Blog da Ana Maria Bahiana

É um pássaro? Um avião? Muito melhor: é Birdman!
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Ana Maria Bahiana

Michael Keaton em Birdman Melhor dizer logo: Birdman (dir.Alejandro Gonzalez Iñarritu, 2014) é espetacular. Mais que isso: é o tipo de filme que leva os cinéfilos à loucura _ e este é, eu diria, seu único problema. A toda hora o filme parece estar piscando o olho para a plateia, como quem diz: Não sou o máximo? Isto aqui não é super cool? Entendeu a ousadia do que está acontecendo?

Se você é capaz de esquecer a auto-satisfação que percorre Birdman de ponta a ponta, este é um filmão. E, sinceramente, resistir é inútil. Da primeira à última tomada –ambas espetaculares, e sobre as quais direi nada, para não estragar a alegria de ninguém – Birdman pede que cada um de nós se engaje  numa jornada de muitos níveis, todos absolutamente fascinantes.

A começar pela forma: Birdman dá a perfeita ilusão de que é composto de um único plano sequência. Não é: trata-se de uma espetacularmente bem urdida costura de tomadas rigorosamente planejadas e uso preciso da montagem digital, onde ponto tem nó mas é invisível. Há uma alegria especial em ver um filme assim: a história é impulsionada para frente desde o primeiro momento, sem parar, como se tudo fosse um contínuo inspirar e expirar, como se estivéssemos ali mesmo com os personagens, próximos, confidentes, íntimos, vendo o mundo –exterior e interior- como eles o vêem.

Anotem por favor: indicações para a fotografia do sempre ousado Emmanuel Lubezki (Gravidade, Filhos da Esperança, Sleepy Hollow) e para a montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione (Traffic, 21 Gramas, a franquia Onze/Doze/Treze Homens ) .

birdman 2 elenco

Além de seu virtuosismo, precisão e beleza, a estética de Birdman é o veículo mais que perfeito para sua história: o punhado de dias durante os quais um ator ex-superstar (Michael Keaton) faz os ensaios finais e estreia sua primeira peça na Broadway, uma adaptação, feita por ele mesmo, de uma obra do escritor Raymond Carver. Aqui os cinéfilos podem começar a salivar profusamente: tudo é meta nessa trama, a começar pela escolha de Keaton como o ator em questão. Como seu personagem, Riggan, Keaton já foi um superastro da tela graças a um super-herói híbrido de gente e bicho: Batman para Keaton, Birdman para Riggan.

Ao contrário de Riggan, Keaton manteve o núcleo essencial de sua dignidade depois de abandonar a capa e a máscara. Mas como a peça de seu personagem, este filme pode ser o momento em que sua carreira dá uma nova guinada rumo ao alto.

Depois vem tudo o mais: o modo como Iñarritu enquadra Keaton e todo o elenco, traduzindo visualmente como eles se sentem; os grandes discursos que subitamente todos os personagens fazem justamente quando estão falando sobre a futilidade dos grandes discursos: as explosões de algo que pode ser alucinação ou não em momentos em que o mundo interior de Riggan/Keaton, pressionado pelas forças opostas da fama e da vida, vai desmoronando diante de nossos olhos. Muita gente tem reagido quase orgasmicamente a uma sensacional sequência que explica exatamente o que é a estética dominante de Hollywood, hoje. É fantástica, mas eu pessoalmente prefiro a longa corrida de Riggan pela rua, em plena Broadway, trajando apenas uma cueca. Tudo o que pode haver de simbólico e envolvente no cinema está ali.

birdman norton

E não é apenas Keaton que responde à altura ao desafio da narrativa. Todo o elenco é uniformemente excelente: Naomi Watts como a estrela da peça da Broadway; Edward Norton como o substituto de última hora, um ator temperamental fanático pelo Método de Strasberg; Emma Stone como a filha de Keaton, transformada, a contragosto, em assistente; Zach Galifianakis como o estóico advogado/produtor da peça.

Anotem, por favor: indicação de melhor ator para Keaton, conjunto de elenco para todo mundo, melhor roteiro para Iñarritu e seus comparsas Nicolás Giacobonne e Armando Bo (Biutiful) e Alexander Dinelaris.

E não posso deixar de falar da trilha, produzida por Gustavo Santaolala, e composta e executada por Antonio Sanchez – uma série de solos de bateria, que muitas vezes se manifestam visualmente na tela. Anotem esse também.

Num momento em que a grande produção usa exatamente estes recursos tecnológicos e humanos para vomitar uma sucessão interminável de nulidades, um filme como este lembra para que existe cinema.

Para mim, juntamente com Boyhood, de Richard Linklater, é, até agora, o filme do ano. Exatamente por esse motivo.  

Birdman estreou neste fim de semana nos Estados Unidos, com arrecadação recorde em circuito limitado. A estréia no Brasil é dia 22 de janeiro. Não percam.


Prepare a agenda: aqui estão as datas-chave da temporada ouro
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Ana Maria Bahiana

 

86th Academy Awards, ArrivalsNuma terra que tem 292 dias de sol por ano, em média, apenas duas coisas anunciam de fato a chegada do outono: os ventos de Santa Ana, que sopram, super secos, do deserto, e os preparativos para a temporada de prêmios.

Antes que você consiga dizer “quero agradecer meu agente”, tapetes vermelhos serão desenrolados e vocie estará brigando com seus amigos sobre quem tem mais chance.

Este ano a temporada emocional de prêmios está demorando a deslanchar. Ainda não apareceu aquele grupo forte de líderes que mobilizam paixões e campanhas épicas. A grande discussão neste momento é se Inherent Vice deve ser tratado como comédia ( o consenso está dizendo “sim”, o que aumenta suas chances de Globo e diminui as de Oscar) e se alguém ainda vai se lembrar de Boyhood em dezembro.

Para que ninguém se perca no redemoinho que vem por aí, aqui vai o internacionalmente famoso calendário de Prêmios que Querem Dizer Alguma Coisa. Marquem suas agendas!

 

  • 31 de Outubro: Prazo final para submissão de títulos e nomes para as categorias de televisão e cinema dos Globos de Ouro.
  • 8 de Novembro: Os prêmios da diretoria da Academia são entregues: conjunto de obra, trabalho humanitário.
  • 19 de Novembro: Envio das cédulas para indicações aos prêmios da Screen Actors Guild, entidade de classe dos Atores. O prêmio é um termômetro sério dos Oscars nessa categoria.
  • 26 de novembro:  Envio das cédulas para indicação aos Globos de Ouro.
  • 3 de Dezembro: Prazo final para envio de fichas de inscrição para o Oscar.
  • 8 de Dezembro: Prazo final para entrega dos votos dos indicados ao Globo de Ouro.
  • 10 de Dezembro: Anúncio das indicados aos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 11 de Dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro.
  • 16 de Dezembro: Envio das cédulas para os prêmios finais da Screen Actors Guild.
  • 22 de Dezembro: Envio das cédulas para a escolha dos vencedores do Globo de Ouro.
  • 29 de Dezembro: Começa a votação dos indicados ao Oscar 2015. Nesta etapa, apenas Melhor Filme recebe indicações de todos os votantes. As demais categorias são escolhidas pelos departamentos da Academia ou comitês especialmente designados.
  • 5 de Janeiro: Anúncio dos indicados aos prêmios da Producers Guild – um termômetro certeiro para medir quem realmente está no páreo para melhor filme.
  • 7 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos para os vencedores do Globo de Ouro.
  • 8 de Janeiro: Termina o prazo para envio dos votos de indicados ao Oscar.
  • 11 de Janeiro: Entrega dos Globos de Ouro
  • 13 de Janeiro: Anúncio das indicações aos prêmios da Directors Guild, entidade de classe dos diretores. Olho vivo – mostram com clareza quem pode disputar tanto o Oscar de melhor diretor quanto o de melhor filme.
  • 15 de Janeiro: Anúncio dos indicados ao Oscar 2015.
  • 23 de Janeiro: Prazo final para entrega dos votos da Screen Actors Guild.
  • 24 de janeiro: Entrega dos prêmios da Producers Guild.
  • 25 de Janeiro: Entrega dos prêmios da Screen Actors Guild.
  • 6 de Fevereiro: Começa a votação para os Oscars. Nesta etapa, todos os 6 mil acadêmicos votam em todas as categorias.
  • 7 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Directors Guild.
  • 8 de Fevereiro: Entrega dos prêmios da Academia Britânica de Cinema e Televisão. Não tem um peso grande no corpo votante dos Oscars – poucos integrantes também são acadêmicos – mas carimbam filmes e atores com um selinho de prestígio.
  • 17 de Fevereiro: Prazo final para entrega dos votos do Oscar.
  • 22 de Fevereiro: Entrega dos Oscars,

Respirem fundo. amigas e amigos. Começou.

 


Minha séries favoritas da nova temporada (nem todas estão na “TV)
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Ana Maria Bahiana

Nesta época do ano sou o alvo de duas avalanches. A primeira traz os dvds da quantidade cada vez maior de novas séries disputando espaço no início oficial do ciclo, o outono no hemisfério norte. A segunda vem mais tarde, em geral depois do dia de ação de graças (final de novembro): todos os filmes esperançosos por uma indicação ao Globo de Ouro.

A avalanche de TV, este ano, foi triste. Nem vou entrar em detalhes, a não ser para dizer que Gotham poderia tern sido tão divertida se tivessem contratado roteiristas que sabem escrever…

Mas vamos focar no positivo: do balaio 2014 estas são as minhas séries favoritas.

Transparent

Transparent (Amazon; todos os episódios disponíveis) já está sendo chamada de “a melhor nova série do ano”, o que é um pouco demais pra burro num ano que teve True Detective e Fargo. Mas não deixa de estar, com certeza, entre as melhores coisas desta safra. Crédito à criadora e showrunner Jill Soloway, que vem de duas boas escolas – o cinema independente (recomendo oseu Afternoon Delight que, apesar de instável – cheio de altos e baixos – revela seu talento para compreender e compor personagens) e a TV de primeiro escalão (Six Feet Under, United States of Tara). E crédito a Jeffrey Tambor, protagonista e principal força de impulso da série, no papel de um professor universitário, pai de três filhos, que decide, do alto de seus 70, mudar de sexo. O assunto não é original – o ótimo Transamerica, de 2005, e o telefilme Normal, de 2003, exploraram a questão com inteligencia, sensibilidade e grandes desempenhos de Felicity Huffman e Tom Wilkinson, respectivamente. Transparent alinha-se com esses bons títulos acrescentando uma paisagem humana e social precisa – a alta classe média de Los Angeles- e explorando o impacto das escolhas do pai sobre a vida dos filhos adultos, mas não necessariamente maduros. Um prazer, repleto de humanidade e humor.

Olive

Olive Kitteridge (HBO; estreia nos EUA 2 de novembro) Mildred Pierce, três anos atrás, abriu um nicho super interessante na programação da HBO: a minissérie sobre e para mulheres. É uma recuperação genial do “filme de mulheres” dos anos 1930 e 40, agora com a liberdade de ir mais fundo, de não fugir de temas espinhosos, controversos. Baseada no livro homônimo de Elizabeth Stro ut– na verdade uma coleção de contos sobre as vidas de vários habitantes numa cidadezinho do Maine – Olive Kitteridge foi adaptada com total precisão pela roteirista Jane Anderson e a diretora Lisa Cholodenko. A pragmática, contida, burtalmente honesta Olive (Frances McDormand, espetacular) é agora o centro de tudo. A cidade muda, pulsa e se transforma ao longo de 25 anos na vida dessa mulher, cuja fachada de força impenetrável oculta um mundo de dor e paixão. Só acompanhar o desempenho de McDormand já vale – mas ainda tem Richard Jenkins e, numa ponta essencial, Bill Murray (mais um sensacional elenco de apoio).

Bojack

BoJack Horseman (Netflix; todos os episódios disponíveis). Quando recebi os DVDs minha primeira reação foi: Ai! Quem precisa de mais uma animação tosco-irônica?! Confesso que o que despertou minha curiosidade foi a participação de Aaron Paul como a voz do principal coadjuvante, num elenco que já tinha Will Arnett, Amy Sedaris, Stanley Tucci, Patton Oswalt, J, K. Simmons , Anjelica Huston , Melissa Leo, e, como elas mesmas, Naomi Watts e Margot Martindale. Ainda bem. Imaginem os Simpsons na Hollywood de um universo paralelo onde os humanos convivem com híbridos entre gente e bicho, gerando seres como um diretor chamado Quentin Tarantulino (uma tarantula) , o nosso herói equino que foi famoso na TV dos anos 1990, e uma editora chamada Penguin onde só trabalham… pinguins. E isso é só o começo: a fina faca do comentário sobre as idiotices de nossa descerebrada cultura da celebridade corta de verdade, com o melhor gume possível – o riso.

 

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Menções honrosas vão para duas co-produções britânicas: Happy Valley (Netflix, todos os capítulos disponíveis) e The Missing (Starz, estréia nos EUA 15 de novembro). Em ambas, um desempenho espetacular ancora tudo e faz a gente esquecer as (pequenas ) falhas de cada um. Em Happy Valley Sarah Lancashire é uma sargento da polícia de uma pequena cidade do norte da Inglaterra, escondendo sob sua fachada estóica um mundo interior fracionado e muito próximo da violência que ela policia. Em The Missing Tony Hughes é um pai absolutamente possuído pela obsessão de encontrar seu filho, desaparecido há mais de oito anos. Os ritmos das duas séries são às vezes oscilantes, mas o poder de seus personagens nos mantém ligados na tela sem cessar, Cuidado com as maratoas – vão roubar horas preciosas de sono…


O que tem nessa cabeça? “Garota Exemplar” e o poder da história
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Ana Maria Bahiana

gone 1 Garota Exemplar (Gone Girl, dir. David Fincher, 2014) começa com o close da cabeça da personagem Amy Elliott Dunne, a “garota exemplar” do título brasileiro, a “garota desaparecida” do título original. O livro de Gillian Flynn – que adaptou sua própria obra para a tela – também começa assim, estabelecendo uma das muitas qualidades da personagem – a fineza de seus traços, que incluem “o que os vitorianos chamavam de uma cabeça bem desenhada”. É também o modo como autora e diretor nos dizem que tudo o que vamos acompanhar daqui para a frente se passa, acima de tudo, na cabeça , ou a partir da cabeça, dos personagens. Não apenas Amy, a que desaparece, e Nick, o marido que se vê acusado de seu desaparecimento, mas os vizinhos, os policiais, os familiares, os habitantes da pequena cidade do Missouri com a história se passa, os espectadores dos programas de debates da TV dedicados a casos escandalosos que fazem a cobertura do desaparecimento. E, obviamente, todos nós, na platéia do cinema. Um dos primeiros grandes sucessos de Garota Modelo é ter colocado a gestão de sua versão visual nas mãos de quem concebeu o projeto original. Porque o projeto original era inteiramente sobre conceitos, sobre imagens, sobre as narrativas fictícias que nós fazemos em nossas cabeças o tempo todo e que, se deixadas à solta, crescem como ervas daninhas e se transformam em “fatos”. Quem leu o livro sabe do que estou falando . Para quem não leu, tentarei dizer o mínmo possível além de: vejam esse filme, vejam correndo. Sim, apesar do Ben Affleck. Mais sobre isso em breve. A premissa é essa que alinhavei aí em cima: numa pequena cidade do interior uma moça – bonita, carismática, filha de pais famosos e ricos – desaparece súbita e misteriosamente. O marido, filho da terra que voltou para a cidadezinha movido a crises pessoais e financeiras, se vê pouco a pouco transformado em principal suspeito. Mas o que realmente está acontecendo? Há ecos imediatos de casos como os de Scott Peterson, que chocou a Califórnia e todo o país em 2004 – e que Ben Affleck entrevistou como parte de sua pesquisa para o papel de Nick Dunne. Mas na verdade a teia de crime e castigo é apenas a fachada : Garota Exemplar é sobre as histórias que inventamos, as histórias que contamos a nós mesmos, os personagens que inventamos, os personagens que vivemos. gone 2 Amy, escritora bissexta, é filha de aclamados autores de livros infantis que a transformaram na personagem de uma série de best sellers. Nick é um jornalista reinventando-se na cidade grande – Nova York – e depois convencendo-se ser um outro personagem, o acadêmico e escritor recluso no campo. São histórias dentro de histórias, máscaras sobre máscaras empilhando-se e se re-arranjando ao sabor de um roteiro exato e da diabólica precisão de David Fincher, sua câmera sempre pousada onde mais oculta fingindo estar mostrando. É um filme longo – duas horas e 25 minutos – que passa quase como um transe, graças à maestria de Fincher e o apoio respeitável da trilha de Trent Reznor. Eu teria preferido que outro ator estivesse no papel de Nick. Mais que isso, o tempo todo eu imaginava outros atores, mais dinâmicos, mais plásticos, compartihando conosco os turbilhões internos do personagem. Pensei que talvez Fincher tivesse sido atraído exatamente pela impassibiidade de Affleck , expressando sempre uma máscara, nunca uma pessoa. Mesmo assim… Principalmente porque Rosamund Pike, no papel de Amy, lida com as mesmas questões de modo absolutamente espetacular. O filme é dela, do começo ao fim, e sem ela não seria o espetáculo que é. Espero que seja lembrada em todos os prêmios.  Garota Exemplar estréia aqui dia 26 de setembro, no festival de Nova York, e em circuito comercial dia 3 de outubro; no Brasil, sua estréia é no Festival do Rio, dia 2 de outubro.


Temporada-ouro: onde estão as mulheres?
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Ana Maria Bahiana

Julianne Moore em Mapas Para As Estrelas...

Julianne Moore em Mapas Para As Estrelas…

... e em Still Alice. Um dos duelos de um ano complicado para as atrizes.

… e em Still Alice. Um dos duelos de um ano complicado para as atrizes.

A esta altura, ano passado, já tínhamos visto, todo mundo já estava certo de que Cate Blanchett seria se não a vencedora de todos os prêmios, pelo menos a favorita, aquela que as demais tinham que ultrapassar. 2013 foi um ano bom para atrizes, assim como 2012 e 2011, repleto de papéis fortes, tanto para protagonistas quanto para coadjuvantes. O difícil era escolher: Jacki Weaver ou Hallee Steinfeld? Viola Davis ou Rooney Mara? Jessica Chastain ou Emmanuelle Riva? Sandra Bullock ou Judi Dench? Isso sem nem falar nas que ganharam. Este ano, até agora, o zum zum é dominado pelos atores, desde Sundance, passando por Cannes , Telluride e Toronto. Toronto, aliás, não tem mais a força de antes – novidades poucas, e um trio de pesos-pesados – Interstellar, Garota Exemplar (Gone Girl) e Inherent Vice – decidiram esperar para entrar na disputa no Festival de Nova York, que começa neste final de semana. Mesmo com esse desconto, os principais desempenhos que emergiram de Toronto foram os masculinos: além do duelo Benedict Cumberbatch X Eddie Redmayne em cinebios de grandes cientistas britânicos, Alan Turing (The Imitation Game) e Stephen Hawking (The Theory of Everything), Paul Dano como Brian Wilson em metade de Love & Mercy, Chris Rock em Top Five, Jake Gyllenhaal em Nightcrawler (o fato d le ter perdido uns vinte quilos para fazer o papel sempre ajuda…) e Adam Driver em Hungry Hearts (premiado em Veneza). Sou completamente contra especular sem ter visto, mas a seca é tamanha que comecei a fazer um inventário de papéis com força suficiente para disparar indicações. Eu não teria o menor problema em indicar algumas boas performamces que vi no primeiro semestre: Patricia Arquette em Boyhood, Marion Cotillard em A Imigrante, Agata Trzebuchoska em Ida, Scarlett Johansson em Sob a Pele. Mas sei muito bem que não esses filmes não tem o jeitão que agrada meus colegas votantes – algo mais acessível, um tanto mais abertamente trágico, de preferência com ecos históricos, temas “de época”. Por isso não descartaria Shailene Woodley em A Culpa É Das Estrelas. Em um ano mais disputado, essa opção poderia desaparecer no turbilhão da temporada-ouro. Mas este ano…

Reese Whiterspoon em Wild...

Reese Whiterspoon em Wild…

... e Mia Wasikovska em TRacks : duas atrizes, dois filmes, basicamente a mesma história.

… e Mia Wasikowska em Tracks : duas atrizes, dois filmes, basicamente a mesma história.

Duelos previsíveis, parte 1: Reese Whisterpoon e Mia Wasikowska pelo que , sinceramente, é o mesmo papel em dois filmes diferentes – Wild e Tracks. Os dois são sobre mulheres que entram em crise e decidem fazer uma longa jornada a pé, uma espécie de peregrinação para reencontrar o sentido da vida. A Cheryl de Reese em Wild é simpática e abordável. A Lily de Mia em Tracks é arredia e antissocial. Acho que já sei quem vai ganhar essa disputa… Parte 2: Julianne Moore contra si mesma em dois papéis completamente diferentes, a atriz ambiciosa e conflituada de Mapas Para as Estrelas e a acadêmica brilhante diagnosticada com uma moléstia grave e incurável em Still Alice. Eu disse “moléstia incurável”? Então já sei qual Julianne ganha essa disputa… Outras possibilidades : Juliette Binoche e Kristen Stewart (quem diria…) em Clouds of Sils Maria; Rosamund Pike em Garota Exemplar, Alba Rorschwacher em Hungry Hearts (premiada em Veneza); Hilary Swank em The Homesman e, quem sabe, Amy Adams em Big Eyes (ainda temos fé em Tim Burton?). Mas 2014, para as atrizes, ainda é uma incógnita.


Os primeiros candidatos da Corrida do Ouro 2014-2015
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Ana Maria Bahiana

É aquela época do ano: acabou a pipocada, as crianças voltaram à escola e todo mundo acha que sabe quem vai ganhar o Oscar (e outros prêmios).

A verdade, amigas e amigos,  é que, como já dizia o mestre roteirista William Goldman, neste ofício de doidos ninguém sabe nada. E a segunda e terceira partes desta verdade é que 1. A maioria dos filmes nas listas pipocando por aí ainda não estrearam/ foram exibidos para votantes 2. A imensa maioria de quem faz essas listas não vota para os prêmios sobre os quais escreve.

Então vamos com calma.

Aqui vai uma avaliação mais breve e possivelmente mais sensata incluindo filmes que já estrearam e/ou foram exibidos para votantes e – mais importante – já passaram por algum dos festivais que alavancam carreiras-ouro: Sundance, Cannes, Veneza,Telluride (em ordem cronológica).

 

BoyhoodBoyhood

O que é: 12 anos na vida de um menino, da infância até entrar para a faculdade.

Currículo: Sucesso em Sundance, Urso de Prata de melhor diretor em Berlim, seguido por circuito comercial no primeiro semestre e aclamação unânime da crítica.

Chances: Muitas: melhor filme, diretor e roteiro (Richard Linkater), atores (Patricia Arquette, Ethan Hawke e até o estreante Ellar Coltrane), melhor montagem.

O que pode atrapalhar: Sua delicadeza, seu orçamento de marketing modesto e o fato de ter estreado no primeiro semestre. Vai ser preciso uma campanha corpo a corpo para manter aceso o interesse em meio a filmes mais badalados.

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Grande Hotel Budapest

O que é: Tributo ao universo do autor Stefan Zweig pela visão de Wes Anderson – as memórias (verdadeiras ou não) de um famoso escritor recontam a vida num hotel de luxo do leste europeu, entre as guerras mundiais do século 20.

Currículo: Prêmio do Júri em Berlim,  circuito comercial no primeiro semestre, boas críticas.

Chances: Foi o primeiro grande destaque do ano no circuito comercial, o primeiro filme a despertar algum zum-zum. Fortes chances para Ralph Fiennes (num papel completamente diferente do seu habitual), roteiro, direção (Wes Anderson), direção de arte e figurinos.

O que pode atrapalhar: Wes Anderson. Nem todo mundo leva sua estética a sério.

Mr. Turner

Mr. Turner

O que é: A vida e a visão do pintor J.M.W Turner, um dos grandes das artes visuais britânicas.

Currículo: Melhor ator em Cannes para Timothy Spall, uma quase-palma para o diretor e roteirista Mike Leigh.

Chances: Timothy Spall, com, certeza. Mike Leigh também tem boas chances, assim como o filme.

O que pode atrapalhar: Lindo mas severo, Mr.Turner não joga para a arquibancada meeesmo…

foxcatcher

Foxcatcher

O que é: A complicada relação do excêntrico trilionário John Du Pont com os atletas do time de luta romana que ele patrocina.

Currículo: Melhor diretor em Cannes para Bennett Miller (Moneyball), passagem aclamada por Telluride, esta semana em Toronto. Estréia comercial nos EUA dia 14 de novembro.

Chances: Nicole Kidman sabe muito bem o que um nariz pode fazer na briga por uma estatueta (Oscar de melhor atriz por As Horas, 2002). Steve Carell (como Du Pont, irreconhecível) conseguirá o mesmo? Filme, diretor e roteiro também estão no páreo.

O que pode atrapalhar: Somente a competição.

Birdman

Birdman

O que é: Ator que teve dias de glória no papel de um super-herói tenta dar um reboot em sua carreira com uma peça na Broadway.

Currículo: Aclamação total em Veneza e Telluride. A palavra “obra prima” não era tão usada desde Boyhood alguns meses atrás. Estréia comecial nos EUA dia 17 de outubro.

Chances: Alejandro González Iñarritu na direção, Michael Keaton no papel principal (como os votantes amam uma volta por cima, ainda mais com elementos meta…!), Edward Norton e Emma Stone como coadjuvantes, fotografia, montagem, melhor filme.

O que pode atrapalhar: É preciso segurar o entusiasmo de agora até a virada do ano…

wild

Wild

O que é: Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas) adapta o best seller de Cheryl Strayed sobre uma longa caminhada solitária como forma de reencontrar o sentido da vida.

Currículo : Estréia bem recebida em Telluride. Entra em circuito comercial, nos EUA, dia 5 de dezembro.

Chances: É meio Comer, Rezar, Amar com mochila, o que sempre cai no gosto de muitos votantes. A reação de Telluride foi mais positiva quanto à estrela Reese Whiterspoon do que quanto ao filme de modo geral – ela é a grande chance do filme.

O que pode atrapalhar: A competição. Mas Reese está saindo com vantagem.

 imitation

The Imitation Game

O que é: Como o matemático inglês Alan Turing decifrou o “código impossível” dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Currículo : Estréia bem recebida em Telluride, vai para Toronto. Entra em circuito comercial, nos EUA, dia 21 de novembro..

Chances: Benedict Cumberbatch como Turing tem sido a unanimidade até agora. As chances são muito boas.

O que pode atrapalhar: O filme em si, que não é tudo o que poderia ser.

 

rosewater

Rosewater

O que é: A história (verdadeira) do jornalista iraniano Maziar Bahari, preso e torturado por cobrir manifestações em Teerã em 2009.

Currículo : Estréia bem recebida em Telluride; esta semana em Toronto. Entra em circuito comercial, nos EUA, dia 7 de novembro.

Chances: Votantes adoram celebridades que dirigem – e Jon Stewart está estreando atrás das câmeras com este filme (alô, Argo! ). A reação do seleto público em Telluride foi entusiasmada, embora as resenhas tenham sido assim-assim. O destaque mais provável é para Gael Garcia Bernal como Maziar. Olho nele.

O que pode atrapalhar: Os altos e baixos do próprio filme, a resistência ao tema.

 

É claro que teremos mais competidores nesta gincana– muita coisa ainda vai pipocar por aí. Mas estes são os que tem tração agora, na largada…. Olho vivo, pessoal… Vou mantendo vocês atualizados…


Anunciado calendário dos Globos de Ouro 2015
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Ana Maria Bahiana

Golden Globe statues     Foi dada a partida. Anotem aí:

  • 31 de outubro: prazo para submissão de filmes e séries/filmes de TV. Brasil, isso é com você também. Tudo o que é preciso é preencher um formulário e disponibilizar seu filme. Não precisa de indicação oficial nem de exibição comercial nos Estados Unidos. Mas atenção aos prazos! Mais informações aqui.
  • 3 de dezembro: Data final para exibição de filmes concorrendo aos Globos. Brasil, isso é com você também. Basta organizar uma cabine e/ou enviar screeners.
  • 6 de dezembro: Prazo final para atividades promocionais. Brasil, isso é com você também. Se você quiser marcar um bate papo entre diretor e elenco do seu filme e meus colegas da Associação, faça-o até essa data.
  • 11 de dezembro: Anúncio dos indicados aos Globos de Ouro 2015.
  • 11 de janeiro de 2015: Festança. Champagne. Momentos inesperados. Micos. Beijos, abraços, vestidos, tapetão, vencedores, lágrimas, discursos. São os Globos 2015 no hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills.

Bom, não digam que não avisei. Pelo que tenho acompanhado (de longe) a safra brasileira está boa, este ano. Vamos nessa?


Guardiões da Galáxia: quando cinema é a melhor diversão
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Ana Maria Bahiana

Guardians abre

Confesso: estava com dois pés atrás com Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, dir. James Gunn, 2014) e admiti isso francamente lá no meu ask.fm. E tinha bons motivos:

  1. Aquele trailer. Imagino, aliás sei, que o marketing da Disney é danado de bom e mirou exato no alvo do público essencial do filme. Que não sou eu. Isso talvez explique porque, depois de ver algumas iterações do trailer, minha vontade de ver Guardiões chegou abaixo de zero.
  2. A overdose de filmes de super-herói. Neste último sábado, numa workshop de marketing e branding, a Marvel foi usada como case de uma grande virada de reposicionamento. E é mesmo – justo quando o consumo de seus quadrinhos estava em estagnação indo para a decadência, ela se reinventou desencarnando conteúdo de plataforma e invadindo cinema, TV e games. Palmas pra ela. Agora, que já esgotou minha paciência, ah isso já.
  3. James Gunn. Me perdoe, Jim, mas conheci você quando você batia panela pela Croisette, em Cannes, atrás do Lloyd Kaufman , parte do comboio da Troma, a produtora divertida e absolutamente classe-Z de gemas como Toxic Avenger, Splatter University e, para citar uma obra sua, Tromeo and Juliet. Isso seria até uma coisa boa – aí está Roger Corman que não deixa niguém mentir – mas você deu sequência à sua carreira com algumas coisas mega fracas para TV, e um filme tão execrado _ Movie 43 _ que merecia uma Framboesa de Ouro especial, cravejada de paetês.

Tendo dito tudo isto, evitei como pude as cabines oficiais e fui ver Guardiões como se deve – num cinemão de bairro lotado, com um balde de pipoca no colo e cercada pelo público-alvo por todos os lados. E adorei.

Alguns colegas apontaram – com razão – que Guardiões é um filme transnarrativa, ou meta-meta (termo que soa absolutamente pornográfico em nosso idioma, mas vá lá…). Ou seja, é um filme que prescinde de história, que se segura num fiapo de trama sem nenhum compromisso com fazer sentido ou apresentar grandes contornos dos personagens e seus dilemas. É um filme sobre uma experiência audio-visual. Quase, desculpem a blasfêmia, um Terrence Malick trincado depois de uma overdose de Red Bull. GUardians 1 Certo, existe um elemento disparador – um globo misterioso perseguido por várias facções interplanetárias, cada qual com sua agenda – mas isso é o de menor importância. Estudiosos e fiéis do cânon Marvel – no qual a saga dos Guardiões é decididamente um evangelho menor- poderão discorrer longamente sobre Kree e Xandar, ou a diferença entre Ronan e Thanos (ou sobre a exatidão da peruca da Glenn Close como Nova Prime).

Para mim, e, pelo jeito, para quase todo mundo na sala de cinema superlotada, não fazia a menor diferença. O prazer do filme era seu ritmo exato, sua medida certa entre aventura e comédia, seu grupo de adoráveis anti-heróis no meio de tudo, a dinâmica de suas sequências de ação, a insistência em não se levar a sério, suas múltiplas referências pop, de Indiana Jones a Kevin Bacon, de Star Wars a O Segredo das Jóias, com pitadas de Flash Gordon, Jornada nas Estrelas e Os Eleitos. Tudo isso ao som da mais inesperada das trilhas – o mix tape de pop e rock dos anos 1970 e 1980 que nosso herói Peter Quill (Chris Pratt, perfeito) ouve insistentemente, referenciando um dos poucos pontos consistentes da história, sua ligação com a mãe, autora das fitas.

Quando, no tempo das canções dessas fitas, George Lucas e Steven Spielberg decidiram abraçar publicamente sua paixão pop, dando uma guinada numa geração criada à sombra da nouvelle vague e do neo-realismo, eles estavam pensando nos seriados de baixo orçamento que formaram o imaginário da geração de seus pais. Guardiões faz muito isso, pegando agora o fio de outras gerações – as criadas com os filmes de Spielberg e Lucas – e dando a ele o tratamento cinco-estrelas que os efeitos de hoje permitem. Guardians Gunn Não é a toa que o cinema estava cheio de famílias completas, mães e pais e avós e avôs levando seus filhos e netos e divertindo-se com eles, possivelmente por motivos diferentes, cada qual criando sua própria história e referências em cima da experiência de ver o filme. Meta-meta. A obra é a história.

Então, Jim, desculpe a desconfiança. Eu devia ter lembrado que você também escreveu o ótimo Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004) e dirigiu o estranho mas super interessante Seres Rastejantes (Slither, 2008). E qualquer filme que começa com “I’m Not In Love” já ganha meu coração logo na largada.


Confissões de um homem muito estranho: uma conversa com Guillermo del Toro
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Ana Maria Bahiana

guillermo-del-toro_Fotor   Alguns dias atrás passei uma tarde excepcional com uma pessoa que admiro muito: Guillermo Del Toro. Desde Cronos, em 1993, Del Toro me impressionou como um olhar e uma voz originais e únicas, ao mesmo tempo extremamente culta e radicalmente pop, com uma pegada visual que estava fazendo falta no gênero fantástico. Tudo o que Del Toro fez depois confirmou minhas suspeitas. Ainda bem. Na véspera da estréia norte-americana de The Strain –a  adaptação épica dos três livros que Del Toro escreveu com Chuck Hogan – Del Toro me deu o prazer de uma longa conversa sobre terror, cinema, sua coleção de memorabilia e as três casas que mantém aqui em Los Angeles para abrigar toda a sua tralha, mais mulher e duas filhas.  (Devo acrescentar que Del Toro está, neste momento,  em adiantada pré-produção de Crimson Peak, thriller de terror  gótico sobre casas mal assombradas estrelado por Jessica Chastain, Charlie Hunman e Tom Hiddleston, e que estreia aqui em outubro de 2015….) Alguns momentos bacanas do papo: Você começou sua carreira  na TV, no México, e agora está aqui na TV dos Estados Unidos – como, aliás, vários de seus colegas diretores. A TV está mesmo passando por uma Era de Ouro? _ Eu acho a TV um dos lugares mais interessantes, criativamente, hoje, para se trabalhar. Uma coisa que amo na TV é a possibilidade de mudar o tom da história de temporada para temporada, de desenvolver profundamente os personagens, de criar e explorar quantos arcos narrativos quisermos. E não estou nem falando de algo experimental _ estou falando de um canal pago ou mesmo aberto. Você não precisa correr para desenvolver seu personagem – você não precisa nem mexer nele nas primeiras quatro horas de uma série! E num filme você tem duas horas para fazer tudo! Para quem escreve, como eu, é uma proposta irresistível – hoje podemos ser muito mais audazes, mais ousados, e ainda sim atingir uma grande plateia. Não me espanta que muitos de meus colegas, diretores como Alfonso Cuaron, David Fincher e Steve Soderbergh estejam trabalhando para TV. É onde as coisas interessantes estão acontecendo. Você se policiou ou se restringiu quando adaptou seus livros para a TV? _Eu não sou muito bom em termos de me policiar ou me restringir… Mas até eu achei que alguns trechos dos livros eram pesados demais para serem mostrados… perturbadores demais. Então deixei de fora. Se algo é extremo demais – mesmo numa série que é cheia de momentos extremos – isso pode interferir com a apreciação de toda a história. Ler é uma coisa, ver é outra. Algo excessivo pode passar a ser repugnante, visualmente. E isso sou eu falando – eu que nunca tive medo de coisas repugnantes!

Del Toro e uma parte muito pequena de seu "terrário".

Del Toro e uma parte muito pequena de seu “terrário''.

Como você se define? _ Sou um cara muito estranho. Eu fui um menino muito estranho, e agora sou um homem muito estranho. Adoro minha coleção de monstros, meus kaiju, meus anime, meus posters. Moro numa casa normal com a minha familia mas trabalho nas minhas duas casas anormais onde tudo isso está reunido. E me sinto feliz como um lagarto num terrário. Eu sempre me achei um lagarto. Se você põe um lagarto num shopping, ele vai ficar apavorado, perdido. Mas num terrário ele está bem feliz e contente. Esse sou eu. Você diz isso porque gosta do terror e do fantástico? _Não… é porque eu sou estranho mesmo, e sei disso. Sou obcecado pelo terror e pelo fantástico desde garoto, mas sempre busquei algo diferente nele. Sempre procurei ler tudo sobre o assunto, ver todos os filmes possíveis. Mas quando eu crio, eu sei que estou pegando uma tangente. Estou indo por um outro caminho. Sou igual a um taco com caviar e um pouco de ketchup e mostarda por cima. Nem todo mundo vai gostar de mim, mas é como eu sou. Qual o diretor de cinema fantástico que você mais admira? _Tem muitos… Terror é uma coisa tão pessoal… é tão pessoal quanto comédia… o que faz uma pessoa rir pode dar nojo em outra pessoa… Terror é assim também.  O que eu acho apavorante e genial e sublime outra pessoa pode achar medíocre, e não se impressionar nem um pouco. Admiro muitíssimo John Carpenter. Acho um diretor ousado e maluco que nunca foi devidamente apreciado. Ele é fantástico, inteiramente avant-garde. O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982) é absolutamente incrível! É fantástico! E no entanto foi massacrado quando estreou… Por isso eu digo que sou estranho mesmo… Se você quiser ler sobre o lado literário da minha conversa com Guillermo del Toro, ela está aqui.