independente United Artists e, em 1978, a EMI Films, de breve vida, emplacaram vitórias seguidas, de Um Estranho no Ninho a O Franco Atirador. Foi assim em 1981 com Carruagens de Fogo (que nem americano era), em 1994 com Amadeus, em 1991 com O Silêncio dos Inocentes, em 1996 com O Paciente Inglês, e, a partir de 1998, quase todos, numa dança das cadeiras entre Miramax, DreamWorks, Fox Searchlight, Summit, Lionsgate, Weinstein Co e companhia.

Este ano, os dois principais competidores ( e até o terceiro correndo-por-fora) tem exatamente essas características: são obras impossíveis de serem dissociadas de seus criadores, realizadas com paixão e um ponto de vista claro, voltadas exclusivamente para a expressão de uma ideia, e não de merchandising, continuações, produtos ancilares, etc. São, em essência, o oposto de tudo o que está acontecendo na indústria, agora.

A infinita delicadeza e elegância de Boyhood, o modo como lembra aos colegas suas raízes num cinema mais humano, as paixões que eles talvez tiveram quando eram estudantes da arte, a ousadia em usar plenamente o tempo como um elemento narrativo são os trunfos que levaram o minúsculo filme de Linklater até agora. Mas quando, outro dia, eu ouvi um acadêmico dizendo que “não entendia como” o filme tinha sido indicado para melhor roteiro, e outro afirmando que era “um absurdo” que ele estivesse entre os nominados para melhor montagem eu comecei a desconfiar que apenas suas qualidades sutis não fossem o bastante para levá-lo até a reta final.

Birdman, por outro lado, tem o tipo de bravura fulgurante que enche os olhos até de quem é capaz de dizer as asneiras acima. O plano sequência fake! As meta referências! A trilha em solos de bateria! E ainda por cima é violentamente, passionalmente, ácidamente crítico do estado de coisas na indústria. Como resistir, num momento de depressão como este?

Neste momento, ponho minhas apostas em Birdman para levar o Oscar de melhor filme, e talvez mais alguns outros (fotografia? Roteiro original?). Talvez resolvam adotar a solução salomônica (herdada dos festivais, que usam o “prêmio do júri'' para o mesmo fim) de presentear Linklater com melhor diretor, como consolação. Mas não consigo tirar da cabeça que Birdman é, agora, o filme que mais expressa o momento que esse povo todo tá vivendo. Pulando de prédios (com asas?) em um, dois…


Meus favoritos estranhos de um ano morno
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Ana Maria Bahiana

 

 

Este foi um bom ano para filmes esquisitos. A oferta estava tão medíocre lá por cima que o melhor mesmo era ver as coisas menos badaladas, menos empurradas, com menores orçamentos de marketing (se é que tinham tal coisa…)

Como sempre, não vou chamar estas escolhas de “melhores” mas simplesmente de “favoritos” do ano _ os meus favoritos, os que me desafiaram, empolgaram , me fizeram pensar. Também não vou numerar minha lista _ cada um desses filmes falou comigo de um modo diferente, dizendo coisas diferentes.

Com vocês, meus queridos de 2014, todos os 12 (o que quer dizer o fato de vários deles terem títulos de uma palavra só? Humm…)

 

  • Boyhood – Porque reacendeu minha fé no poder da narrativa audiovisual, fazendo o aparentemente simples: o tecido de uma vida.
  •  Birdman – Porque me lembrou que a melhor insolência é a que vem bem articulada.
  •  Whiplash – Porque contou uma história de músicos, usando a música como sua voz.
  •  Snowpiercer – Pela ambição, pela visão, pela interpretação de Tilda Swinton.
  •  Grande Hotel Budapeste – Porque recriou um mundo que talvez nunca tivesse existido, me fez sorrir o tempo todo e trouxe de volta na minha memória um de meus autores favoritos, Stefan Zweig.
  •  A Girl Walks Home Alone at Night _ Porque pra mim foi o melhor filme de vampiro desde Deixe Ela Entrar.
  •  O Conto da Princesa Kaguya – Porque é pura poesia visual.
  •  Sob a Pele – Porque deslocou meu ponto de vista de um modo como poucos filmes fizeram desde O Homem Que Caiu na Terra.
  •  Festa no Céu (ô titulozinho, hein?) – Pelo fantástico poder visual, a imensa vitalidade e a ousadia de colocar a mitologia pré-colombiana no coração da cultura pop.
  •  Vício Inerente – Porque, como Budapeste, recriou um mundo que talvez nunca tivesse existido, continuando a antologia de memórias/recriações da paisagem física/imaginária de Los Angeles que é a obessão de Paul Thomas Anderson.
  •  O Ano Mais Violento – Porque me lembrou como era bom o cinema norte americano dos anos 1970, sem ter que necessariamente sentir saudade.
  •  Mr. Turner _ Porque conta uma história de pintores usando a imagem em toda a sua força e pureza. E pelos desempenhos de Timothy Spall e Dorothy Atkinson.

 

E também: Calvary, Selma, Ida, Amantes Eternos,  Uma Garota Exemplar, O Abutre, Big Hero 6, Jodorowsky’s Dune, Locke, Uma Aventura Lego, A Imigrante, Dois Dias e Uma Noite.

E vocês? Que filmes falaram ao seu coração em 2014?

 

 


As indicações dos Globos de Ouro 2015: sim, não, talvez
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Ana Maria Bahiana

56432309 A “tempestade da década” atrasou (só vai desabar agora de tarde), mas os Globos de Ouro não decepcionaram: mantiveram a tradição de misturar “uau!”, “que legal!” e “WTF???” em proporções bem dosadas. O que eu já esperava:

  •  As “iscas de Oscar” estão todas lá. Mas entendo por que filmes como A Teoria de Tudo, O Jogo da Imitação e até o inesperado Pride estão entre os indicados – a adoração por uma história bem contada, com ótimos atores, no conhecido padrão britânico de execução brilha ainda mais forte num ano fraco como este. Teoria e Jogo são os Discursos do Rei deste ano. Pride é o Full Monty. Tudo em casa.
  •  A rejeição a Interestelar (acho que tem colega com dor de cabeça até agora). Sinceramente, nem a trombose cerebral daquela trilha do Hans Zimmer deveria ter entrado.
  •  O reconhecimento da “outra TV”: Transparent, Orange is the New Black, House of Cards.
  •  A esnobada em filmes e desempenhos ótimos mas que pouca gente viu/apreciou: Mr. Turner, Miss Julie, A Imigrante.
  •  Não entenderam Vício Inerente, mesmo. Mas pelo menos acenaram para Joaquin Phoenix… (merecido…) Também não entenderam The Homesman e o desempenho espetacular de Hillary Swank. Pena.

O que eu não esperava

  • Invencível ser esnobado. Meus colegas adoram tudo o que o filme representa, da diretora célebre ao estilo old school.
  •  Game of Thrones entre as melhores séries/drama. Supresa total para mim. Mas gostei muito.
  •  Foxcatcher entre os melhores filmes/drama, Steve Carell e Mark Ruffalo lembrados e Channing Tatum esnobado. O filme não é tudo isso.
  •  Julianne Moore entre as melhores atrizes/comédia (além de drama…) por Maps to the Stars. Maps é o meu momento-Julianne favorito do ano, mas achei que o humor soda-cáustica do filme ia confundir meus colegas.

O que eu gostei

  •  O reconhecimento de Whiplash, Selma, o reconhecimento das novas séries/minisséries como Fargo, True Detective, Jane The Virgin, The Affair, The Missing, Olive Kitteridge.
  •  A festa da família Gyllenhaal: Jake por O Abutre, Maggie pela minissérie The Honorable Woman. Ambos muito merecidos.
  •  Os indicados da animação. Tudo certinho.
  •  Clive Owen e Liev Schreiber lembrados por The Knick e Ray Donovan. Dois personagens complicados resolvidos espetacularmente.
  • Finalmente se livraram da obsessão por Modern Family! (Mas o fetiche por Downton Abbey continua…)

Departamento WTF???:

  •  The Judge? St. Vicent? Adoro Robert Duvall e Bill Murray, mas esses dois filmes pedem deles apenas uma espécie de cópia da cópia do que já fizeram antes.
  •  Quvenzhané Wallis por Annie? Helen Mirren por Hundred Foot Journey? Juram? Está certo que tínhamos poucas opções, mas…
  •  Ricky Gervais por aquele horror que é Derek? Isso é fetiche masoquista por conta dos Globos de idos tempos?
  •  Em Big Eyes Christoph Waltz está fazendo o mesmo papel que já vimos em todos os outros filmes dele. Desconfio que seja só que ele consegue fazer.
  •  E finalmente: cadê Penny Dreadful? Cadê todo o elenco de Pennyt Dreadful? Cadê Peter Dinklage?

Os Globos de Ouro serão entregues dia 11 de janeiro em Beverly Hills. Agora é torcer pelos seus favoritos…


Agora vai começar: o que pode acontecer nas indicações dos Globos de Ouro
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Ana Maria Bahiana

 

Boyhood

 

 

Birdman

Duas coisas marcantes vão acontecer nesta quinta feira de manhã: a “tempestade da década” vai chegar a Los Angeles, trazendo a água que a região tanto precisa; e serão anunciados os indicados ao Globo de Ouro de 2015, coisa que ninguém precisa mas que já são tão parte da rotina da terra quanto as chuvas de inverno.

Este ano os dois filmes que dividem (mas, curiosamente, não polarizam) as atenções são,como previ, os dois “Bs”: Boyhood e Birdman. Boyhood concorre como drama, Birdman como comédia, e certamente vão puxar a fila de indicados, não apenas como filme mas também como diretor, roteiro e elenco.

Sim, é verdade, meus colegas adoram estrelas e ficam com os olhinhos brilhando quando vêem um filme que é bom mas não espetacular, mas tem pedigree no elenco. Por isso esperem ver, na categoria “drama”, os dois “isca de prêmios”, A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação, e com certeza Eddie Redmayne e Benedict Cumberbatch entre os atores. Invencível, que tem estrela na direção – Angelina Jolie – e um estilo que ecoa os grandes filmes de guerra de idos tempos – também deve estar lá. American Sniper, de Clint Eastwood, e Corações de Ferro são mais problemáticos, mas não descarto como possibilidade – assim como Bradley Cooper, Brad Pitt e Jack O’Donnell por Invencível. Uma possibilidade: Jake Gyllenhaal por O Abutre. Olho nele.

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Livre, de Jean Marc Vallée, é uma possibilidade também, levando consigo Reese Whiterspoon para as indicações de melhor atriz. Outras possibilidades: Garota Exemplar (e Rosamund Pike), Foxcatcher (Channing Tatum, Steve Carell), Selma (David Oyelowo, Carmen Ejogo), Still Alice (Julianne Moore). Gostaria muito de ver Mr Turner (com o diretor Mike Leigh e seus sensacionais atores Timothy Spall e Dorothy Atkinson) nessas listas, assim como Marion Cotillard por qualquer um de seus dois filmes (A Imigrante e Dois Dias, Uma Noite) , Jessica Chastain por Miss Julie e Oscar Isaac por A Most Violent Year, mas não sei se meus colegas chegam lá. Idem Whiplash, que para mim é um dos grandes filmes do ano _ pelo menos J.K. Simmons, será?

Interestelar é um buraco negro. Metade dos meus colegas tem dor de cabeça só de lembrar do filme. Curiosamente, pode ser o filme-surpresa da manhã.

INTO THE WOODS

Na categoria “comédia ou musical” Birdman vai ter que brigar com Grande Hotel Budapeste e Caminhos da Floresta (onde Meryl Streep já se classificou como coadjuvante). Vício Inerente é capaz de estar lá também (embora não tenha certeza se meus colegas realmente entenderam o que PTA está fazendo nesse filme…), assim como Big Eyes, que é um Tim Burton em tom menor mas tem seu charme de anotação sócio-cultural. E sabe o que não me surpeenderia? Ver Guardiões da Galáxia no mix. Todo mundo adorou.

Nos filmes estrangeiros, Ida é o favorito, seguido de Force Majeure e Leviathan. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tem fãs entre meus colegas, assim como Dois Dias, Uma Noite, o filipino Norte e o mexicano Cantinflas. A ver. Big Hero 6, Lego Movie e Boxtrolls são os ponta de lança da animação. Na TV, vejo os Globos de novo tomando a liderança no reconhecimento da audácia, e destacando Olive Kitteridge, Transparent, Getting On, True Detective, Fargo,  Rectify, Orange is The New Black, The Knick e The Affair.

Estarei sendo otimista demais? Vamos ver. De uma coisa tenho certeza: vai chover muito, mas muito mesmo, nesta quinta. O resto…


3001: a saga de 2001 continua, com Ridley Scott no comando
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Ana Maria Bahiana

 

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Seis anos depois de sua morte, a obra do visionário Arthur C. Clarke está presente como se ele nunca tivesse ido embora: o canal SyFy está produzindo, em parceria com a Scott Free de Ridley Scott, uma minissérie baseada em seu livro 3001: A Odisséia Final, último livro da saga Uma Odisséia no Espaço. O primeiro livro da série – 2001, Uma Odisséia no Espaço – foi transformada num filme clássico da ficção científica por Stanley Kubrick. Lançado em 1969, 2001 revolucionou a linguagem cinematográfica da ficção científica, contribuiu para o retorno do gênero ao centro da produção audiovisual e abriu o caminho para Star Wars (cuja equipe contou com vários técnicos que haviam trabalhado em 2001.)

2001 é um dos filmes favoritos de Christopher Nolan e a principal inspiração para seu novo trabalho, Interstellar, que estréia em todo mundo no próximo dia 6. (Clarke faz uma ponta em Interstellar como parte de uma série de entrevistados que, em algumas cenas do filme, narram suas experiências na Terra.)

Com produção de Scott e roteiro de Stuart Beattie (Colateral, 30 Dias de Noite), 3001 encerra a jornada de 2001 Uma Odisséia no Espaço e revela o destino final de seus protagonistas, começando com um dos astronautas, cujo corpo é resgatado , congelado, flutuando no espaço. Além de 2001 e 3001, a saga Odisséia no Espaço inclui os livros 2010 – adaptado para a tela em 1984 -, e 2061, que ainda não foi levado ao cinema ou TV. Uma outra obra importante de Clarke, Rendez-vous com Rama, está há décadas rolando pelo labirinto do desenvolvimento – David Fincher tem grande interesse em dirigir uma adaptação de Rama, que ele considera uma influência fundamental nas séries de filmes Star Trek e Alien.

A exploração espacial está mesmo voltando como tema – além de 3001, Ridley Scott está produzindo e dirigindo uma adaptação do best seller O Marciano, de Andy Weir, desta vez para a tela grande – o elenco é encabeçado por Matt Damon, no papel de um astronauta que é esquecido na superfície de Marte por seus colegas de exploração,

3001 ainda não tem data prevista de estréia, mas vale esperar – e bom saber que o SyFy está mesmo dando um upgrade em sua programação


2014, uma nova odisséia no espaço
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Ana Maria Bahiana

Interstellar abre

 

Christopher Nolan sempre disse que seu filme favorito de todos os tempos é 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick – que reinventou a ficção científica nos idos de 1969, inspirou Guerra nas Estrelas e, este ano, está sendo relançado para comemorar seus 45 anos de pioneirismo.

Tempo, tecnologia e prestígio deram a Nolan , finalmente, a oportunidade de criar sua resposta à obra do mestre _ e o resultado é ao mesmo tempo espetacular e frustrante.

Trabalhando mais uma vez com um roteiro a quatro mãos com seu irmão Jonathan, Nolan fez de Insterstellar a sua odisséia no espaço, sua declaração de amor à ciência e, em última análise, ao espírito humano, capaz tanto de mesquinhez quanto de grandeza. O grande triunfo de Interstellar é o modo como Nolan usa o filme – no caso, película mesmo, 35 mm e 70mm – para abordar os conceitos mais avançados da física, levando adiante a visão de Kubrick e de Arthur C. Clarke (que aliás aparece numa ponta muito inteligente do filme) para um momento da história em que a mesquinhez da humanidade esgotou completamente o planeta Terra, deixando como únicas opções a extinção ou a exploração espacial.

O que em 2001 era pura curiosidade científica é, em Interstellar, o desespero que leva à coragem absoluta. Num planeta exaurido, um núcleo de cientistas remanescentes do que restou da NASA planeja uma saída de emergência: uma missão (talvez suicida) para explorar um buraco negro além do qual podem existir mundos viáveis para a sobrevivência da humanidade. Cooper (Matthew McConaughey), um ex-astronauta transformado em fazendeiro depois de um acidente quase fatal, é o escolhido para a mais arriscada das tarefas – ir verificar as descobertas feitas pelas missões anteriores.

Paro aqui para não tirar o prazer de acompanhar essa jornada que – mais uma vez ecoando 2001 – envolve os conceitos de portal, tempo e espaço, e o profundo impacto emocional, existencial e ético que isso implica.

Inters elenco

E é aí que Interstellar se torna ao mesmo tempo embriagador e frustrante. 2001 era assumidamente uma exploração intelectual, quase espiritual. Nolan é um realizador cerebral, que sempre está mais à vontade usando seus personagens e situações como peças que,  num tabuleiro, se movem exclusivamente para impulsionar a trama, propondo e resolvendo enigmas. Interstellar, contudo, se propõe a ser algo muito mais emocional, no qual as relações de família, de amor e de amizade são essenciais para a própria essência da trama.

E não sei se ele consegue. O longo primeiro ato, no qual os irmãos Nolan precisam estabelecer as relações humanas que devem colorir todo o resto, acaba se tornando quase uma hora de exposição pura e simples (algo que também acontece em Inception, mas que a gente acompanha pelo próprio desafio da trama).

Uma vez no espaço, Interstellar flerta algumas vezes com o imenso potencial apresentado pelos desafios do multiverso e do multitempo. Há momentos de grande força, como quando Cooper encara pela primeira vez, na prática, o que representa ter passado pelo buraco negro enquanto sua família continua no tempo terrestre. Nolan faz aqui uma de suas escolhas mais brilhantes, fechando a câmera em McConaughey e não no que ele está vendo – e nos colocando imediatamente no coração da humanidade do personagem e de nós mesmos, na plateia.

Mas são momentos raros, e Interstellar perde com isso.

Inter terra

O que vale: a sensacional combinação de fotografia e efeitos, gerando (pelo menos para mim) a primeira recriação plausível e envolvente do que significaria uma viagem intergalática; a direção de arte, tão minuciosa e inteligente quanto a de Kubrick, nos dando, entre outras coisas, uma versão inesperada de uma inteligência artificial; e o som, que, como Gravidade, explora bem o silêncio absoluto do espaço (já a trilha de Hans Zimmer me deixou em dúvida com seu órgão e seus riffs constantes em cima de “Assim Falou Zaratustra” e “Danúbio Azul”…)

O elenco faz o possível e o impossível para dar emoção às longas exposições do roteiro. Gostei principalmente das interações entre McConaughey e a jovem atriz Mackenzie Foy, que interpreta sua filha na juventude (Jessica Chastain, sempre ótima, é a versão adulta da mesma personagem).

Minhas dicas; saibam que o filme tem quase três horas de duração (nada de refri gigante….) ; escolham a sala com a melhor tela (IMAX se possível) e o melhor som; e não custa nada dar uma atualizada nos conhecimentos básicos de física antes de ir pro cinema…

Interstellar estreia mundialmente dia 6 de novembro.

 

 


É um pássaro? Um avião? Muito melhor: é Birdman!
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Ana Maria Bahiana

Michael Keaton em Birdman Melhor dizer logo: Birdman (dir.Alejandro Gonzalez Iñarritu, 2014) é espetacular. Mais que isso: é o tipo de filme que leva os cinéfilos à loucura _ e este é, eu diria, seu único problema. A toda hora o filme parece estar piscando o olho para a plateia, como quem diz: Não sou o máximo? Isto aqui não é super cool? Entendeu a ousadia do que está acontecendo?

Se você é capaz de esquecer a auto-satisfação que percorre Birdman de ponta a ponta, este é um filmão. E, sinceramente, resistir é inútil. Da primeira à última tomada –ambas espetaculares, e sobre as quais direi nada, para não estragar a alegria de ninguém – Birdman pede que cada um de nós se engaje  numa jornada de muitos níveis, todos absolutamente fascinantes.

A começar pela forma: Birdman dá a perfeita ilusão de que é composto de um único plano sequência. Não é: trata-se de uma espetacularmente bem urdida costura de tomadas rigorosamente planejadas e uso preciso da montagem digital, onde ponto tem nó mas é invisível. Há uma alegria especial em ver um filme assim: a história é impulsionada para frente desde o primeiro momento, sem parar, como se tudo fosse um contínuo inspirar e expirar, como se estivéssemos ali mesmo com os personagens, próximos, confidentes, íntimos, vendo o mundo –exterior e interior- como eles o vêem.

Anotem por favor: indicações para a fotografia do sempre ousado Emmanuel Lubezki (Gravidade, Filhos da Esperança, Sleepy Hollow) e para a montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione (Traffic, 21 Gramas, a franquia Onze/Doze/Treze Homens ) .

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Além de seu virtuosismo, precisão e beleza, a estética de Birdman é o veículo mais que perfeito para sua história: o punhado de dias durante os quais um ator ex-superstar (Michael Keaton) faz os ensaios finais e estreia sua primeira peça na Broadway, uma adaptação, feita por ele mesmo, de uma obra do escritor Raymond Carver. Aqui os cinéfilos podem começar a salivar profusamente: tudo é meta nessa trama, a começar pela escolha de Keaton como o ator em questão. Como seu personagem, Riggan, Keaton já foi um superastro da tela graças a um super-herói híbrido de gente e bicho: Batman para Keaton, Birdman para Riggan.

Ao contrário de Riggan, Keaton manteve o núcleo essencial de sua dignidade depois de abandonar a capa e a máscara. Mas como a peça de seu personagem, este filme pode ser o momento em que sua carreira dá uma nova guinada rumo ao alto.

Depois vem tudo o mais: o modo como Iñarritu enquadra Keaton e todo o elenco, traduzindo visualmente como eles se sentem; os grandes discursos que subitamente todos os personagens fazem justamente quando estão falando sobre a futilidade dos grandes discursos: as explosões de algo que pode ser alucinação ou não em momentos em que o mundo interior de Riggan/Keaton, pressionado pelas forças opostas da fama e da vida, vai desmoronando diante de nossos olhos. Muita gente tem reagido quase orgasmicamente a uma sensacional sequência que explica exatamente o que é a estética dominante de Hollywood, hoje. É fantástica, mas eu pessoalmente prefiro a longa corrida de Riggan pela rua, em plena Broadway, trajando apenas uma cueca. Tudo o que pode haver de simbólico e envolvente no cinema está ali.

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E não é apenas Keaton que responde à altura ao desafio da narrativa. Todo o elenco é uniformemente excelente: Naomi Watts como a estrela da peça da Broadway; Edward Norton como o substituto de última hora, um ator temperamental fanático pelo Método de Strasberg; Emma Stone como a filha de Keaton, transformada, a contragosto, em assistente; Zach Galifianakis como o estóico advogado/produtor da peça.

Anotem, por favor: indicação de melhor ator para Keaton, conjunto de elenco para todo mundo, melhor roteiro para Iñarritu e seus comparsas Nicolás Giacobonne e Armando Bo (Biutiful) e Alexander Dinelaris.

E não posso deixar de falar da trilha, produzida por Gustavo Santaolala, e composta e executada por Antonio Sanchez – uma série de solos de bateria, que muitas vezes se manifestam visualmente na tela. Anotem esse também.

Num momento em que a grande produção usa exatamente estes recursos tecnológicos e humanos para vomitar uma sucessão interminável de nulidades, um filme como este lembra para que existe cinema.

Para mim, juntamente com Boyhood, de Richard Linklater, é, até agora, o filme do ano. Exatamente por esse motivo.  

Birdman estreou neste fim de semana nos Estados Unidos, com arrecadação recorde em circuito limitado. A estréia no Brasil é dia 22 de janeiro. Não percam.


Prepare a agenda: aqui estão as datas-chave da temporada ouro
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Ana Maria Bahiana

 

86th Academy Awards, ArrivalsNuma terra que tem 292 dias de sol por ano, em média, apenas duas coisas anunciam de fato a chegada do outono: os ventos de Santa Ana, que sopram, super secos, do deserto, e os preparativos para a temporada de prêmios.

Antes que você consiga dizer “quero agradecer meu agente”, tapetes vermelhos serão desenrolados e vocie estará brigando com seus amigos sobre quem tem mais chance.

Este ano a temporada emocional de prêmios está demorando a deslanchar. Ainda não apareceu aquele grupo forte de líderes que mobilizam paixões e campanhas épicas. A grande discussão neste momento é se Inherent Vice deve ser tratado como comédia ( o consenso está dizendo “sim”, o que aumenta suas chances de Globo e diminui as de Oscar) e se alguém ainda vai se lembrar de Boyhood em dezembro.

Para que ninguém se perca no redemoinho que vem por aí, aqui vai o internacionalmente famoso calendário de Prêmios que Querem Dizer Alguma Coisa. Marquem suas agendas!

 

  • 31 de Outubro: Prazo final para submissão de títulos e nomes para as categorias de televisão e cinema dos Globos de Ouro.
  • 8 de Novembro: Os prêmios da diretoria da Academia são entregues: conjunto de obra, trabalho humanitário.
  • 19 de Novembro: Envio das cédulas para indicações aos prêmios da Screen Actors Guild, entidade de classe dos Atores. O prêmio é um termômetro sério dos Oscars nessa categoria.
  • 26 de novembro:  Envio das cédulas para indicação aos Globos de Ouro.
  • 3 de Dezembro: Prazo final para envio de fichas de inscrição para o Oscar.
  • 8 de Dezembro: Prazo final para entrega dos votos dos indicados ao Globo de Ouro.
  • 10 de Dezembro: Anúncio das indicados aos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 11 de Dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro.
  • 16 de Dezembro: Envio das cédulas para os prêmios finais da Screen Actors Guild.
  • 22 de Dezembro: Envio das cédulas para a escolha dos vencedores do Globo de Ouro.
  • 29 de Dezembro: Começa a votação dos indicados ao Oscar 2015. Nesta etapa, apenas Melhor Filme recebe indicações de todos os votantes. As demais categorias são escolhidas pelos departamentos da Academia ou comitês especialmente designados.
  • 5 de Janeiro: Anúncio dos indicados aos prêmios da Producers Guild – um termômetro certeiro para medir quem realmente está no páreo para melhor filme.
  • 7 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos para os vencedores do Globo de Ouro.
  • 8 de Janeiro: Termina o prazo para envio dos votos de indicados ao Oscar.
  • 11 de Janeiro: Entrega dos Globos de Ouro
  • 13 de Janeiro: Anúncio das indicações aos prêmios da Directors Guild, entidade de classe dos diretores. Olho vivo – mostram com clareza quem pode disputar tanto o Oscar de melhor diretor quanto o de melhor filme.
  • 15 de Janeiro: Anúncio dos indicados ao Oscar 2015.
  • 23 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos da Screen Actors Guild.
  • 24 de janeiro: Entrega dos prêmios da Producers Guild.
  • 25 de Janeiro: Entrega dos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 6 de Fevereiro: Começa a votação para os Oscars. Nesta etapa, todos os 6 mil acadêmicos votam em todas as categorias.
  • 7 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Directors Guild.
  • 8 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Academia Britânica de Cinema e Televisão. Não tem um peso grande no corpo votante dos Oscars – poucos integrantes também são acadêmicos – mas carimbam filmes e atores com um selinho de prestígio.
  • 17 de Fevereiro: Prazo final para entrega dos votos do Oscar.
  • 22 de Fevereiro: Entrega dos Oscars,

Respirem fundo. amigas e amigos. Começou.

 


Minha séries favoritas da nova temporada (nem todas estão na “TV)
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Ana Maria Bahiana

Nesta época do ano sou o alvo de duas avalanches. A primeira traz os dvds da quantidade cada vez maior de novas séries disputando espaço no início oficial do ciclo, o outono no hemisfério norte. A segunda vem mais tarde, em geral depois do dia de ação de graças (final de novembro): todos os filmes esperançosos por uma indicação ao Globo de Ouro.

A avalanche de TV, este ano, foi triste. Nem vou entrar em detalhes, a não ser para dizer que Gotham poderia tern sido tão divertida se tivessem contratado roteiristas que sabem escrever…

Mas vamos focar no positivo: do balaio 2014 estas são as minhas séries favoritas.

Transparent

Transparent (Amazon; todos os episódios disponíveis) já está sendo chamada de “a melhor nova série do ano”, o que é um pouco demais pra burro num ano que teve True Detective e Fargo. Mas não deixa de estar, com certeza, entre as melhores coisas desta safra. Crédito à criadora e showrunner Jill Soloway, que vem de duas boas escolas – o cinema independente (recomendo oseu Afternoon Delight que, apesar de instável – cheio de altos e baixos – revela seu talento para compreender e compor personagens) e a TV de primeiro escalão (Six Feet Under, United States of Tara). E crédito a Jeffrey Tambor, protagonista e principal força de impulso da série, no papel de um professor universitário, pai de três filhos, que decide, do alto de seus 70, mudar de sexo. O assunto não é original – o ótimo Transamerica, de 2005, e o telefilme Normal, de 2003, exploraram a questão com inteligencia, sensibilidade e grandes desempenhos de Felicity Huffman e Tom Wilkinson, respectivamente. Transparent alinha-se com esses bons títulos acrescentando uma paisagem humana e social precisa – a alta classe média de Los Angeles- e explorando o impacto das escolhas do pai sobre a vida dos filhos adultos, mas não necessariamente maduros. Um prazer, repleto de humanidade e humor.

Olive

Olive Kitteridge (HBO; estreia nos EUA 2 de novembro) Mildred Pierce, três anos atrás, abriu um nicho super interessante na programação da HBO: a minissérie sobre e para mulheres. É uma recuperação genial do “filme de mulheres” dos anos 1930 e 40, agora com a liberdade de ir mais fundo, de não fugir de temas espinhosos, controversos. Baseada no livro homônimo de Elizabeth Stro ut– na verdade uma coleção de contos sobre as vidas de vários habitantes numa cidadezinho do Maine – Olive Kitteridge foi adaptada com total precisão pela roteirista Jane Anderson e a diretora Lisa Cholodenko. A pragmática, contida, burtalmente honesta Olive (Frances McDormand, espetacular) é agora o centro de tudo. A cidade muda, pulsa e se transforma ao longo de 25 anos na vida dessa mulher, cuja fachada de força impenetrável oculta um mundo de dor e paixão. Só acompanhar o desempenho de McDormand já vale – mas ainda tem Richard Jenkins e, numa ponta essencial, Bill Murray (mais um sensacional elenco de apoio).

Bojack

BoJack Horseman (Netflix; todos os episódios disponíveis). Quando recebi os DVDs minha primeira reação foi: Ai! Quem precisa de mais uma animação tosco-irônica?! Confesso que o que despertou minha curiosidade foi a participação de Aaron Paul como a voz do principal coadjuvante, num elenco que já tinha Will Arnett, Amy Sedaris, Stanley Tucci, Patton Oswalt, J, K. Simmons , Anjelica Huston , Melissa Leo, e, como elas mesmas, Naomi Watts e Margot Martindale. Ainda bem. Imaginem os Simpsons na Hollywood de um universo paralelo onde os humanos convivem com híbridos entre gente e bicho, gerando seres como um diretor chamado Quentin Tarantulino (uma tarantula) , o nosso herói equino que foi famoso na TV dos anos 1990, e uma editora chamada Penguin onde só trabalham… pinguins. E isso é só o começo: a fina faca do comentário sobre as idiotices de nossa descerebrada cultura da celebridade corta de verdade, com o melhor gume possível – o riso.

 

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Menções honrosas vão para duas co-produções britânicas: Happy Valley (Netflix, todos os capítulos disponíveis) e The Missing (Starz, estréia nos EUA 15 de novembro). Em ambas, um desempenho espetacular ancora tudo e faz a gente esquecer as (pequenas ) falhas de cada um. Em Happy Valley Sarah Lancashire é uma sargento da polícia de uma pequena cidade do norte da Inglaterra, escondendo sob sua fachada estóica um mundo interior fracionado e muito próximo da violência que ela policia. Em The Missing Tony Hughes é um pai absolutamente possuído pela obsessão de encontrar seu filho, desaparecido há mais de oito anos. Os ritmos das duas séries são às vezes oscilantes, mas o poder de seus personagens nos mantém ligados na tela sem cessar, Cuidado com as maratoas – vão roubar horas preciosas de sono…


O que tem nessa cabeça? “Garota Exemplar” e o poder da história
Comentários 1

Ana Maria Bahiana

gone 1 Garota Exemplar (Gone Girl, dir. David Fincher, 2014) começa com o close da cabeça da personagem Amy Elliott Dunne, a “garota exemplar” do título brasileiro, a “garota desaparecida” do título original. O livro de Gillian Flynn – que adaptou sua própria obra para a tela – também começa assim, estabelecendo uma das muitas qualidades da personagem – a fineza de seus traços, que incluem “o que os vitorianos chamavam de uma cabeça bem desenhada”. É também o modo como autora e diretor nos dizem que tudo o que vamos acompanhar daqui para a frente se passa, acima de tudo, na cabeça , ou a partir da cabeça, dos personagens. Não apenas Amy, a que desaparece, e Nick, o marido que se vê acusado de seu desaparecimento, mas os vizinhos, os policiais, os familiares, os habitantes da pequena cidade do Missouri com a história se passa, os espectadores dos programas de debates da TV dedicados a casos escandalosos que fazem a cobertura do desaparecimento. E, obviamente, todos nós, na platéia do cinema. Um dos primeiros grandes sucessos de Garota Modelo é ter colocado a gestão de sua versão visual nas mãos de quem concebeu o projeto original. Porque o projeto original era inteiramente sobre conceitos, sobre imagens, sobre as narrativas fictícias que nós fazemos em nossas cabeças o tempo todo e que, se deixadas à solta, crescem como ervas daninhas e se transformam em “fatos”. Quem leu o livro sabe do que estou falando . Para quem não leu, tentarei dizer o mínmo possível além de: vejam esse filme, vejam correndo. Sim, apesar do Ben Affleck. Mais sobre isso em breve. A premissa é essa que alinhavei aí em cima: numa pequena cidade do interior uma moça – bonita, carismática, filha de pais famosos e ricos – desaparece súbita e misteriosamente. O marido, filho da terra que voltou para a cidadezinha movido a crises pessoais e financeiras, se vê pouco a pouco transformado em principal suspeito. Mas o que realmente está acontecendo? Há ecos imediatos de casos como os de Scott Peterson, que chocou a Califórnia e todo o país em 2004 – e que Ben Affleck entrevistou como parte de sua pesquisa para o papel de Nick Dunne. Mas na verdade a teia de crime e castigo é apenas a fachada : Garota Exemplar é sobre as histórias que inventamos, as histórias que contamos a nós mesmos, os personagens que inventamos, os personagens que vivemos. gone 2 Amy, escritora bissexta, é filha de aclamados autores de livros infantis que a transformaram na personagem de uma série de best sellers. Nick é um jornalista reinventando-se na cidade grande – Nova York – e depois convencendo-se ser um outro personagem, o acadêmico e escritor recluso no campo. São histórias dentro de histórias, máscaras sobre máscaras empilhando-se e se re-arranjando ao sabor de um roteiro exato e da diabólica precisão de David Fincher, sua câmera sempre pousada onde mais oculta fingindo estar mostrando. É um filme longo – duas horas e 25 minutos – que passa quase como um transe, graças à maestria de Fincher e o apoio respeitável da trilha de Trent Reznor. Eu teria preferido que outro ator estivesse no papel de Nick. Mais que isso, o tempo todo eu imaginava outros atores, mais dinâmicos, mais plásticos, compartihando conosco os turbilhões internos do personagem. Pensei que talvez Fincher tivesse sido atraído exatamente pela impassibiidade de Affleck , expressando sempre uma máscara, nunca uma pessoa. Mesmo assim… Principalmente porque Rosamund Pike, no papel de Amy, lida com as mesmas questões de modo absolutamente espetacular. O filme é dela, do começo ao fim, e sem ela não seria o espetáculo que é. Espero que seja lembrada em todos os prêmios.  Garota Exemplar estréia aqui dia 26 de setembro, no festival de Nova York, e em circuito comercial dia 3 de outubro; no Brasil, sua estréia é no Festival do Rio, dia 2 de outubro.